sexta-feira, 13 de julho de 2012

 

«VER» - PARTE VII

«Olá. Como está? Tem pintado?» Não obtive resposta. Tentei entabular conversa mas não me deu saída. Sentei-me perto dele a observá-lo. Estava a ser intrusiva. Fosse comigo e já teria ripostado, ou virado costas, mas o tratamento que ele me aplicava era pior. Agia como se conhecimento nenhum da minha presença. Era a sua única cliente, como se dava ao luxo de me destratar? Assim estivemos mais de um par de horas. Dedicava-se a desenho indefinido e não arredei pé, como que encantada. Não tinha vontade de voltar para casa e também por isso me demorava, como podia. Estava demasiado infeliz. O Pedro juntava tinta, escurecia o que me pareciam pedras, enquanto eu chorava lamentando o que não dizia à Madalena. Partilhava com aquele estranho o que não confidenciava aos meus amigos mais queridos. Dei por mim, um fim de tarde, com vontade de o agarrar. Há anos que não estava com um homem e pareceria inconcebível apetecer-me aquele. À medida que desabafava, maior a vontade de lhe tirar a roupa, encostá-lo à porta daquele prédio e usá-lo como a um auxiliar de prazer com maior substância. Antes da Mada mudava de namorado todos os meses. Desacerto que não estava relacionado com a maneira de ser deles, ou de me amarem. Ao conhecê-la melhor entendi que até aí me escapara o Amor.

O presente era outro, sentia desnorte inenarrável e aquela pessoa tinha vindo reavivar todas as dúvidas que me atormentavam nos últimos meses. «Maldita flor.» Ao entrar em casa vi que a Madalena estava a ler e que não ergueu a cabeça. Uns tempos antes não só se teria levantado, como me teria enchido de beijos. Foi uma sorte o esforço com que ergueu o sobrolho e disse: «Então?» Então. Ao que chegámos. Contei-lhe a origem do quadro apesar do desinteresse agressor. Falei-lhe do artista e da inusitada vontade que me deu depois de passar tanto tempo com ele. Limitou-se a encolher os ombros e a esclarecer que éramos livres. Não estava preocupada. Ou porque me achasse incapaz do desvario, ou porque se tratava de assunto que já não queria seu. A angústia alimentava-se-me da garganta. A almofada não me serenava. A situação tornava-se incomportável. Não conseguia agir e parecia-me injusto que ela o não fizesse se partira dela o afastamento. Dia 13 de Fevereiro, Sexta-feira, chegou a casa diferente. Não me deu explicações, não mentiu, recusou-se a dizer-me o que se passava perante as súplicas que multipliquei pelos dias e permanecemos estranhas, enquanto o permiti. Era doloroso, porém, menos que um afastamento físico derradeiro. Talvez se lhe desse espaço e tempo, voltasse a si. A nós. Não aconteceu. A autoestima carcomia-se-me de questões, ciúme e temores. A voz nunca firme. Interpelava-a com medo, como se qualquer atitude pudesse despoletar a sua partida, a qual me julgava inapta para suportar. Qual das duas pior? Ela e o seu silêncio egotista, ou eu vitimizando-me inerte. Nada fiz para esclarecer a questão. A maioria busca o motivo. Revista bolsos, lê mensagens, fareja essências. Não fui maioria. Propunha-me sobreviver à crueza daquela indiferença, almejando que o pesadelo cessasse por si. Saía para o emprego, ao fim do dia procurava o Pedro, adiando o regresso para cada vez mais tarde. Impunha limite ao masoquismo, enquanto tentava curar o desamor em que voluntariamente me soterrara.

Inúmeros solilóquios depois, já perdera a esperança no retorno, o Pedro interveio. «Não sou exemplo. Também vivo das migalhas da atenção alheia. Mas ouvindo-a alcanço que isso que vive é solidão maior do que a minha. Porque não vira costas?» «Não consigo. Amo-a. Não concebo estar longe.» «Não sente falta de ar? A angústia mata. Um momento tão-só e esse nó na garganta passa-lhe para o coração, depois para as mãos, ou para os pés e quando der por si está a bater com um cano frio no céu-da-boca, ou a atravessar fora da passadeira numa rua movimentada. Ninguém lhe merece isso. Embora não seja exemplo, tenho descoberto mais em mim, actualmente, que nos anos todos em que me andei alimentar dos outros. Eis o que faz. Põe nos ombros da sua companheira a responsabilidade pelo seu bem-estar. Não há fardo maior, ou injustiça, para alguém que clamamos amar. Ela já não lhe pode dar amor. O que pretende? Piedade? Conseguirá viver disso? Não desista do sentimento maior. Nem eu que sou como vê, o fiz. Tenha juízo. Pegue nos seus haveres e faça-se à vida.» A sua entoação desobscureceu-me as ilusões e o estar a apagar, ingloriamente, dias do calendário. Quis comprar-lhe outra obra, em jeito de agradecimento. Não consentiu. «Volte noutro dia. Hoje não vendo. Fique-se com o que lhe disse se lhe servir, ou livre-se das minhas palavras, se conseguir. Noutro dia traga 35. Não alterarei o valor.»

Nessa noite não aguardei que levantasse os olhos do que estava a fazer, pois não era importante que participasse do acto que seria meu. Ela que se envergonhasse da hipocrisia que lhe servia de pele. Para mim chegara ao fim o jugo. O amor não pode saber a grades, nem a pânico. Há muito que o que sentia por ela era de índole diferente. A segurança com que me atacava, há meses, deu lugar a desconcertante pranto. Outrora seria a reacção desejada. Naquela hora constrangia-me a falta de carácter. Destratara-me; irritava-a a carência com que a abordava; o meu odor nauseava-a; o sexo comigo dava-lhe sono e à data: «Meu amor para aqui. Não nos precipitemos para ali. Tens outra pessoa?» Vontade de rir. «Não estúpida. És tu quem tem.» Quis dizer. «Percebi que não é relevante já não gostares de mim, desde que eu goste.» Disse. «Não te quis contar para não te magoar. Quis evitar precipitações.» Agradeci-lhe sardónica o altruísmo e os dias estupendos passados sob a sua clemência. «Vai-te foder. Acabamos aqui.» Arrumei o pouco que tinha levado para aquela casa e no próprio dia parti. «Vais para onde? Não leves tudo. Acalma-te.»

Não estava nervosa.

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