domingo, 21 de novembro de 2010

 

INSANIDADE VOU-ME EMBORA

INTOLERÁVEL

Acordo sobressaltada. Um estrondo resgata-me aos sonhos. Gritos longínquos que não consigo descortinar, no imediato, se são reais, ou se vêm de dentro. Constato que pertencem à realidade. Paula. Precipito-me para a sala onde a encontro no chão encolhida. Lenho no lábio, a camisa de dormir rasgada e um Ricardo colérico a fitar-me. Não me esperava.

- Sai daqui. Isto não te diz respeito.
- Meu caro, violência doméstica é, desde há algum tempo, crime público. Sabes que te posso denunciar? Não há o que a Paula possa fazer para o evitar, se assim o decidir. A queixa não é retirada, ainda que a pedido da vítima. Crime público, ouves? Serás acusado pelo Ministério Público. Estás disposto a isso?
- Não farias uma coisa dessas. Conhecemo-nos há anos.
- Sai daqui imediatamente.
- Ainda tenho muitas coisas para lhe dizer.
- O que tinhas a dizer ficou-lhe bem marcado na cara. Vejo-o daqui. Não me parece que devas acrescentar mais.
- É minha. Fez-me perder as estribeiras, entendes?
- Estás aqui a convite da Paula?
- Não.
- Então sai. Tenho o telemóvel na mão. Sai ou faço queixa e não haverá volta a dar.
- Não te vou deixar em paz Paula. Ouves?

Ensaiou mais um gesto embrutecido e saiu. A minha amiga no chão não chorava, nem respondia. Encolhia-se apenas.

- Paula?
- Espera-me um autêntico calvário...
- Tem calma. Tudo se resolve. Não me esperava aqui. Assustou-se por eu ter assistido a tudo. Repensará a sua atitude, estou certa.
- Boa noite. Ouvi barulho. Precisam de ajuda?
- Não Nuno. Obrigada. Está tudo bem. Reparaste se um homem que saiu daqui já se foi embora?
- Sim. Vi-o fechar o portão. O Companheiro até lhe rosnou. Foi ele quem lhe fez isso?

E a Paula, que até então havia permanecido impassível, desaba num pranto desesperado.

- Nuno fique com ela, por um momento, se não se importa. Vou fazer-lhe um chá.
- Não chore Paula. Não chore…

Dirigiu-se-lhe abraçando-a. Sentiu o seu cheiro adocicado e a fragilidade do corpo encostado ao dele. Inebriado ao senti-la abandonada nele. Quedaram-se agarrados enquanto a água para o chá fervia. Havia somente aquele bem-estar.

- Toma amiga. Bebe.

- O que é que vai ser da minha vida? Se me começa a seguir, ou a esperar em cada sítio que pertença à rotina dos meus dias? E se amanhã em vez das mãos nuas trouxer uma arma, um bastão, uma faca, um copo com ácido? Ouvem-se tantas histórias. É um pesadelo. Trata-me como se fosse um objecto. Ouviste-o? É minha. Ainda que o motivo da nossa separação não tivesse sido o seu descontrole, a violência dos seus actos... Qualquer pessoa pode deixar de amar outra, não pode? Tem esse direito, não tem? Ainda que o outro faça tudo por nós e nos ame com toda a intensidade. O amor pode acabar em nós… PUF já lá não está. E o outro tem que o aceitar ainda que muito lhe custe. Concordam? Nenhuma acção é capaz de resgatar um amor perdido. Não sei onde pára o amor que lhe tinha. Talvez me tenha voado do corpo quando me deu o primeiro murro. Ou ficado preso à mão aberta, depois de uma das chapadas que desferia com raiva. Quem sabe não ficou aprisionado nos seus olhos raiados de loucura, ou suspenso na voz agressiva pejada de acusações infundadas. Não sei. Sei que me desapareceu e não o quero ir buscar. Estou cansada de me sentir presa, de não poder ter amigos, do meu universo sem homens para que ele não se enervasse. Que doença. Sempre acreditei que mudaria. Ingenuidade a minha, bem sei. Até a roupa me escolhia. Deixava que o fizesse pensando que o acalmava, que lhe daria a segurança que o meu amor, por si só, não fora capaz de lhe transmitir. Quando alguém me telefonava, ele fingia prosseguir a conversa, se estivéssemos acompanhados, embora ouvisse cada palavra para me poder inquirir quando estivéssemos a sós. Abria-me a correspondência. Consultava-me o telemóvel. Vasculhava-me as gavetas. Desculpem estar a maçar-vos com isto, calei-o por tanto tempo. Tinha vergonha. Queria enganar toda a gente. Fazer-vos crer que era feliz. Sobretudo queria convencer-me de que isso era verdade.

O Nuno interrompe-a e diz-lhe que não percebe como terá conseguido aguentar aquela merda por tanto tempo. Entreolhámo-nos incrédulas mas de certa forma ambas esperávamos que um dia algo semelhante acontecesse. A famosa língua de trapos. E agora Paula? Ainda lhe reconheces o tal encanto? Fico curiosa em relação à reacção que irá ter.

- Não o definiria melhor Nuno. Aguentei muita merda por demasiado tempo.

Tive vontade de rir mas dada a gravidade da situação consegui conter-me.

- O que farias – Posso tratar-te por tu? Trata-me também por favor. - No meu lugar?

Incrédula, assisto ao rápido desenrolar dos acontecimentos.

- Primeiro tens de pensar se não queres, efectivamente, dar-lhe outra oportunidade.
- Nem pensar.
- Então tens de resolver tudo o que esteja pendente e seja comum com ele. Dissolver contas conjuntas, dividir bens materiais. Resolver o problema da casa tem de ser uma prioridade, no caso de estar no nome dos dois. Em suma, primeiro todos os assuntos práticos. Depois, deves ir a um médico falar sobre o que te aconteceu que te há-de ter deixado marcas mais gravosas que essa do lábio. Terás de ser firme e não ter medo. Os cobardes alimentam-se do temor dos corajosos. Deverás fazer-lhe ver que já não pertence à tua vida. Que tem que respeitar a tua vontade. Depois de tudo tratado, volta para nos conhecermos melhor, se o quiseres. Gosto de ti. Já não te temo, nem te considero uma “bruxa” que se quer divertir às minhas custas.

- Estou sem palavras. Não te imaginava com tanto sentido prático e a tua sinceridade ainda me choca. Dizes que gostas de mim e ainda assim julgaste-me capaz de te humilhar. Não me conheces, de facto.
- Aprendi a defender-me muito antes de surgir qualquer hipótese de ser atacado.
- Ai sim? Parece-me muito redutor que o faças. Podes sentir-te protegido da crueldade alheia, porém, também me parece que te impedes de sentir. É triste que tenhas vivido dessa forma todos estes anos.
- Pois.
- Também gosto de ti Nuno.
- Bem meninos há aqui uma reviravolta à qual me sinto completamente alheia. Vou-me deitar. Paula se precisares de mim acorda-me. E, por favor, não voltes a abrir a porta ao Ricardo qualquer que seja a circunstância. Ok?
- Não te preocupes, não pretendo voltar a ficar a sós com ele. Não merece confiança. Obrigada por tudo Mariana. Tens estado presente nos momentos fulcrais da minha vida e eu que já te deixei ficar mal tantas vezes.
- Águas passadas não movem moinhos. Boa noite. Durmam bem. Nuno, lembrei-me de ti sabes? Foi sem querer, mas já sei de onde te conheço. Fico muito feliz por te ver aqui. Não imaginas quanto.
- Obrigado. Ser-te-ei grato até ao último dos meus dias por aquela noite. Dorme bem também. Ainda me sinto estranho a tratá-las por “tu”.
- Nuno?
- Sim?
- Podemos saltar etapas e começar a conhecermo-nos melhor desde já?
- Tenho medo de ti.
- E eu de ti.
- Guias-me? Não sei o que fazer contigo. Estou paralisado.

Pegou-lhe na mão e pousou-a sobre o peito. O seu coração mais acelerado que o dele. Abraçaram-se num momento que não precisou de palavras, ou das regras que outros inventaram para o mundo.

NOTA: ODEIO ISTO. É MERDOSO E NÃO HÁ VOLTA A DAR, mas olha, aqui vai na mesma. Andreia AM.

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