Estou pela primeira vez nestas andanças dos "blogues"... Resolvi fazer um em homenagem ao meu companheiro de 9 anos, o meu filhote, de quem tenho muitas saudades! Entretanto aproveito e vou pondo cá ideias que me passem pela cabeça! (16Set.2005)
Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
O RETORNO - Dulce Maria Cardoso - Na Geração C
Tenho quinze anos. O meu pai foi levado, de mãos presas atrás das costas, por um grupo de homens armados. Nada pude. Parto amanhã com a minha irmã e a minha mãe, para um país que desconheço, onde teimam afirmar que retorno. Nunca mais volto a esta terra quente, que é a minha. Deixamos cá tudo. Até a Pirata. Não sei se, se apercebeu que era para sempre que partíamos. Correu tanto atrás de nós…
Inimaginável? Aconteceu em 1975 a muitas famílias portuguesas, aquando da descolonização. A escritora, Dulce Maria Cardoso (1964), viveu esses amargos dias e veio agora, contar-nos uma versão da história (não a sua) pela voz de Rui. Miúdo expedito e travesso que relata o que lhe acontece com uma leveza crua que magoa. Sai de Angola rapaz, chega a Portugal chefe de família. Rui, Milucha e dona Glória são encaminhados pelo IARN – Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais – para um hotel de cinco estrelas no Estoril. Um edifício de luxo a abarrotar de pessoas desoladas, onde tem de dividir o quarto com as duas mulheres, célere se transforma em prisão que asfixia Rui.
Repete amiúde, talvez para se consolar: «Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa.»
Faltavam-lhe o pai, os melhores amigos Lee e Gégé, a cadela Pirata, inclusive as vizinhas coscuvilheiras que maldiziam a mãe. As referências de outrora foram-lhe arrancadas à pressa e não houve tempo para se habituar ao frio, ou às pessoas que os acolheram desconfiadas. Algumas hostis. Era, todavia, tão vulnerável quanto resiliente e acompanhamos o seu recomeçar ao longo do período, que excedeu 365 dias, em que se encontrou naquelas circunstâncias. Cruzamo-nos com novos amigos, com pessoas que o intrigam, com as paixões que alimenta. Somos cúmplices nas transgressões. Na inocência também. Ouvimos-lhe o léxico à moda de lá. - Geleira, cacimbo, ginga-ginga, dar maca, são exemplos. - Conhecemos os hábitos que os desterrados trouxeram procurando, como podiam, reproduzi-los em parcos metros quadrados. Ser-vos-ão apresentadas inúmeras personagens. Apaixonante(s). Trata-se de viagem no tempo. Estamos em 1975. Temos quinze anos. Escrita magistral de quem sabe sair de si e ver pelos olhos de outrem.
O Retorno (Tinta-da-China, 2011) é livro imperdível para se saber mais sobre a história recente de Portugal. Despido de juízos de valor, ou preconceitos. Testemunho de sobrevivência ao sofrimento, à maldade, à violência, ao medo, na perda maior de uma (tantas) existência(s).
150 BPM – A adquirir. Lê-se num fôlego. Sugerir a leitura.
Da dor que o fracasso representa e de como as gargalhadas ao recordá-lo redimem
Deitar-me no chão. De cabelo lavado. «Há pó aqui.» Inspira. Expira. Relaxa. Suja-te. Sem medo. Liberta-te. Sopra o cotão que levas na alma. Deixa que o solo te fale. Quase dormes… Sossegas a cabeça. A doença. Fazer de gorila, de caranguejo, de galinha. Erigir cena a partir de um quadro. Uma mulher nua. Sensual. Altiva. Saltos altos. Imagine-se. Tão árduo crer ser o que não me define. Dificuldade e dor entrar noutro papel. Qualquer um. Sou, há demasiado tempo. Contida. Não acredito em mim. Como num homem e numa mulher que se confrontam, com subtilezas de suricata? A perna direita a desobedecer-me, treme, rouba-me o chão. O corpo desengonçado numa recusa à graciosidade exigida. A voz acobardou-se. Ficou-me presa à garganta. Uma mão débil pendurada, pelo indicador, numa das cordas vocais. O desânimo. A frustração. Quanto maior a prova, maior a vontade. Grito para o estômago que para o céu da boca, por ora, incapaz. Quanto mais trabalhoso se me afigura, mais se me acicata o espírito. Recordo o Sábado 11 e rio-me da ousadia. Gargalhadas a morder-me a cara e as orelhas. Quente de ansiedade. Uma merda, é certo. Todavia, honesto(a). Fiz o melhor que pude. Posso pouco. Facto. Quero aprender ainda muito. (Ainda tudo.) Conheço hoje mais 9 pessoas que me encantam. Esperançosa que o verbo se transforme noutra coisa maior. Reforço laços com duas que já me compunham. Companheiras de aventura, ou exorcismo. Encho o peito de ar. «Que sorte poder vivê-lo.» Ergo a cabeça, demando horizonte incerto, farejo o porvir em movimentos lestos de desconfiado. Clamo convicta: Andas outra vez nua pela casa Teresa?
Post scriptum «E há a Lucky. A mansa cadela preta.»
Minha amiga insular como é que vai isso desse lado do Oceano? Um grande beijinho cheio de saudades! Para quando um jantarito dos nossos no Caruzzo? Espero que esteja a ser um dia feliz lindinha.
Ai falha gravíssima... PARABÉNS RITINHA! Parabéns F.! Adoro as 2. (14/02/2012)
Era uma mesa, no meio da rua. Perdida. Com quatro cadeiras presas ao chão a protegê-la. Não achou estranho, sentou-se. Pensou: está aqui para que descanse e leia a revista, sob este dia bonito. Pessoas passavam ao redor daquele tampo desenquadrado e da mulher sentada, que ora ria, ora chorava ao sabor das linhas proferidas por um bigode.
Chega-se-lhe um homem mais velho. Sorriu. «Perdoe-me. Não posso mais estar de pé.»
Sentou-se na cadeira imediatamente ao lado. Virou-se para ela. Quedou-se num silêncio de dois.
Chega-se outro. Sorriu. Limpava os óculos. «Boa tarde!»
«Estou de partida. Não por vossa causa.» (Sorrindo.)
Era a hora em que o aparelho fixado à parede clamava regresso. Disto eles não sabiam e não acreditaram.
«Pode continuar a estudar!»
«Não seja pela gente.»
Não era. Não fosse a necessidade e teria ficado por ali, a conversar, a tarde toda. A saber deles. A contar dela.
Disto eles não sabiam. Não acreditaram. Viram-na afastar-se crendo que repudiara a companhia.
«Talvez a diferença de idades...» «Talvez medo...» «Talvez alma antipática.»
Punr inxemplos: Participar em desafios lançados por revistas e / ou estações de rádio. Que é que penso, no âmago do meu ser egocêntrico derivado a ser única cria?
ARE YOU TALKING TO ME?
Claro que nunca obtenho resposta. Para que preciso de respostas, se é meu apanágio ouvir o que me apetece?
Pois. Vai daí, uma das cenas em que participei ultimamente foi num desafio da LER em que tínhamos de criar uma frase relacionada com a leitura.
O que é que sucede? Sucede que não entendi logo de início que o objectivo seria mesmo arranjar uma frase sobre esse acto maravilhoso que é ler, digna de figurar numa t-shirt. Achei que o discurso era em sentido figurado "ah e tal uma t-shirt" vindo a constatar, mais tarde, que não era.
Assim, a boa da Deia espremeu-se toda para chegar À frase. Foram horas, meus amigos. Centenas de minutos que me proporcionaram momentos de prazer indescritível para obter "isto", de que muito me orgulho. (Ainda que para nada sirva. Não dá para vestir, não dá para comer, mas fez-me escrever. Olaré.)
Aí vai alho:
"Arde a pele às costas subjugadas, arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); cheira ao carvão das frases sublinhadas, sabe ao sal do médio a virar as folhas com ruído; eis o vício avassalador e irreprimível que, ao aprisionar, liberta."
Eis que Deia percebe, finalmente, que o objectivo é a t-shirt.
(Senhores queridinhos da LER não sou assim tão estúpida, só percebi mais tarde, que a cena da t-shirt era a valer.)
Óoooooooooo. Pensei, mas não desarmei. Toca de enviar outras, só naquela.
A tentativa de resumir: LIVRE ENTRE(CRUZO) REALIDADES
A tentativa da baboseira: "Padeço de leitura e de micose: Quanto mais as coço, mais vontade tenho."
A tentativa do «ah que somos todos iguais na solidão»: "O frio de ser só acaba, quando visto livros que se me colam à pele."
Toda contentinha, mas com receio que enviassem senhores de fato empunhando notificação de providência cautelar que me impedisse, sequer, de voltar a abrir o blogue da revista.
(Os senhores já perceberam que não faço mal e deixam-me andar. Coitadinha.)
Perguntam vocês: Valeu a pena?
Então não?! Se soubessem o alento que me trouxe o trabalho de construção da primeira frase, estavam para aí a bater palmas, mesmo se a consideram fraquinha. Usar o tempo que temos a fazer o que amamos é tudo.
Quem ganhou? Quem ganhou?
Uma frase deliciosa. Justa vencedora. Não só, mas principalmente porque me remete para traquinices. (Gosto muito.)
Dedinho para cima para a Mariana Barata com a sua:
"Sim, vamos sair daqui. - Frente / No teu livro ou no meu? - Costas"
(Atentem como sou perita na arte de me atacar, antes que outrem o faça. Se já disse que isto vai ser lamechas, pejado de lugares-comuns e uma valente seca, que vos resta? Hum? Pois.)
Cedo me tornei a minha pior inimiga.
Cruel. Não tens amigos?! Agarras-te a um lencinho que cheiras à exaustão. É o teu melhor amigo esse lenço encardido? Quero a minha mãe… Ou colinho do pai. «Andreia não leves o lenço para a escola!» «Xe não o levo fico xojinha…» Um caroço no tornozelo. Cancro decerto. E o período que não aparece? És a última. Porque é que não te crescem as mamas? Todas já as têm. Estás parva? Faz qualquer coisa. És um bocado badocha. Tanto rabo para quê? E mamas? Mamas nickles. Que é que foste fazer para esse canto da sala com o Luís? O pai à tua procura. Sai daí. Diz que não querias. Adoece. Diz que não sabes porque te dirigiste à sombra. Sente culpa. Querias um beijo? A que propósito? Foge. Diz-te arrependida. Boa menina. Não se repete. Vais portar-te bem, de ora em diante. Não digas ao Nuno que gostas dele. A Inês também gosta e é mais bonita do que tu. Essa dor de cabeça? Um tumor. Já foste. És a última do corta-mato. Nem correr sabes. Que vergonha. Cora. Baixa os olhos se te encaram. Sê neutra. Olham para ti para te gozar. Acelera o passo. As gargalhadas que ouves? Para te agredir. Para saberes quão ridícula nasceste. Que cheiro é esse? Nas mãos, na roupa, na alma? Claro que o João não te ama, nem o António, ou o Gonçalo. Como? Já olhaste para ti? Já te ouviste? A voz desafinada que nunca diz o que queres. Porque é que nunca dizes o que queres? Dobra-te. Submissa. Entrega-te. Que alguém te queira. Por caridade, claro. Digna de dó. Chora. Chora muito. “Sou aquele a quem privaram de alegria sem ter cometido mal algum.” Escreveste na escrivaninha por baixo dos ‘TOU, Mrs. Frankenstein? Nada é realmente bem feito. Desenrascas-te. Sorte? Entortas o olho direito e os dentes de baixo um desalinho medonho. Os pés para onde não olhas. As mãos sapudas, dizes. Masculinas, pensas. Sinais incontáveis na pele que qualquer dia te engolem. E a celulite, caraças. O fungo na perna direita. A mancha no canino inferior. O cabelo crespo. Quem para to afagar? Refugia-te. Não fales. Não faças. Não vivas. Desaparece.
Cansei (não de ser sexy, nunca fui, mas) deste suicídio mental. Chega porra! Chega! Lento caminhar ao meu encontro. A maior parte da existência foragida de mim. Risível, sim. Por querer que os outros me aceitassem, pelo que se via somente. Por crer que o fariam, quando eu não tentava, sequer. Quando guardava o que me ia dentro com fervor de cão de guarda. Dei-me uma hipótese.
- Olá. Andreia. Tu?
- Também.
- De que é que gostas?
- De escrever, rir muito, falar mais, de ver. E tu?
- Igual. Prazer.
- Vai um cafezinho?
Dei-me a mão e fui conhecer-me melhor. Sem medo(s). Abrir o peito, escarafunchar as feridas, abraçar-me, esbofetear-me q.b. (hábitos arreigados não morrem do pé para a mão). Aprendi que os meus ombros não foram feitos para andar curvados (obrigada F.) e que de nariz no chão, perco a paisagem. Habituei-me à minha voz e comecei a escutá-la. Dar-lhe importância. Sim, podes desejar isso. Não é descabido. Apenas é. Porque te interrogas tanto? Descansa um pouco. Aceita(-te). Ai erras, erras. Não és perfeita. Não. Ainda assim não é preciso esse chicote. Pousa-o. Não te doem as costas? Estão tão marcadas. Solta-te do poste. A escravatura (pelo menos a declarada) acabou há muito. Faz o que queres. O que queres, não o que os outros esperam. Os outros nunca estão satisfeitos, como também raras vezes te contentas com eles. Somos assim. És um deles, sabes? Tão-só humana. Não ages sempre bem, não. Portas-te mal, sim. Esquece essa mania da perfeição. Como se andasses constantemente em desacerto e os demais nunca se enganassem. Todos cagamos, todos morremos. Simples. Sem roupa temos frio, somos vulneráveis. Não és mais, mas não és menos. És. Encara-te. Tens defeitos, pois tens: falas demais; dizes que não impinges a tua maneira de pensar, já a fazê-lo; és agressiva; defensiva; desconfiada; tímida em demasia (já em recuperação); calas-te, ainda, imensas vezes; não és convicta em coisas que deverias (desconheço se isso faz de ti cobarde); és melindrosa (“Picas-te” com muito pouco e, amiúde, com afirmações que te não dizem respeito); opinas sobremaneira (Aprende a ouvir somente. Se te dizem: é assim. Aceita que o é, sem querer “consolar” à força.); tens a mania da perseguição; fazes pouco por ti.
(Ai que esta era a parte em que dizia bem de mim. Foda-se. Pronto agora é que é:)
Sou uma miúda porreira.
(A experiência neste departamento não é grande. Fico-me pela sinopse.)
Curioso que tenham sido necessários 34 anos. Hoje, de facto, as olheiras, as peles das bochechas e do papo a descerem (cabronas!), as rugas, a cintura que não volta a ser tão fina, as pernas a cansarem-se mais depressa, o cabelo a rarear, os olhos sem a vivacidade de outrora, os derrames, a juventude visível a acabar-se-me e eu a sentir-me linda. Linda! Por dentro, onde mais importa, sou catraia jeitosa e nessa idade interior permanecerei até ao último fôlego. Adquiri segurança que só o tempo e a(s) experiência(s) me podiam trazer. Sozinhos estamos todos. Ter-me-ei, até ao fim, por companhia. Convém ser agradável e não uma chata, sempre a espartilhar-me com críticas negativas.
(Vi um ruivo no American Idol que com 16 anos já sabia disto. Deu-se-me uma epifania, ah pois deu.)
Não sei o que pretendo com tanto palavreado. Quando pensei nisto pareceu-me boa ideia, agora uma grande cagada. Tudo para dizer que me limito a viver o melhor que sei e posso. E que acredito que não há impossíveis e que nunca é tarde e que serei capaz de fazer tudo quanto me proponha e todas essas frases maravilhosas que debitamos, enquanto sentamos a peidola no sofá e ficamos quietinhos à espera de uma chuva de milagres pessoais. Quero ser um exemplo de vida vivida, para o Tiago. Não um monte de angústias e de “ah se eu isto, ah se eu aquilo.” . Um passo de cada vez, faço o meu percurso. Mas ando. Sinto-me livre. Sou livre. A vida acontece-me. Há escolha(s). Sei lá se acerto. Sei que gosto disto. Mesmo quando penso: qual o sentido? Que grande palhaçada. (Sem desprimor prós palhaços ó TéTé. Maneira de falar.) Gosto mesmo muito de cá andar. Dos amigos, da família, das pessoas que tenho conhecido e a quem aprendo, a pouco e pouco, a dar-me. Falar com as pessoas não é tão difícil como supunha.
Parabéns a mim que já evoluí muito e almejo continuar a aprender. Quando não sei o que fazer de mim? Invento. Mas não paro.
Venham mais 34, por deus, que isto é bom comó caralh…
(Sou asneirenta, pois sou. Notem. Notem como me assumo sem preconceito. Há uns anos? ‘Tá quieto. Ah e tal sou tão delicadinha. Não sou pá. Sou assim p’ro desajeitada.)
E vai de maneiras que é isto.
Ó Deia se fosses melómana sabias agora ir escolher uma musiquinha toda catita e muito original p’ro teu aniversário. Como não és… Aí vai alho:
Post scriptum 1 - Era para ter dito ao mundo o que não posso dizer-te. Arrependi-me.
Post scriptum 2 - Parabéns Anastácio. Há anos que não falamos, mas terás sempre um lugar no meu coração. Dia feliz rapaz! beijinhos
...que vou aprender a falar sem corar e sem que o coração me rebente na boca. Se tiver de representar, representarei, mas não volto a calar as coisinhas que tiver para dizer, apenas por timidez. Olaré.
Amiga, estás a ler(-me)? Já passámos por tanto que tenho certo que a nossa amizade é para sempre. Houve alturas de maior proximidade, outras de afastamento. Meras fases num caminho feito a duas. Gosto muito de ti. Estou sempre aqui.
Quanto valem os nossos objectivos? Qual o limite do valor, que nos dispomos pagar, para os concretizarmos? Para Gisela Batista o fim justificava quaisquer meios e a pujança da sua convicção enleou, irremediavelmente, quatro companheiras num sonho comum: alcançar a fama com um conjunto de mulheres cantoras. Nani e Maria Luísa Alcides, Madalena Micaia e Solange de Matos subjugaram-se às vontades da obstinada mulher. Importava que as ApósCalipso gravassem um vinil, invadindo a banda sonora da vida das pessoas com as suas canções. Toadas que deveriam tornar-se êxitos inolvidáveis, destinadas a marcarem décadas. É Solange, num monólogo, quem nos dá conta do sucedido, no final dos anos 80 do século vinte. Entre o 16/11/2009 e o 23/11/2009 escrever-nos-á sobre o que recordou ao participar, três meses antes, num programa de televisão em que Gisela Batista fora protagonista. «A Noite Perfeita». Nessa reencontrou-a, às antigas colegas e ao seu primeiro desmedido amor, João de Lucena, o coreógrafo.
Vinte e um anos atrás, Solange era uma estudante de 19 anos na Universidade Nova. Vivia num quarto alugado, perto do Campo Pequeno, deslocada do Sobradinho - Onde viveu com os pais depois de regressarem do Gurué (Moçambique). - e dos outros. Fazia rimas. Questionava. Sonhava. Quando as irmãs Alcides, a quem idolatrava em silêncio, a desafiaram para participar num projecto musical, escrevendo-lhes as «lyrics», ficou incrédula e embarcou na aventura mais por curiosidade, do que por fé.
Assim conheceu a «maestrina» (Gisela) e o rumo da sua existência alterou-se. A ambição incrustou-se-lhe à pele. A obsessão pelo estrelato cresceu. A expectativa, como a fome, comprimia-lhe(s) o estômago.
Não se tratava de quatro inocentes e um algoz. Todas se comprometeram até à alma. Todavia, Gisela detinha os meios financeiros, o que a colocava em vantagem, perante as demais. Pelo sucesso sacrificaram amores, o corpo, a maternidade, até uma vida.
Neste romance (Dom Quixote, 2011) Lídia Jorge (1946) transporta-nos ao âmago do(s) «império(s) minuto» - Expressão sua. Brilhante. - Momento(s) com tanto de esplendoroso, como de efémero. Trata-se de enredo que situaríamos, sem dificuldade, no presente. Haja vontade, dinheiro, contactos e “milagres” acontecem, mesmo se num grupo de cinco a única com reconhecível talento para o canto fosse Madalena Micaia. Revelou-se suprível.
Quando as luzes da ribalta ofuscam e sair do anonimato é mais importante do que respirar, afigura-se árduo discernir se o que parece o é deveras e se há mérito no que se alcança.
Afortunada? Título do single em que Solange depositava maior esperança, era a sua mãe que entendia que «Somos apenas o bem que fizermos aos outros, o resto não vale coisa nenhuma…» (Pág.259)
110 BPM – Numa era em que mostrar se revela o mais importante, este livro propõe-nos uma interessante reflexão sobre as prioridades que se estabelecem para a vida. Tinha dificuldade em separar-me dele. Sugerir a leitura.
Post-scriptum: Aproveito este espaço para divulgar uma iniciativa da revista LER. Intitula-se LER15_25 e destina-se a todos os jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos que queiram partilhar com os leitores da publicação a sua escrita, fotografias e/ou ilustrações. Não percam tempo! Cultivem a vossa criatividade e desenvolvam o(s) vosso(s) talento(s).
Não pode uma Mulher ser competente, que se tem logo de arranjar por onde pegar. Que tristeza tantas cabeças para quem a roupa, importa mais do que os feitos.
Não tenho qualquer número teu, agora, por isso espero que vejas isto, antes de ires.
Foi muito bom estar contigo ontem, Amigo. Gosto de ti. Muito. Muito. Muito. Fazes falta cá, mas fico feliz de te ver bem. Realizado. Feliz. És um dos nossos e estás sempre connosco, mesmo com um Oceano pelo meio. Faz boa viagem. Até já. Um abraço daqueles!
(Ah que a saudade já me está a morder os calcanhares caraças.)
Ao não alcançar o Olimpo pela via almejada, alegra-se com o que lhe é ofertado pela vida.
Já dei indicações ao Eduardo Lourenço sobre como encontrar o WC mais próximo.
Feita estúpida, perguntei-lhe se necessitava de ajuda. Estendi-lhe solícita o braço. Ele, um senhor (um gigante), agradeceu-me com delicadeza e dispensou-me a atitude maternal, que ainda anda cá para as curvas.
Derivado à parvoeira de que fui acometida no ano transacto, a certa altura (aí por volta de Março, ou Maio) deixei de postar as felicitações, pelos aniversários das minhas pessoas. Tantos dias importantes deixei para trás que, às tantas, achei por bem desistir da coisa, pelo menos enquanto andasse azamboada. Eis que se me agarram aos colarinhos com a pergunta: E estás melhorzinha filha? Ao que vos respondo de cabeça enviesada: Não sei. O que sei, é que hoje recomeço a tradição. Quem é que faz anos? Quem é que faz anos? - Vocês saltitando. - A minha Bzuu! - Eu de braços abertos, pose triunfante, alegria estampada no rosto.
Parabéns minha Amiga, minha companheira de tragédia(s) e palhaçada(s).
Penso em ti. Marcam-me o teu sorriso inacreditavelmente bonito e a placidez com que encaixas os murros da vida. Poderão perder vivacidade, por momentos, os teus olhos, jamais a doçura e isso é especial. Estás comigo desde os quinze anos. Mais de metade de uma existência que se realiza deveras na(s) Amizade(s). Recordo-nos desde então e defino-nos: gargalhada(s). Revela-se tudo tão leve nesta pertença em que ninguém se possui.
Um privilégio pertencer-te. Obrigada.
Um abraço daqueles.
Adoro-te.
(Assim que puder, complemento-te isto com um vídeo do "tu tubo" de um gajo com uma voz que uuuuui valha-me minha nossa senhora... A dizer I hope that's gonna make you notice. Someone like me. la la la la la la.)
Para algumas pessoas que amo ouvirem enquanto lêem.
Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor Há outras coisas no caminho aonde eu vou Às vezes ando só, trocando passos com a solidão Momentos que são meus e que não abro mão
Já sei olhar o rio por onde a vida passa Sem me precipitar e nem perder a hora Escuto no silêncio que há em mim e basta Outro tempo começou p'ra mim agora
Vou deixar a rua me levar Ver a cidade se acender A lua vai banhar esse lugar E eu vou lembrar você
É... mas tenho ainda muita coisa p'ra arrumar Promessas que me fiz e que ainda não cumpri Palavras me aguardam o tempo exacto p'ra falar Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir
Já sei olhar o rio por onde a vida passa Sem me precipitar e nem perder a hora Escuto no silêncio que há em mim e basta Outro tempo começou p'ra mim agora.
Vou deixar a rua me levar Ver a cidade se acender A lua vai banhar esse lugar E eu vou lembrar você...
Ana Carolina - P'ra rua me levar
Na LER de Janeiro uma crónica a espelhar o que penso. Com a mesma matei um preconceito. Se já gostava por demais do Professor, agora, gosto também da Pessoa.
Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferia ter nascido homem. É violenta a vida para todos, isso é certo. Para uma mulher, porém, na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que simples agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece dessas regras que inventaram para nós. Não me sinto a mulherzinha que pretendem que seja.
Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Mas eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:
- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.
Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos:
- Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?
Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o pensamento que me habita não se adequa ao presente? Antes a morte por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue as mutilações. Que é isto que me fazem à alma senão uma amputação? Sei que sofrias. Vi lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei pude prová-las no sal que te temperava a face quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Constantemente a perder o fôlego, porque quanto mais corria menos te alcançava. E no fundo sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, a não ser este imenso amor que sempre nutri por ti e tu sem o aceitar.
Muitas pessoas passam tanto tempo obcecadas farejando a vida e as idiossincrasias alheias, que se esquecem que teriam as suas próprias (decerto interessantíssimas) para viver.
9.º Mandamento: Não serás feliz sem vida, por isso retira dos génios o que te for útil, tendo noção que jamais serás um deles. Não serás exímia a escrever, poderás sê-lo, sem dúvida, a viver.
10.º Mandamento: Não serás feliz sem escrita. Não te rendas ao quotidiano. Recusa o cansaço, a preguiça. Só não serás capaz de conciliar todas as que levas dentro, se o não desejares.
Bom ano Deia. Estarei ao(do) teu lado. Força miúda.
Ah pois que vou fazer a suma do ano, ah pois que vou, sim senhora. E não se enganem, vão ser mesmo muitos caracteres. E, pior que tudo, sem revisão. Bebi café. Não tenho sono. O melhor é porem a mantinha nas pernas que está frio (Estou com uma agora mesmo, embora me mantenha, é claro, muito sexy toda nua por baixo da mesma. Meias anti-deslizantes, pijama com um burrico de ar esgrouviado e olheiras inenarráveis? Essa agora. Nuinha. Juro.) E pronto, sei bem que é aqui que vos perco.
Há meses que vos não redijo um testamento e tenho, confesso, saudades. Há outras coisas das quais as sinto. Desmedidas. Muitos me olharão de esguelha se disser da falta imensa que me faz a liberdade (de movimentos) de outrora. Era o tempo em que podia ser espontânea e dizer “SIM!”, a tudo, sem preocupações de horas, ou responsabilidades. Bastava o impulso, um telefonema a avisar e toda eu era iniciativas e vivências. Agora não é assim. Há que fazer escolhas. Vou a isto, àquilo não. Vivo isto, aquilo é impensável. Ora, atenção que não penso que seja mau. Apenas diferente. Necessitei de proceder a um reajuste interior. Talvez o maior que alguma vez me sucederá. Andei em pânico nos primeiros cinco meses do ano. «Ah que me perco!» «Ah que não sei quem sou!» «Ah que a euzinha que era faleceu!» «Ah que não me reconheço!» «Ah que não sei fazer isto!» «Ah que tenho uma centrifugação a decorrer na mona!» «Ah!» «Ó!» «U» «Sabes que começou no A? A A A» «Todos a bordo! Todos a bordo! Do comboio… Dos dinossauros.» Mas por que carga de água é que já andas a ver horas de Canal Panda, Deia Meia, se o bichinho passa 22h por dia a dormir? Vai tomar banho que te sentes melhor. E assim era. A aguinha acalmava-me e lá principiava a crer, que havia vida depois da(s) mamada(s). – Já vos contei do ataque de riso que tive aos 18, na cama, a estudar psicologia, derivado ao texto ser mamadas para aqui, mamadas para ali? Pois. – Demorei tempo a perceber que não era o meu fim. E outro tanto a conseguir acalmar-me. (A culpa é da obsessão com a morte, que luto por arredar.) Eis que se me deu A epifania (Fica sempre bem falar em epifanias.): Deia queridinha tu hás-de ser capaz de fazer tudo de novo. Levará tempo. Preocupa-te, por ora, em aproveitar, esta fase bonita da vida. Sim, andas pegajosa e desgrenhada. Sim, não consegues tomar o pequeno almoço sem te levantares três vezes e engolires o pão à pressa. Sim, não consegues fazer contas de cabeça, ou dizer duas frases com nexo de seguida. Sim, nem para ires ao Pingo Doce és autónoma. Mas tens mais uma pessoa na tua vida para amares. Para ajudares a caminhar no mundo e que te pode devolvê-lo sob outra(s) perspectiva(s). Inspirei. Expirei. Percebi que enquanto andasse a esbracejar só me cansaria. Não seria a Deia do antigamente. Bloqueada. Não seria boa companhia para o meu filho. Zangada. PAM. Limita-te a viver, gaja, que tudo se compõe. Usa lá em ti os clichés que proferes, quando consolas os outros. Cura-te, pá. Tive muitas destas conversas dentro. Continuo a tê-las. Há muita ilusão à mistura. Álibis a que recorro para justificar a preguiça. O que não faço? A mim o devo.
Implorei à Bzuu. «Não me deixes “morrer”.» (Ah o dramatismo não me abandonou. Querias…) Convida-me para fazer cenas. Não terei iniciativa por uns tempos. Ainda que te dê muitas negas. Não desistas! Convida-me! Assim o fez. Estreei-me no pós-parto a ver o caveman LFB. Tinham passado 22 dias do dia inolvidável. (Orgulhosa do “meu” menino. Tão bom. Ri-me muito. Fiquei feliz por saber que estava ali a assistir ao que muito o realiza.) Não mais parámos. Gift, Deolinda, Dona Maria, São Luiz, Para acabar de vez com a leitura, Cornucópia, Teatro Aberto, Monumental, Oeiras Parque, Residence (que grande perda), hambergas gordurosas, bifes com molhanga, Artistas Unidos, King, LA e HardRock Café, trocas de livros, RAP e ABB, Optimus Alive (Ajuda-me Bzuu, vê na tua agenda que eu não apontei!) OBRIGADA BZUU. OBRIGADA.
Apaziguei-me.
Faço o melhor que posso. Quando posso. Reaprendo a ver as coisas. Enchem-me de alegria o olhar risonho do T., as suas gargalhadas, as mãos inquisidoras e incansáveis, as perninhas que já o levam onde ele quer, a curiosidade com que encara o que o rodeia, o cheiro que me não canso de inspirar, o som da voz, o ritmo a que dobra os joelhos quando dança desengonçado, a simplicidade do que o diverte, ele gostar de me ouvir cantar, quando o faço pior que as galinhas, o Amor imenso que lhe tenho e que cresce a cada dia. Tudo o resto se torna pequeno. As angústias, a consciência das concessões, o medo? Num saquinho para levar para o lixo quando sair amanhã.
Outros tópicos:
a) Voltei às Aulas da Primavera, alento maior. Aprender. O que me move.
b) Assumi-me CONTRA o Acordo Ortográfico, depois de meses no limbo. Obrigada Venâncio pelo esclarecedor artigo.
c) Fui a um dos dias do Alive completamente sozinha e senti-me bem. Experiência bué radical sendo tão acanhada.
d) Constatei que tenho quase a certeza que não gosto da escrita do Borges e que por isso não mereço o ar que respiro. Alguém me salve desta insânia literária.
e) Ensaios de Cortazar e Sebald? Só quando for mais crescida.
f) Perdi o medo de expor o que faço. Concorri ao Conteconnosco com ESTE texto. Pedinchei votos sem pudor.
g) Levámos o T. a ver o Dó ré mi perlimpimpim: caladinho, atento, encantado com a penumbra que o envolvia na infantil encenação. Renovou-se-me a alma.
(De facto, isto das alíneas decorre do café estar a bazar do meu sistema nervoso, pelo que, a soneira que já vos assiste há largos minutos, me começa a derrotar.)
h) As ESCRELEITURAS na Geração-C continuam o que me faz muito feliz.
i) Li poucos livros. Pouco escrevi. Inúmeras ideias pairam no caderninho verde à minha espera. Irei ter com essas, estou certa. Não culpo outrem, que não eu própria, pela latência. Permito-me a incapacidade de agir. Perdoo-me a inércia. Tenho direito a falhar(-me). Os livros de 2011:
i.Netherland – Joseph O’Neill
ii.O Bom Inverno – João Tordo
iii. Um teatro às escuras – Pedro Tamen
iv. As novas cartas portuguesas – Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa
v. A questão Finkler – Howard Jacobson
vi.O coração das Trevas – Joseph Conrad
vii. Volta ao dia em 80 mundos – Julio Cortazar (Ainda não o consegui acabar…)
viii. Por este mundo acima – Patrícia Reis
ix. Jerusalém – Gonçalo M. Tavares
x. Ficções – Jorge Luis Borges
xi. Melancómico – Nuno Costa Santos
xii. A noite das mulheres cantoras – Lídia Jorge – Leitura em andamento.
j) Viajei. Boavista – Cabo Verde.
k) Pearl Jam Twenty – Weeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
l) Conheci o pior de mim. Combate aguerrido àquela em que me não quero transformar. A dita cuja é tramada. Sempre a vir à superfície. Não há pachorra.
i. Começo, todavia, finalmente (Porra!), a aceitar-me.
m) O pensamento neste momento está prestes a entrar em Stand-By.
Até para o ano! 2012, cá te espero: mangas da alma arregaçadas*.
*Disse-o primeiro carago**! Sou Maria-ninguém, mas também tenho ideiazinhas está bem? Dasse.
**Já tem link para quem teve dúvidas e teve de ir à procura... Um bem haja.
Com ele aprendi a sentar-me no chão, sem medo das manchas que se me atirariam à roupa. Molhei calças sem me importar. Olhei incrédula para as mãos, enquanto as enterrava na areia. Permiti-me unhas encardidas de terra e de relva. Dei festas a cães que não conheço e não me lembrei de ter de as lavar. Observei-o enquanto aferia a rugosidade do alcatrão e coloquei a minha mão bem perto da sua. Preto. Quente do sol. Cheirava a pneus e a pastilhas elásticas. Tantas texturas se me revelam agora. Reaprendo um olhar puro, sobre todas as coisas. Para quê “Não te sujes”, “Põe-te direito”? Regras que não entendo. Guardo-as na gaveta dos classificados. Pouco me interessam. Enfrento o escuro por ele e é com ele que avanço estóica na treva. Que a não tema tanto. Fecho a porta ao discernimento. É tempo de sentir.
Havia um homem que endoidecia com as mentiras que lhe diziam.
(Molhava o bico.)
Outro penava louco com o que cria que lhe sussurravam, contudo, nada era transmitido deveras.
(Bico seco, seco.)
Aqueloutro não suspirava, nem agia.
(Bico aberto.)
E um havia que acusava os outros de permanecerem quietos, como condenava os restantes se, se revelavam ousados. Persistia em fazer o que não queria, dizer o que não sentia, pensar o que jamais tentaria.
Tenho saudades do Natal. Da casa no Bairro Belsol, Foros de Amora (disse sempre "da"). Havia uma lareira acesa. O cheiro da lenha a queimar. Havia risos. Um pai, uma mãe. Havia os primos que são os meus irmãos mais velhos. E um Buddy saltitante a roer papéis de embrulho. Havia gatos meigos, a passar-se pelas pernas. Era o tempo em que se ouvia o meu tio João a repetir tudo duas vezes. A falar alto. A rir-se maroto. «Xujana xe xair xaia xó xou xó xeu xerafim xá xouja» A minha tia Manuela presente. O olhar cá e não lá, tão longe do que ela foi. Vazio. Sinto muita falta dela. Havia tanta coisa que já se não pode viver. Pretérito. O Natal era(-me) aquilo. Foram muitos anos a vivê-lo. Outros tantos a perdê-lo. Este ano recupero-o e dele faço um novinho em folha para o meu filho, que já dá passos sem mim. Alegria maior. O Natal? São as pessoas que nós amamos. Perto. No pensamento, ou no abraço.
- Por aqui?
- Pois. Moro por estas bandas há 20 anos. E tu?
- Há nove. A Helena?
- Está bem. Obrigado. E a Olímpia?
- Também.
- Estás com bom aspecto! – Voz tremente.
- Obrigado. Tu também. – Olhos a fugir-lhe para o rio.
- Adeus então. Gostei de te ver!
- Adeus. – Calou a saudade e o espanto. O frio que o trepou de repente. Como? O impermeável fechado.
Prosseguiram, lado a lado, com sorrisos bonitos, que desenhavam vazios do passado comum. Pareceu-me vê-los de mão dada, quando eram já 132 os metros que os apartavam.
“Por este mundo acima” (Dom Quixote) de Patrícia Reis (1970) apresentou-ma como uma das minhas escritoras de ora em diante. Se me concedessem somente uma palavra, para definir este colosso de Romance elegeria: ESPERANÇA. Quando me desconsolo com o mundo e com a Humanidade penso, amiúde, que não há remédio. Somos incapazes de retroceder na insânia e caminhamos para a extinção às nossas próprias mãos. Arrastaremos connosco as coisas belas que nos precederam. Desmesurada injustiça. Nesses momentos afigura-se-me como solução plausível uma catástrofe de contornos globais, que permita a Deus, à Natureza, ou ao Homem, recomeçar. (Tentar) Fazer melhor.
Eis a premissa pressentida nesta narrativa. Um acidente indefinido devastou Lisboa. - O planeta? - Eduardo sobrevive. Fora editor conceituado e sobranceiro. Homem das letras e pela cultura. Sofia, Lourenço e Jaime os seus amigos. Três existências fortíssimas a dar-nos nós na garganta. Quatro mosqueteiros antes do “acidente”. Depois o caos, a treva e Eduardo abandonado, desprovido das referências de outrora. Todavia, a sobrevivência é bicho traiçoeiro que se impõe, ainda que a desistência menos árdua e dolorosa. Aquele homem continua vivendo. Inicialmente imitando-se no pré-desastre. Depois, concebendo a impossibilidade de persistir imutável, apre(e)ndendo nova forma de ser, de estar, de se dar aos outros.
Encontra Pedro. Menino amadurecido à força, que vira morrer sua mãe e que se lança a Eduardo, bóia e náufrago em simultâneo. Crescerão juntos. Pedro faz-se homem, Eduardo também. Há no primeiro a intuição crua e certeira que em si coexistem o bem e o mal, sabendo-se capaz de ambos com semelhante aptidão. Por respeito ao amigo que o adoptou e cria, oculta-lhe a tendência para a maldade. O tesouro de ambos é a biblioteca da avó de Eduardo, a qual enriquecem através de expedições, por entre os destroços, para encontrar novos livros e onde este descortina muitas das respostas a dar ao rapaz em construção.
Mais sobreviventes se lhes juntam. Organizam-se. São solidários. Eduardo renascido é pessoa inspiradora para os demais, pelo seu sentido de ética, pela escolha consciente das melhores acções. Quando lhe pareceu que era o fim e nada haveria a fazer, senão aguardar a morte, reinventou-se. Recuperou momentos e afazeres. - Como analisar uma obra-prima ignorada há anos na escrivaninha. - Aprendeu a ver na escuridão.
Termino com a mãe de Pedro (Pág.195): “Procura alguém que saiba mais do que tu. Não te limites a receber. Aprende a dar. A reciprocidade é essencial.”
195 BPM – Um lema de vida. Cura a desesperança e ajuda a crer que mesmo na mais absoluta devastação, podemos intuir trilho.
tive visceral certeza que te reconheceria.
incondicionalmente.
ainda ignara quanto à matéria, ânimo ou
género que te compunham.
ouvi-te. pulsavas. bastou para saber-te. definitivo.
(m)eu.
almejo que nunca o sejas.
amo-Te.
como és.
assim mesmo.
como és.
nunca (me) ouças o contrário.
As palavras, lidas de relance, não lhe abandonavam o pensar.
“PORCA”
“ODEIO-TE”
“NOJENTA” “MUDA DE CAMISA!”
“CHEIRAS MAL”
“CHAVALA JAVARDA”
“RIDÍCULA”
“ODEIO-TE”
Dirigiu-se ao WC do pavilhão A. Retirou a carta que ardia no bolso de trás das calças de ganga, por demais justas, esquecendo as restantes. As que prometiam amor, um cinema, sorrisos ou encontros. Que fossem fictícias e outra forma de gozo, não era importante. Não se comparavam à pujança com que esta a tocara. Releu as agressões como a poemas-soco. Soletrou cada vocábulo deglutindo-os. Tremia. As mãos geladas. Pensara rasgar a missiva deitando-a em mil bocadinhos para a sanita. Saía dali e fingia com sorriso arrancado aos pés, que não havia aquela dor tão grande a carcomê-la. Tomaria banho, assim que pudesse. Trocaria a camisa de flanela aos quadrados, por outra das quatro que costumava envergar. Pentear-se-ia. Ainda a ergueu ao nível do nariz para principiar a tarefa. Mudou de ideia.
- Sim. Decidi de outro modo. Não me arrependo.
- Tem noção que terá consequências?
(Encolheu repetidamente os ombros)
- Sinto-me bem. Logo à noite deito-me e durmo descansada.
- Conte-me o que se passou, para que a sua versão conste do processo.
- Há esta cena das cartas dos namorados no 14 de Fevereiro não é?
- Sim…
- Pois. Essa porcaria só serve para gozarem os otários. Marcam encontros falsos, naquela de irem espreitar o parvo na inútil espera; enviam recados em nome de terceiros que, amiúde, nem gramam o destinatário; escrevem recadinhos lindos esvaziados de verdade, enfim, trinta por uma linha. Recebi várias dessas cartinhas. Não me chateiam. Imagino, inclusive, que são genuínas e chego a sentir orgulho por receber três, ou quatro. É normal uma miúda achar que tem direito à atenção de outrem. Pouco me mói se é brincadeira. Sonho que não e tudo bem até ao ano seguinte. Nem me questiono sobre a ausência de outros sinais além dos bilhetes do 14/02. Antes de esquecer o assunto, espreito de esguelha para o bar, certificando-me que, de facto, ninguém. Um João, um Rodrigo, um Eliseu. Alguém. Tenho convivido bem com isto. Este ano foi diferente. Aquela estúpida de merda…
- Modere a linguagem por favor.
- Ok. Aquela imbecil do caralho…
- Olhe que só piora a situação que já não é famosa.
- Tem razão. Peço desculpa. Como ia a dizer, aquela sonsa fez-se passar por minha amiga enquanto fomos colegas de turma, quando tudo o que queria era livre acesso aos meus testes. Fui coisa a usar enquanto deu jeito. Pois bem, assim que deixámos de ser da mesma turma, passei a alvo declarado de troça. Antes camuflava as suas opiniões sobre mim, atribuindo-as a terceiros. “Ah sabes o que é que o fulano disse?... Pois! Nem concordo, mas…” Semeava insegurança. Teve a lata de me vir questionar sobre o número de cartas que recebi para aferir a minha reacção. Encarou-me de olhos muito abertos farejando. Panhonha, ao invés de lhe dizer ali seis certezas ou, até, um empurrão, fui para a casa de banho agoniar-me sozinha. Incapaz de chorar, ou exprimir, o princípio do sofrimento que aquilo me causou.
- Continue. Sem se exaltar, por favor, que isto para o seu lado já se complicou quanto baste.
- Está bem! Ora, encontrava-me nesse impasse, engasgada de mágoa, decidida a rasgar a carta quando me deu a vontade.
- Hum… Hum…
- Não foi planeado está a ver? Como adivinhar aquela aflição?
- E o saco onde transportou a matéria?
- Um feliz acaso. O resto já sabe como aconteceu.
- Pois sei. Quer acrescentar algum pormenor, que me não tenha sido comunicado pela outra parte?
- Sim. Quero dizer, em minha defesa, que confirmei junto dela, antes de fazer fosse o que fosse com o “acaso”, se tinha sido ela a escrever-me.
- O que lhe respondeu?
- Riu-se. Riu-se muito, enquanto piscava o olho à Helga. Eram gargalhadas que doíam. Passei-me e utilizei o “acaso”.
- Então admite que o premeditou?
- Tanto quanto se pode premeditar um cagalhão.
- Já a avisei para ser bem-educada.
- Desculpe. Estou nervosa. Mas não arrependida, deixe lá isto aí escrito na sua folhinha. Lamento, igualmente, não a ter obrigado a comer a carta. Ainda agora me pesam no estômago aquelas palavras.
- A família dela exige um pedido de desculpas.
- Com certeza. Aceitá-lo-ei com todo o gosto.
- Está a fazer-se desentendida? Eles querem que peça desculpa à Vanessa.
- Fá-lo-ei se ela o fizer também.
- Ela alega que é mentira. Que a Andreia a inveja e por isso lhe fez aquela maldade.
- Ah ah ah ah.
- Recusa-se a pedir-lhe desculpa?
- Ah pois recuso! O que eu lhe fiz vê-se. Depois de um banhito com sais do boticário, perfuma-se com Aqua Fresca, veste um pijaminha quente e fofinho, dorme e aquilo passa-lhe! Amanhã, ou depois, cheiro nenhum a merda. Pelo menos, literalmente. O que ela me fez e a outros, não sai. Fica-nos dentro. Para sempre. Hei-de encontrá-la adulta, longe destes quinze anos turbulentos e tremer enquanto a cumprimento inepta para lhe demonstrar o quanto a desprezo. Dar-lhe-ei dois beijinhos, como se me merecesse consideração. Temê-la-ei, de novo. Como se a qualquer momento balões de banda desenhada me viessem legendar:
“PORCA”
“ODEIO-TE”
“NOJENTA” “MUDA DE CAMISA!”
“CHEIRAS MAL”
“CHAVALA JAVARDA” “RIDÍCULA”
“ODEIO-TE”
- A fantasia apaziguou-a com o passado?
- De que maneira!
- Que fará se um dia a reencontrar?
- O mais provável será ignorá-la. Dois beijinhos não darei decerto. Que nojo!
- Dir-lhe-á alguma coisa?
- Não.
É-me suficiente saber que, no presente, não permitirei que me violentem daquela maneira.
Andreia AM Sábado 29/10/2011 (23h) a Domingo 30/10/2011 (00h37mn)
4) Gostam. (Dedinho para cima no meu 17/11/2050 = clicar na barra que diz VOTAR)
5) VOTAM DIARIAMENTE e passam palavra a TODOS os amigos. (Vá lá eu sei que todos os dias vão à vossa página. Demora 7 segundos, mais coisa, menos coisa.)
Corre na passadeira ao lado do Editor de apelido Leporídio. Ri-se, por dentro, do acaso. Pensa: Tão perto, todavia, (ainda) demasiado longe. Maravilhoso lugar-comum. Canta(-lhe), com as entranhas, os seus contos, como se tocassem no MP3, sem bateria, que finge marcar-lhe o ritmo da passada. Ignora ruborizada a incredulidade dos demais. Ele observa-a de esguelha. Desconhece todas as letras, atribuindo-o à provecta idade. Pensa (ofegante): Boa música.
Sumário do exercício: 33 minutos; 107 Kcal; 4.5km.
Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório, para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros que se revelam fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.
Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não carpir a mãe.
Acaba-se-lhe quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo? De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse tanto a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível, ou tão-só fiel a si mesmo?
Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até? Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre? Então desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia, ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas e nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault, ou hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.
Culpado de não chorar, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.
A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro, ou derradeiro grito de liberdade?
195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»
Sei pela tua irmã que este era "O" dia do ano. Adoravas festejá-lo. Vou imaginar-te rugas que não tinhas, pudesses envelhecer deveras . Manténs-te vivo no coração de todos por quem passaste com o teu sorriso bonito. No meu também. Continuo a lembrar-te e a prestar-te o meu tributo sendo grata por cada dia. Aquele abraço João. Vemo-nos, de novo, um dia. Fazes muita falta.
- Que curso é que tirou?
- Estudos portugueses.
- E eu?
- Qualquer coisa verde, ou direita?
- Quantos anos tem?
- 50
- E eu?
- 27?
- Morno. Mestrado?
- Sim.
- E eu?
- Nada.
- Doutoramento?
- Sim.
- E eu?
- Zero.
- Parece-lhe, por conseguinte, pertinente dizer-se que ao pé de si possuo o conhecimento de um protozoário?
- Hum... Pois.
- Que livros leu?
- Li e reli muitas vezes todos os que importam.
- E eu?
- Temo que não chegue a consegui-lo. É parco o tempo que lhe resta.
- Então não me foda e não se ponha para aí com expectativas que jamais poderei suprir. Não sei falar consigo. Abro a boca e saem bolhinhas, como aos peixes, entende?
- Não.
- Não posso discutir o que quer que seja consigo. Falta-me o ar e a visão.
- Está bem.
(Depois disto ficaram grandes amigos. Nunca conversavam.)
Então vem para aqui uma alminha divulgar-vos coisinhas giras para irem assistir, como por exemplo a prelecção de ontem sobre literatura de humor, para apresentação da apetitosa colecção da Tinta da China e vocês baldam-se?
Leram o cartaz mais abaixo? Por deus, aquilo era com os geniais e inefáveis Abel Barros Baptista e Ricardo Araújo Pereira (E abro um parêntesis para informar que se me dividiu o coração e não pude decidir, nem tenho a certeza de qual eu gosto mais,ta raran ta raran. Eis que o encerro.) e vossas excelências nickles potatoes?
Então mas então?
Porque estou aperreada? Questionam-se já um pouco incomodados com a minha inquirição.
Porque, meus amigos, sucedeu que se tratava de auditório repleto de miúdos dos primeiros anos; – Ou então é aparência de 18 ou 19 em corpo de 25, não sei. - alguns docentes, o Carlos Vaz Marques, a malta da Tinta da China, o RAP o ABB e eu. Eu que não sou carne nem peixe. Que me visto à teen não disfarçando, todavia, o ar de trintona. Que não entendo, lá está, todas, todas as eruditas piadinhas. Eu que corro ofegante atrás “deles” sabendo que o atraso é irremediável. (Não desistirei, não se preocupem, que resiliência é o meu nome do meio. Criam ser Azevedo? Pois.) Era eu, miúdos (muitos miúdos), os organizadores e a minha Bzuu - Companheira de todos os devaneios. - do lado de fora, que não conseguiu entrar por causa dos 347 indivíduos apinhados no interior do recinto. E vocês pá? E vocês que pertencem à minha faixa etária, ou superior, gostam do RAP, do Abel, de Literatura e gargalhadas?
Talvez tenhamos de rever a nossa relação.
O coiso lá de baixo continua só com dois membros; não me aparecem nos locais que vos sugiro; passam dias sem uma palavra, uma atenção, um postal virtual. É triste. Toda a gente sabe que a plantinha tem de ser regada, nem que seja com uma mijinha.
Porém, como sou boazinha e a palavra rima com mijinha, deixo-vos com o (meu) detalhadíssimo testemunho do que se passou. Pode ser que da próxima - SIM. HAVERÁ PRÓXIMA(S). - se abalancem no ir.
Fartei-me de rir.
2 Bónus:
Dica de RAP - Adquirir na internet “How to tell a story” do Mark Twain.
Anedota por ABB – Qual a última palavra de Dodi para Diana no túnel? D(aaaaaa)I! (Isto em falado foi muito e muito bom.)
Está doente o mundo e eu moribunda com ele.
Cai-nos uma vida aos pés e passamos lestos.
Comemos indiferença como mordemos saborosa e sumarenta maçã.
Rostos altivos ignorando o crime de todos.
Está doente o mundo e eu choro por ele, por mim, pelos homens.
Por aquela criança sem nome, semblante, ou futuro.
Quantos minutos de dor até que alguém ouça um brado mudo?
Que barulho faz o termo de uma existência?
Está doente o mundo.
Uma mãe foi mutilada.
Quantas mãos amordaçam a(s) consciência(s)?
While I wrought out these fitful Danaan rhymes,
My heart would brim with dreams about the times
When we bent down above the fading coals
And talked of the dark folk who live in souls
Of passionate men, like bats in the dead trees;
And of the wayward twilight companies
Who sigh with mingled sorrow and content,
Because their blossoming dreams have never bent
Under the fruit of evil and of good:
And of the embattled flaming multitude
Who rise, wing above wing, flame above flame,
And, like a storm, cry the Ineffable Name,
And with the clashing of their sword-blades make
A rapturous music, till the morning break
And the white hush end all but the loud beat
Of their long wings, the flash of their white feet.
"To Some I Have Talked With by the Fire" is reprinted from The Rose. W.B. Yeats. 1893.
Não. Não estranho que eu que gosto de pessoas terra a terra, de feiras e farturas. Do barulho das alegres gentes que se movem ao ritmo de música duvidosa, das que agride tímpanos e almas subtis. Do cheiro a sardinhas que se cola à roupa e ao cabelo. (Disso não gosto, gostando.) De dormir no chão duro de uma tenda, sem separação entre as costelas e aquela pedra que se não viu, no erigir temporário. De acordar nessa(s) doente de calor e falta de ar. Do cheiro a campo, pela manhã, ornamentado a pássaros que chilreiam existências simples, todavia, plenas. Dos arraiais, das cores e de arroz doce. Dos piqueniques em que se cheiram flores e merendas que deleitam: Rissóis, pastéis de bacalhau e croquetes; batatas fritas de pacote, dentro da sandes mista com uma rodela de tomate. Eu que adoro balouços e me doem saudades da feira popular que era em Entrecampos, ou que me comovo tão só com o alvoroço das multidões. Eu que exclamo e me detenho em reticências sem fim e prefiro a prata ao ouro. O cão ao gato. O golfinho ao tubarão. Banal na vida e no trato. Não. Não estranho que me sinta (tão) bem no lugar-comum.
A culpa também é minha que me desresponsabilizei, me demiti das minhas obrigações enquanto cidadã. Virei a cara num "não percebo e não quero entender" imaturo e irresponsável. Limitei-me a votar crendo que "são todos iguais" e que é tudo maior do que eu, para fazer diferença qualquer atitude. Não procurei informar-me, não tentei descortinar os telejornais e os comentadores, não li mais do que os suplementos culturais dos diários. Não quis saber. Por isso sou responsável. Não chega cuspir para cima e dizer que está tudo na mão de terceiros. Quantos de nós de rabinho sentado e bracinhos cruzados assobiando negligências? A passividade trouxe-nos aqui. É altura de começarmos pela figura no espelho.
(Como na música do Michael Jackson, para a qual as manhãs da Comercial me chamaram a atenção e cuja letra é belíssima e aplicável ao que transmito agora.)
Se cada um se preocupar consigo, com as suas acções e respectivas repercussões na sociedade talvez um dia a maioria que hoje envergonha se envergonhe de ser a minoria. Não haja ilusões: SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS pelo estado do país. E pouco (me) importa que uns sejam mais do que outros. É altura de agir.
I see the world
Feel the chill
Which way to go
Windowsill
I see the words
On a rocking horse of time
I see the birds in the rain
Oh dear dad
Can you see me now
I am myself
Like you somehow
I'll ride the wave
Where it takes me
I'll hold the pain
Release me
Oh dear dad
Can you see me now
I am myself
Like you somehow
I'll wait up in the dark
For you to speak to me
I'll open up
Release me
Release me
Release me
Release me
Howard Jacobson. (Manchester, 1945). Já ouviram falar deste autor? Desconhecia a sua existência, até ele vencer o Man Booker Prize 2010 com este título que foi, em consequência, muito publicitado. Talvez o mérito dos prémios literários seja esse: que os galardoados a partir de um livro vencedor consigam divulgar a sua bibliografia, não raras vezes extensa e ignorada. Foi assim que cheguei até ele, dado que a Questão Finkler é o primeiro livro do escritor a ser publicado em Portugal.
Deparei-me com narrativa bem-humorada e fluida que tem como ponto de partida uma situação absolutamente hilariante. Julian Treslove tem 49 anos e jamais tomou uma decisão na vida. Foi sempre a vida a tomar decisões por si, até ao momento crucial em que saído de um jantar com dois amigos (Samuel Finkler e Libor Sevcik, ambos judeus.), é assaltado por uma mulher que após a agressão o abandona com uma acusação. – Pelo menos assim se lhe afigura, o que lhe chegou aos ouvidos e ao entendimento. – «Seu judeu.» Resolve, após horas que somaram dias de pensamentos tortuosos e massacrantes que, das duas uma: ou é judeu e lho ocultaram desde a infância, ou há-de ser judeu se, se dedicar ao estudo da história e cultura judaicas para se converter. Sente-se mais judeu que qualquer um dos dois companheiros de solidão, considerando uma injustiça que o sejam e ele tenha nascido privado do acesso a esse grupo de eleitos. Vive, aliás, obcecado por Finkler, filósofo bem sucedido, a quem inveja e com quem mantém tácita competição desde a adolescência.
Treslove é um homem imerso em sentimentos de incompletude. «Por vezes, a sensação de ter perdido algo precioso durava o dia inteiro.» (Pág.27)
Inacabado enquanto profissional. - Faz biscates como sósia de várias pessoas conhecidas, sendo parecido com todas, todavia, com nenhuma em particular - Como amante. – Tende a ser abandonado pelas mulheres de ar débil, a fazer lembrar o moribundo, que o encantam mas que, inevitavelmente, se enfadam com o seu taciturno feitio. Também falha no papel de pai de dois filhos adultos, com quem jamais exerceu a paternidade, forçando-se a convívio artificial, pontual e displicente. Imperfeito enquanto amigo. – É de tal maneira deslumbrado com o judaísmo que negligencia amiúde a amizade que o uniu àqueles homens que, mal ou bem, o acompanharam durante décadas.
Pejada que está esta obra de personagens riquíssimas, humanas, reais, disse-vos mais sobre o Julian porque, apesar de se demonstrar tão sofrido, incompreendido e, sobretudo, vazio, ele enche o romance.
110 BPM – Gostei muito do livro. Ensinou-me sobre as questões judaicas, o conflito israelo-palestiniano e a cultura do povo judeu. Apresenta ritmo que nos enleia na história e diversas frases que são autêntica poesia. Oferecer a um amigo.
P.S. Escapou-se-me o "muito" na classificação derivado a ser uma coisa mais ou menos formatada. Gostei do livro, apenas. Não "muito". Nestes textos tento mostrar o lado positivo dos livros que leio. Neste caso, apesar de partir de uma situação que considerei genial não achei que o resultado final tivesse feito juz à ideia que me encantou.
Lembro-me de ti cachorro. Ganias as entranhas sozinho na varanda. Quando me chegava a ti na madrugada iluminavas-te numa agitação alegre. Pegava-te ao colo e nada havia para além de nós. Lembro-me da tua barriga desproporcional de bebé e das corridas doidas no jardim da frente. Eu louca por não te conseguir agarrar, tu feliz com a brincadeira desconhecedor, ou desafiador, da minha zanga. Recordo as orelhas presas com uma mola para não as mergulhares no arroz de trinca com miúdos, lombardo e cenoura. Sei do primeiro banho e da primeira vez que alçaste a perna. Recordo o sentimento de perda avassalador quando te esqueci na rua, no dia seguinte ao acidente de acelera com a Cátia, enquanto recordávamos os pormenores para falar com o perito. Não sei o que teria feito se não tivesses voltado. Conheço de cor os teus gostos e as antipatias. Sinto, ainda, o frémito da tua busca quando de ti me escondia atrás de uma porta. Ouço-te as patas no soalho de madeira. Sinto-lhes as almofadinhas. Tenho o teu cheiro colado ao olfacto e os sons de satisfação da tua garganta pendurados nos ouvidos. A maciez dos teus lábios na ponta dos indicadores. Os grãozinhos no lombo quando infestado de pulgas. O pavor do banho. A corrida frenética que o sucedia. As lambidelas que levei, húmidas no rosto. Agarro-as com as palmas das mãos. O passado não nos morre. Tu não me morres(te). Andas aqui e parte de mim é o que contigo viveu. O criar-te, a curta vida, a morte. A decisão que tomei. Tenho muitas saudades tuas. Amo-te piturrinho. Muito. A gente vê-se, novamente, um dia. Tenho fé. Até lá, mais um ano em que recordo, sem te poder abraçar, o dia em que nasceste.