domingo, 28 de novembro de 2010

 

INSANIDADE VOU-ME EMBORA

Silêncio. Angústia. Submissão.

Receio viver nesta casa. Sinto medo das pessoas que nela vivem. (Sem excepção.) Horror do que dizem e do que não dizem. Medo da guerra velada. Do silêncio que perturba e não me deixa descansada. Temo, ainda, as vozes que se erguem rancorosas, não valentes. Pretéritos que teimam constituir-se presente. O futuro adivinhando-se ausente.

Tenho medo desta casa e de todos os que cá vivem. (Sem excepção.) Sobreviverá alguém que conte o que se passou? A verdade será conhecida? Não creio. Que é isso da verdade?

Questiono-me em pânico: Onde iremos morar?

(No dia em que esta infeliz casa se desmoronar.)

Há noites tão escuras.

Acorda sobressaltado. Outro pesadelo lhe tomou conta da noite. Senta-se na cama com os lençóis sujos os quais se esquece, semana após semana, de lavar. A casa vai-se mantendo limpa, graças à D. Gracinda. Há, todavia, pormenores que falham. Os lençóis, tarefa sua, já fedem. O sol irrompe pelas frestas do estore iluminando parcialmente o quarto. Espreguiça-se. Observa nas mãos as feridas que não recorda como abriu. Fere-se sem explicação aparente. Cortes nos braços, punhos feridos, marcas de dentes onde calha. Memória nenhuma do sucedido. Uma das mãos dorida. Inerte, até. Testes à dor que não sente? Insensível há décadas. Quando se inflige estes golpes, assiste de fora, qual espectador circunspecto num teatro. O sangue salpicou a parede de tinta de areia que minutos antes esmurrara desalmadamente o que não o impressiona. Tudo se passa com outro. Não ele. Outro. Arranja explicação plausível.

“Apertava um cano no lava-loiça. Escapou-me a mão.”
“Ia na rua. Para evitar uma queda apoiei-me numa sebe de espinhos onde me arranhei desta maneira.”
“Entalei-me na porta de um elevador”

Acidentes.

A sua vida é normal. Desde o tempo em que vivera com o padrinho. Uma existência normal. Digna de se contar aos mais novos, mais tarde.

Já o que se mutila haveria de apreciar subjugá-lo. Deitá-lo por terra e com requintes de malvadez fazê-lo pagar cada fracção de tempo do seu martírio. Esse imagina-se a sacudir o padrinho. Visualiza-se a gritar-lhe, enquanto lhe bate violentamente com a cabeça no chão, abrindo-lhe lenhos no escalpe sem, no entanto, chegar a matá-lo. Os mortos não sofrem. Querê-lo-ia no limiar da morte, sem que essa o alcançasse efectivamente. Almejava que morresse vivendo cada segundo do seu castigo, da pena que lhe imporia. Haveria padecimento e humilhação.

Então velho nojento, não me abraças agora? Abraça-me. Tenta erguer-te.

Tentaria e ele pisar-lhe-ia o peito, retendo-o junto ao chão, qual verme.

Insistiria na leitura da sentença:

Deixei de ser pessoa por ti. Sou este que desprezo. Criação tua. Observa-me enquanto te devolvo cada porção da dor que me impuseste. Experimenta o rancor que te guardo.

Descarregaria nele a mais imunda vingança: cuspo, mijo, excrementos.

Contudo o que imaginava era insuficiente para varrer o nojo, a revolta, a vontade de assassinar aquela besta que o desprovera de alma.

Isto era o outro. O desequilibrado.

O normal, se o via, ou se outrem o mencionava, revelava reverência e admiração. Havia uma infância feliz para contar aos restantes a mascarar-lhe a mágoa.

Capaz de ser dois.

Por fora o que amparava aquele idoso, então, indefeso. - Magro, olhos encovados, cabeça calva e luzidia, um sorriso de esguelha. A curvatura das costas toda a fragilidade dos anos que carrega. Uma capa pelos ombros é o seu manto real e há, ainda, aquele sinal inolvidável marcando-lhe as feições por baixo do olho direito. - Por dentro o sangue a ferver, ganas de o sacudir, de lhe esfregar no rosto o quão vulnerável seria, se o quisesse. A saliva juntando-se-lhe na boca como a um cão raivoso antes do ataque. Olhos raiados a ressentimento e, no entanto, uma voz doce, saindo leve das cordas vocais que (para) sempre se calaram. Sem o ónus daquele asco visceral que jamais denunciará.

- Padrinho quer-se sentar? Bebe alguma coisa? Sente-se bem assim?
- Está tudo bem filho, obrigado. És mesmo uma jóia de menino.

Todos ao redor anuindo quanto à bondade e ao reconhecimento daquele homem para com o seu padrinho. Talvez o velho já nem recorde o que lhe fez, o que aumenta exponencialmente o desejo de o massacrar lentamente e por tempo indeterminado. A medida certa talvez fosse o tanto que demorou a conseguir ver-se ao espelho sem vergonha. Sem culpa, sem crer ter sido responsável pelo que lhe aconteceu. Sabe que nada fará contra o padrinho. As suas tétricas fantasias não se concretizarão. Faltar-lhe-á perenemente a coragem. Defronte do padrinho o menino aterrorizado.

As feridas que misteriosamente se lhe assomam são, talvez, reflexo da sua frustração. Ou a sede por justiça que não verá saciada. Indefectível é o odor nauseabundo do opressor amplexo.

Precipita-se para a casa de banho, tropeçando pelo caminho, abraça-se à sanita e de joelhos no chão vomita até à bílis.


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