terça-feira, 29 de julho de 2008

 

As velas ardem até ao fim

Olha, parece que sou do contra. Não achei este livro arrebatador como li tantas vezes em tantos testemunhos. Não concordo que seja "um portentoso tratado sobre a amizade" como disse a Inês Pedrosa. Sim, a amizade é falada. Sim a amizade é importante na história. Crucial até. Mas não é uma história que fale sobre a Amizade. Pelo menos para mim não é. Pelo menos não foi isso que me ficou. Esta é uma história da incapacidade que os Homens (falo de todos nós entenda-se, mulheres e homens) têm para a verdade. Da forma como cobardemente procuram soluções para os seus problemas na fuga. (Ou) Em actos vis. Isto, ao invés de olhar nos olhos dos outros e simplesmente dizer o que lhes vai na alma. Isto, ao invés de admitir as falhas, as fraquezas, as coisas irremediáveis ou inadiáveis, como uma grande paixão. Como muitas vezes os Homens preferem deixar de viver, a viver plenamente, com tudo o que isso traga de bom e de mau, com todas as consequências com as quais se tenha de viver a seguir. Às vezes as pessoas preferem fingir que vivem a viver realmente. Esta história falou-me de uma história muito mal resolvida. De episódios na vida das pessoas que as marcam profundamente e que elas jamais serão capazes de ultrapassar. De pessoas paradas no tempo. Mortas sem o estar realmente. O que foi aquilo? 41 anos? 41 anos a ruminar? 41 anos à espera de dizer e ouvir o que poderia ter sido dito/ouvido 41 anos antes? E se não foi dito/ouvido nesse momento. Nesse crucial momento em que realmente tudo poderia ser resolvido de que serviu a espera? Para quê uma espera de 41 anos? E não me venham com a treta que a amizade superou tudo. Aquela amizade morreu. Aquela amizade morreu, no momento em que a dúvida se instalou no espírito de um deles e a confiança antes ilimitada se apagou (como a chama das velas que lhes acompanharam o último encontro). A amizade não sobreviveu à desconfiança. A amizade não sobreviveu à suposta traição. A amizade não sobreviveu à falta de sinceridade do outro. Ele nada disse. Não se defendeu. Não admitiu. Ficou-se. Ouviu apenas. Não lutou pelo seu amor/sua paixão, não lutou pela amizade. Nada. Fuga. Vazio. O "traído" em vez de seguir em frente com a sua vida, alimentou-a com mágoa. Com rancor. Com desejo de vingança. Percebeu muitas coisas entretanto. Teve muito tempo para pensar. 41 anos... Percebeu e relativizou, mas entretanto desperdiçou toda uma vida agarrado ao passado. A certa altura diz-se que ambos sobreviveram à história. Discordo. A única que sobreviveu à história foi ela. Ela que viveu plenamente. Ela que intensamente viveu e assim que perdeu significado essa mesma vida, decidiu morrer. Eles? Palermas os dois. 41 anos de arrependimento do que devia ter sido feito, dito, vivido. Sobreviveram na medida em que o seu corpo se manteve vivo mas que almas aquelas? Que duas tristes e negras almas... Pequenas. Mesquinhas. Pobres. Almas que escolheram uma não-vida. Almas que optaram por vaguear errantes no mundo dos vivos mas incapazes de viver realmente. Conheço almas assim. Almas estagnadas no tempo. Almas nadando em águas pútridas, paradas. Águas que não se renovam, que não correm para lado algum. Almas que se dedicam a vinganças sem significado nunca tendo dado valor às coisas que ganharam da vida, valorizando sempre e apenas o que perderam. Almas que não aprendem nem levam nada de bom da vida porque ESCOLHEM não a viver.

Este livro não me falou sobre amizade. Falou-me de rancor. Não me falou de perdão. Falou-me de vingança. Não me falou de liberdade. Falou-me de prisões feitas de orgulho e de arrogância. Numa amizade, numa verdadeira amizade não seriam precisos 41 anos para pôr tudo em pratos limpos. Mesmo que fosse uma conversa derradeira. Ao menos seria uma conversa. E não um monólogo com uma das partes fugindo uma vez mais e para sempre da VERDADE, da SINCERIDADE.

Apesar disto tudo e da minha contrariedade é um livro muito bom!

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Comments:
Lá está, por isso é que a escrita é como um quadro. Cada um interpreta o que vê/lê à sua maneira. Muito bonito este post. Dizes aqui muitas verdades. Bjs linda
 
Prima tens este livro em casa da tua mãe para ler que eu ofereci-lho nos anos. É mesmo isso! A interpretação das coisas está ligada à percepção que temos delas. Gostei da analogia com o quadro! Bjinhos
 
Ok, quando acabar o que tu me ofereceste, logo leio. Bjs
 
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