segunda-feira, 9 de julho de 2012

 

"VER" - PARTE III

As pessoas a passarem inspiram-me. Se as não retrato é vingança. Há os que vão de cara fechada, vendo nos outros dívida irrecuperável; outros sorriem de auscultadores postos; alguns envergam óculos escuros que cortam lágrimas, o brilho a descer denuncia-os; há crianças a ocultarem o que as assola porque as gargalhadas sobrepõem-se-lhe; velhos passeiam cães-pessoa que lhes fazem companhia; carteiristas contam dinheiro alheio em esgares que são malícia e ingenuidade; vejo pares de mãos dadas que me irritam, de tão colados levam os lábios; há quem fale consigo, maxilar fundido, longe de mim e do mundo; dirijo-me a uma mulher de casaco pendurado em braços desistentes. Finge interesse pelo meu trabalho. Capto-lhes o ânimo e verto-o nos automóveis, nas ervas, nas árvores, nos candeeiros. Instantes da Rua. Cores para o pavimento, para o céu, o betão e as folhas. As janelas abrem-se, ou fecham, consoante o que lhes pressinto. Não é honesta a pilhagem. Sento-me durante horas. Contemplo. Estudo as naturezas díspares. Passou uma mulher, corria aflita. Batiam-lhe os sacos nas pernas. Ela tropeçava e abrandava a marcha, mas não a interrompia. Eram pernas longas e bonitas, as quais desejaria seguir e outro verbo que rima com este. Nessa tarde o primeiro carro. Esquiço a grafite. As tintas vêm depois. Imaginei pneu largo, borracha grosseira, câmara-de-ar possante para aguentar velocidades. Nasceram jantes luzentes, como imagino deverem ser as dos bons carros. À estrutura qui-la robusta, aspecto de rasgar o ar. Não me furtei ao banal: pintei-o de vermelho, desenhei-lhe o número quatro na porta. O primeiro de dez que criei. Todos trepando para o céu, a desdenharem do asfalto costumeiro, por não gostarem de estradas. Renegam caminhos projectados por terceiros. Popós? Pom! Pom! Entre o quarto e o quinto descobri a minha cor. Acaso como o acontecimento que me pode fazer feliz, ou miserável. Não dormi nessa noite com dores no corpo. Ouvia o barulho nocturno do trânsito; dos semáforos que vão do verde ao vermelho; dos bêbados que riem alto e cantam mal. Podia ter acabado e teria legado recordação aos que não tenho. Tive uma mulher paixão que me esqueceu. Se me esqueceu não existo. Não existo não sou e amante não é palavra. É dor. Agulha de crochet na aorta. Pedregulho que emerge em todos os quadros que pinto. Repare-se: dez viaturas, o céu e o calhau no canto inferior à esquerda. Sinto-lhe a falta e do verdete de pedra escorregadia; da aresta em que abri o perene lanho. No quadro da flor era cascalho em fundo. Pequenitas pedras pretas a suportá-la. No do plátano carregado de pardais que falam não se vê, de tão enterrado entre raízes. Há rochedos nos olhos do cão gigante que tombou. A dureza está no que faço. Nos sonhos, até, que deviam ser de algodão. Ligo-lhe. Atende, ouço-a respirar. Assente: inspira, expira. Um “tou” que não é descuido. Dois minutos. O suficiente. O tilintar. Depois o silêncio. A porta em fole a chiar atrás de mim.

Andreia Azevedo Moreira, Fevereiro de 2012.

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