domingo, 13 de fevereiro de 2011

 

PESADELO


Suplicou-lhe que entrasse no espaço exíguo. Estava sentado numa sanita. Havia muito vapor no ar e um cortinado de plástico confinava-o ao cubículo. Reticente face a um passado de perfídia limitou-se a espreitar. Via-lhe somente a cara molhada.

- Entra. Entra mesmo.

Suspeitava. T(r)emia. E apesar de, à data, se tratar tão só de um pedido ela percepcionava-o com a autoridade e o pavor de outrora. Era para si ordem à qual se revelava incapaz de desobedecer.

No momento em que a percebeu do lado de dentro da película que lhes servia de fronteira, mergulhou a cabeça no autoclismo fixando as mãos à parede acima das omoplatas. Com horror viu que ele tinha os pêlos do tórax colados a sangue, o corpo despido.

Matava-se à sua frente. Uma última crueldade antes de a (não) deixar. Não era o bastante dar um fim à existência. Era-lhe imperioso que ela assistisse e se impregnasse de culpa indelevelmente.

Em pânico tenta erguê-lo pelas axilas. Todavia, ele resiste. Resiste até que a vida o abandona. Assim que consegue, transporta-o para o chão. É tão pesado quanto as memórias que lhe lega. Esta última superando todas as anteriores.

Tenta, com desespero, salvá-lo. Pancadas no externo visando animar um coração que crê nunca lhe ter batido quente no peito. Empenha-se frenética nos duros movimentos que o devolvam, mas a morte por cima, espreitando-o do ombro. Eis que entende não poder salvá-lo. Não lhe competiu jamais tamanho feito.

Ele acabado.

Ela no pranto da despedida incontáveis vezes almejada.

É então que se liberta do que é certo e do que é ético e lhe dá uma primeira bofetada. Costas da mão. Osso com osso. Esbofeteia-lhe o rosto hirto. Espanca-lhe o corpo lívido com a cólera e o ímpeto dos anos de desconsolo e medo. Ele já não o habita. Não o magoa, portanto. Aquela tareia um nada se comparado ao quanto fora agredida. Gastara o último fôlego na tortura derradeira.

Acabo por tua causa. Vê.

Chega a que se lhe dedicara depois de si. Loura, olhos verdes, possante. Dedo em riste:

Foste tu.

Ela dizendo que não. Mostrando-lhe as mãos de sangue na parede. (Tão maiores que as suas. Não as suas.) Tentando provar (um)a inocência há muito perdida.

Foste tu.

Ela chorando que não, abrindo muito os olhos, a boca e as narinas para que a outra percebesse todas as cicatrizes que o seu corpo imaculado ocultava. Não eram visíveis.

Observáveis? Apenas o sangue, a nudez e a morte do abusador. A cara de vítima. Irrefutáveis. A piedade a colar-se-lhe à pele.

Condene-se o rosto sem marcas que mascara a mente torturada. Puna-se o corpo belo que camufla a alma acossada.

Foste tu.

Dois corpos. Duas mentiras.

O lacerado, encapotando um agressor.

O impoluto, um manto para inúmeras chagas.

Adormece extenuada podendo esquecer, por parcas horas, o pesadelo.

Não fui eu.

Nunca fui eu.

Foste tu.

Descansa em paz.

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