sexta-feira, 6 de julho de 2012

 

"VER" - PARTE II




A primeira vez que o vi, estava debruçado sobre um muro baixo. Não identifiquei o que fazia, apenas as costas curvadas e a azáfama dos movimentos. O autocarro avançou e revelou-me pincéis, tubos de tinta, telas, paleta e sacos de onde retirava mais objectos. Interrompia-se para olhar o céu. Ajustava a posição do corpo com o ângulo em que a luz incidia no plano. A paleta era mescla horrorosa. Afigurava-se impossível sair tom que prestasse. Encantou-me o despudor. Quando escrevo, envergonho-me dos olhares alheios. O Pedro era generoso a trabalhar. Expunha-se. Constrangia-me imaginá-lo nu. A pintura não me arrebata. Os quadros pendurados nas paredes de nossa casa haviam sido impulsos da Madalena em exposições. Habituei-me a que me espreitassem das paredes, mas a relação nunca deixou de ser estranheza. Os dele falam comigo por revelações. Como se, se pintassem a cada passagem. Flor que de véspera não achei. Mancha no solo que se fez ao cair da noite; candeeiro apagado que se acendeu. Pensava muito nele e, ultrapassado o receio, interpelei-o. Fez pouco caso da minha presença. Nessa hora de desprezo, observei-o minuciosa. Muito mais do que aos quadros, os quais encarei com a ignorância habitual. Homem de porte principesco tinha o cabelo pelos ombros, risco ao lado. Os olhos castanhos pareciam desfocados. Como se uma névoa lhe impedisse a limpidez no olhar. Barba mal aparada, o nariz grande. As roupas eram as adequadas à altura do ano, embora parecessem saídas de baú de roupa dos anos sessenta. A voz maravilhosa, qual locutor de rádio. Seria ouvinte a vida toda daquele timbre. Misturava tintas para usar no quadro com carrinhos coloridos que subiam rua de cidade, embora se assemelhassem a carros de Fórmula-um. Havia subtileza a distingui-lo. Perdi-me na amálgama de lata fictícia, como a personagem da Travers. «A senhora o que deseja?» Arrancou-me à criança de outrora. «Estou a ver.» «Todos o dizem.» Retorquiu conformado. Passou-me um quadro de moldura dourada com uma flor. Senti-lhe o peso, avaliei os relevos e devolvi-lho. Questionei-o sobre o preço. «35» e continuou as pinceladas como se eu uma aragem. Estava incrédula. Pagara dez vezes mais por um de uma finalista de Belas Artes. Como se considerava tão mal? Sabia o suficiente para perceber a mestria daquele homem. «Não tenho dinheiro comigo.» «A Senhora passe quando quiser.» Intui-lhe o descrédito. Peguei no sobretudo branco que ia deixar à lavandaria com a convicção, que ele não tinha, de voltar.

Andreia Azevedo Moreira, Fevereiro, 2012.

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