sábado, 25 de agosto de 2012

 

Rostos na multidão – Valeria Luiselli - Geração C

O que relatarei poderá ser ficção e não passar de coincidências arranjadas pelo meu pensamento, à conveniência do meu sentir.
 
 
Em Fevereiro, nas Correntes D’Escritas, assisti ao lançamento de um livro cuja autora me falou ao peito, levando-me a adquiri-lo. Tratava-se de Valeria Luiselli (1983) escritora mexicana, residente em Nova Iorque, que se estreou no género Romance com este título. Decorrera pouco tempo desde o nascimento da filha quando o escreveu. Digladiava-se ante o novo papel, receando achar-se incapaz de permanecer criativa como até então. Temia que a sua intelectualidade sucumbisse ao cansaço, à responsabilidade acrescida, ao tempo que lhe escapava lesto. Não desistiu. Meteu mãos ao teclado e incorporou aquela faceta tão definitiva da vida na narrativa. Eis que me encontrei em enredo que fantasio autobiográfico, no qual o quotidiano da família se imiscui na obra literária enriquecendo-a, ao invés de a sabotar.

«Agora escrevo à noite, quando as duas crianças estão a dormir (…) Antes escrevia todo o tempo, a qualquer hora, porque o meu corpo me pertencia. As minhas pernas eram compridas, fortes e magras. Era lógico oferecê-las; a quem quer que fosse, à escrita. (…) Um romance silencioso, para não acordar as crianças.» (Pág. 13)

A narradora sem nome entremeia passado(s) e presente, relatando-nos como enquanto tradutora de uma editora pequena trouxe à estampa, com ardil, a obra de um escritor que a assombrava no metro. Gilberto Owen - Poeta mexicano - habitava, como ela, Harlem, nos anos vinte. Tomará, igualmente, o seu lugar na narração. É em simultâneo que visitamos a pretérita existência do escriba; o conturbado contexto familiar da escritora e lhe conhecemos as emoções antes dos filhos e do marido. Três tempos para eles. Para nós somente um, encantatório. As realidades misturam-se nos mesmos espaços. O filho mais velho consegue ver Owen (?), chamando-lhe comsemcara. O romance constrói-se dentro de si mesmo.  

«Gerar uma estrutura cheia de buracos para que seja sempre possível chegar à página, habitá-la. Nunca meter mais da conta, nunca estofar, nunca mobilar, nem adornar. Abrir portas, janelas. Erguer muros e derrubá-los.» (Pág. 20)

Onde começa a ficção? Quem se defronta com a dificuldade em escrever (um)a novela, fazê-la viver em páginas relevantes? As ténues fronteiras confundem-nos. Owen perdia peso. Atestava-o a cada nova pesagem. Cria desintegrar-se embora ao espelho tudo na mesma. O casamento dela entra em falência. Perdendo peso também. Vazio(s) onde antes amor, gestos quentes, partilha(s). As histórias escrevem-se ora paralelas, ora intersecções. E nós assombrados.

Permanecerão connosco as vozes; os fantasmas deles, feitos nossos, “rostos” inesquecíveis na multidão.

150 BPM – Magnífica estreia. Escrita a acompanhar. Sugerir a leitura.


Publicação original AQUI.

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domingo, 12 de agosto de 2012

 

O CHÃO DOS PARDAIS


Uma escrita que me diz muito. Mais tarde direi quanto, este tanto.

Livro adquirido AQUI: http://livrariapodoslivros.blogspot.pt/

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segunda-feira, 2 de julho de 2012

 

ORLANDO - Uma Biografia - Virginia Woolf - Na Geração C

Sendo certo que uma vida não será suficiente para ler todos os bons livros é uma felicidade não passar ao lado de uma obra como Orlando (1928). A uma boa amiga, que mo ofereceu, o devo. Quando o terminei voltei ao início e nova narrativa se me revelou. Está vivo, metamorfoseia-se, pulsa Literatura e Génio. Nunca outrora a sensação do texto estar a ser escrito só para mim, enquanto o lia, foi tão intensa.
Virgínia Woolf (1882-1941) brincou comigo com mestria. Pegou-me pela mão, nos ombros a capa da sua voz literária única, acompanhando-me em jornada com princípio no século XVI e término no XX, como se fora possível (E é.) alguém viver mais de trezentos anos e ter somente trinta e seis.
Eis a biografia de uma personagem singular: Alguém que nasce homem para se descobrir mulher, trinta anos mais tarde. Corpo de um género, alma de outro, ou o contrário? Ambos os géneros e almas num ente só?
A autora auxilia-nos: «(…) uma biografia é tida por completa se evocar uns meros seis ou sete eus, quando cada pessoa pode chegar a ter muitos milhares.» (Pág. 188)
Urgência perniciosa, essa de definir as pessoas. Definição soa a castração, controlo, discriminação e Orlando recusa qualquer forma de obediência. O amor: Alguém sabe, deveras, de que é feito? De onde vem? Para onde vai quando morre? Ele/a ama veemente: uma mulher (Sasha); um homem (Shelmerdine); os seus cães (Pippin, a spaniel, por exemplo.); a solidão; a literatura (Vários escritores dilectos são referidos.); a escrita (O Carvalho, o seu poema em perene des/construção que atravessará consigo vários séculos.); a natureza.
  
Foi «menino travesso pontapeando cabeças decepadas; embaixador; soldado; cigana; rapariga apaixonada pela vida; padroeira das letras» (Pág. 188), digladiando-se consigo para não se permitir qualquer perda de tempo a parecer. Se é mulher e foi homem pouco importa. É escritor(a). Poeta. Sê-lo-á independentemente das circunstâncias, dos críticos, das roupas que enverga, das existências díspares que experimenta. Vive em função da poesia, indagando a prosa, certa que essa conversa privada nada tem que ver com a glória, nem com os que a admiram, uma vez alcançado o sucesso; ou admirou até à idolatria, quando ainda caminhava ao seu encontro, despida do reconhecimento alheio.
«Pois não era o escrever poesia uma transacção secreta, uma voz respondendo a outra voz? (…) Haveria coisa mais secreta, pensou, mais lenta, mais semelhante ao comércio dos amantes, que a resposta balbuciante que ao longo de todos esses anos fora dando à velha canção sussurrada dos bosques, das quintas, dos cavalos castanhos parados junto ao portão, pescoço contra pescoço (…)» (Pág. 197)
Trata-se de teia sublimemente urdida pela autora em que História, Filosofia, Sexualidade, Literatura, Romance, Verdade(s), Iniquidade(s), Paixão, Amor e Vida(s) se entrecruzam aprisionando-nos de modo indelével.
195 BPM – A melhor Literatura é intemporal. Orlando é de ontem, de hoje e de muitos amanhãs, enquanto houver livros e pessoas para os lerem. Adquirir. Sugerir a leitura a todos os amigos.

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terça-feira, 8 de maio de 2012

 

MELANCÓMICO – O Livro – Na GERAÇÃO C

Há uns anos perdi-me, enquanto vagueava por território imaginário. Fui dar a um bairro catita, daqueles à antiga, em que as pessoas se conhecem e se preocupam umas com as outras. Nesse havia um quiosque tradicional, um gato preto para nos testar a sorte e um homem, com alma de poeta e um saco de plástico em cada mão, a dedicar-se à filosofia (de bairro) e aos aforismos (de pastelaria). Falo do Melancómico, personagem híbrida amante da melancolia e da comicidade improvável, criado por Nuno Costa Santos (1974) guionista e escritor.

Na mão esquerda “MELANCÓMICO – O livro.” Releio-o para vos falar dele. Reencontro o Márcio; a Dona Bina; a cidade em que as preocupações existenciais me chegam na conta do supermercado perto da água e do fiambre e o humor se vende em gramas com IVA incluído.

Trata-se de colectânea de frases para saborear. Nada de as lerem sôfregos, sem as mastigarem. Poderão afigurar-se-vos leves, porque espirituosas, todavia, nelas encontram os grandes temas de uma vida vivida: o Amor, a Morte, a Amizade, Deus, as Tecnologias, a Paternidade, os Antidepressivos e a Chamuça. Destaco apenas uma delas para não estragar o prazer de descobrirem as restantes. «DONA BINA SAI-SE COM ESTA ANTES DE PEDIR O CAFÉ COM ADOÇANTE – O pior palco é aquele em que as pessoas julgam que não estão a representar. (Pág.54)»

No final do volume aguarda-vos entrevista com o bom frasista. «Estamos com muito medo do silêncio e de ter experiências privadas que depois não são contadas. Temos de contar tudo. E eu reivindico esse regresso ao secretismo.» Subscrevo-lhe este e outros pensamentos.

Visitem-lhe o blogue entretanto extinto e o sítio onde encontram a série que passou na televisão, que transportava para a pequena tela o universo da melancomia. Estou certa que não darão por perdido esse tempo.

110 BPM – Um livrinho para ter na estante ao alcance da mão, tão vital para os amantes de aforismos, como a bomba para o(s) asmático(s). Se visitarem a Feira do Livro encontrá-lo-ão (e ao Caderno) no Pavilhão da Europress (33B).

P.S. Aproveitem e procurem também “No meu peito não cabem pássaros” de Nuno Camarneiro, o qual sugerirei dentro de dias. Deixo, ainda, a pista para “O teu rosto será o último” de João Ricardo Pedro, que fez da adversidade - Ficou desempregado. – oportunidade - Escreveu este livro considerado por muitos um magnífico e auspicioso primeiro Romance. –Habitam ambos a Praça Leya.

PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI.

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quarta-feira, 28 de março de 2012

 

ENCONTRO LIVREIRO - Queria muito ter ido, mas não pude. Fui um bocadinho...

«Pouco sei sobre economia, negócios, lucros, ou prejuízos. Desconheço estratégias financeiras, ou soluções milagrosas para o mercado livreiro. O que penso é intuição, ingenuidade, ou tão só ignorância. Creio que o livro em papel não morrerá. As livrarias tão pouco. Haverá sempre leitores a precisar do toque. Olho para as minhas estantes repletas de livros que ainda não li e tenho certo que continuarei a comprá-los. É a herança que quero legar. No presente o meu filho não pára, descobre ainda a novidade a cada passo. Tenho, todavia, esperança que a quietude venha a ser possível quando acordado e que possa, em breve, ler perto dele, enquanto brinca. Imagino que há-de crescer a ver-me tão feliz dentro dos livros e que um dia me abanará o joelho: «Lês para mim, mamã?» Hoje já o deixo tirar os livros das estantes. Risco enorme. Ainda não percebe o tesouro que tem nas mãos e a tentação do rasgar é imensa, quando se tem um ano. Quero que lhe sejam familiares estes amigos. Que os não tema, ou repudie. Por isso, quando se dirige às prateleiras coloridas divertido, falo-lhe mansa e deixo que os manuseie à vontade, como aos seus livros de borracha com patinhos, ursos e chupetas perdidas. Amo o meu filho. Ser-me-ia insuportável não poder abraçá-lo. Amo os livros, é-me inconcebível não lhes tocar para os conhecer, como o é amar um homem desconhecendo-lhe o odor. A fé que tenho? Há muita gente a pensar assim e a acreditar que se não pode deixar morrer este modo de aprender. Como em tudo na vida, cada um a desempenhar o seu pequeno papel: Que cada pessoa consiga no orçamento do mês guardar alguns euros para comprar, pelo menos, um livro numa livraria. Se só pode adquirir um, é imperioso que o escolha bem. Quem melhor do que um bom livreiro para nos aconselhar? Certamente não será uma estante abandonada, perto tupperwares e atoalhados, que nos assegurará levarmos boa companhia. Vivem-se tempos difíceis, não duvido. Gostava muito de poder estar aí a ouvir-vos, para perceber melhor a situação e poder contribuir para encontrar soluções efectivas e menos elementares.

À leitura entendo-a como aventura dos sentidos que me acicatará toda a vida: “Arde a pele às costas subjugadas, arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); cheira ao carvão das frases sublinhadas, sabe ao sal do médio a virar as folhas com ruído; eis o vício avassalador e irreprimível que, ao aprisionar, liberta."

No que depender de mim agirei e apesar de ausente grito convosco: “Isto não fica assim!”»

Andreia Azevedo Moreira
Escreleitora (Carcavelos)

Os relatos e as fotografias do que se passou AQUI.

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domingo, 25 de março de 2012

 

ENCONTRO LIVREIRO - HOJE - Livraria Culsete pelas 15h - É IR!






http://encontrolivreiro.blogspot.pt/
Quem não pode estar presente também pode participar:
http://encontrolivreiro.blogspot.pt/2012/03/gostava-de-ir-setubal-amanha-ao-iii.html

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

 

O RETORNO - Dulce Maria Cardoso - Na Geração C

Tenho quinze anos. O meu pai foi levado, de mãos presas atrás das costas, por um grupo de homens armados. Nada pude. Parto amanhã com a minha irmã e a minha mãe, para um país que desconheço, onde teimam afirmar que retorno. Nunca mais volto a esta terra quente, que é a minha. Deixamos cá tudo. Até a Pirata. Não sei se, se apercebeu que era para sempre que partíamos. Correu tanto atrás de nós…

Inimaginável? Aconteceu em 1975 a muitas famílias portuguesas, aquando da descolonização. A escritora, Dulce Maria Cardoso (1964), viveu esses amargos dias e veio agora, contar-nos uma versão da história (não a sua) pela voz de Rui. Miúdo expedito e travesso que relata o que lhe acontece com uma leveza crua que magoa. Sai de Angola rapaz, chega a Portugal chefe de família. Rui, Milucha e dona Glória são encaminhados pelo IARN – Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais – para um hotel de cinco estrelas no Estoril. Um edifício de luxo a abarrotar de pessoas desoladas, onde tem de dividir o quarto com as duas mulheres, célere se transforma em prisão que asfixia Rui.

Repete amiúde, talvez para se consolar: «Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa.»

Faltavam-lhe o pai, os melhores amigos Lee e Gégé, a cadela Pirata, inclusive as vizinhas coscuvilheiras que maldiziam a mãe. As referências de outrora foram-lhe arrancadas à pressa e não houve tempo para se habituar ao frio, ou às pessoas que os acolheram desconfiadas. Algumas hostis. Era, todavia, tão vulnerável quanto resiliente e acompanhamos o seu recomeçar ao longo do período, que excedeu 365 dias, em que se encontrou naquelas circunstâncias. Cruzamo-nos com novos amigos, com pessoas que o intrigam, com as paixões que alimenta. Somos cúmplices nas transgressões. Na inocência também. Ouvimos-lhe o léxico à moda de lá. - Geleira, cacimbo, ginga-ginga, dar maca, são exemplos. - Conhecemos os hábitos que os desterrados trouxeram procurando, como podiam, reproduzi-los em parcos metros quadrados. Ser-vos-ão apresentadas inúmeras personagens. Apaixonante(s). Trata-se de viagem no tempo. Estamos em 1975. Temos quinze anos. Escrita magistral de quem sabe sair de si e ver pelos olhos de outrem.

O Retorno (Tinta-da-China, 2011) é livro imperdível para se saber mais sobre a história recente de Portugal. Despido de juízos de valor, ou preconceitos. Testemunho de sobrevivência ao sofrimento, à maldade, à violência, ao medo, na perda maior de uma (tantas) existência(s).

150 BPM – A adquirir. Lê-se num fôlego. Sugerir a leitura.

PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI.

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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

 

ENCONTRO LIVREIRO = ESPERANÇA PARA TODOS OS QUE AMAM OS LIVROS

Façam o favor de se colocarem em cima do link e de abraçarem o chamamento:

LINK LINK LINK


Abrir agenda e apontar: 25 de Março de 2012 - 15h - Livraria Culsete - Setúbal

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

 

150 BPM - Que livro maravilhoso por deus

Encontrei imagem no sítio onde vão dar se lhe derem com o rato.


P.S. Mais tarde direi mais coisas.

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

 

A cada dia mais admiradora do Abel - LER!

Na LER de Janeiro uma crónica a espelhar o que penso. Com a mesma matei um preconceito. Se já gostava por demais do Professor, agora, gosto também da Pessoa.

AQUI.

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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

 

POR ESTE MUNDO ACIMA - PATRÍCIA REIS



“Por este mundo acima” (Dom Quixote) de Patrícia Reis (1970) apresentou-ma como uma das minhas escritoras de ora em diante. Se me concedessem somente uma palavra, para definir este colosso de Romance elegeria: ESPERANÇA. Quando me desconsolo com o mundo e com a Humanidade penso, amiúde, que não há remédio. Somos incapazes de retroceder na insânia e caminhamos para a extinção às nossas próprias mãos. Arrastaremos connosco as coisas belas que nos precederam. Desmesurada injustiça. Nesses momentos afigura-se-me como solução plausível uma catástrofe de contornos globais, que permita a Deus, à Natureza, ou ao Homem, recomeçar. (Tentar) Fazer melhor.

Eis a premissa pressentida nesta narrativa. Um acidente indefinido devastou Lisboa. - O planeta? - Eduardo sobrevive. Fora editor conceituado e sobranceiro. Homem das letras e pela cultura. Sofia, Lourenço e Jaime os seus amigos. Três existências fortíssimas a dar-nos nós na garganta. Quatro mosqueteiros antes do “acidente”. Depois o caos, a treva e Eduardo abandonado, desprovido das referências de outrora. Todavia, a sobrevivência é bicho traiçoeiro que se impõe, ainda que a desistência menos árdua e dolorosa. Aquele homem continua vivendo. Inicialmente imitando-se no pré-desastre. Depois, concebendo a impossibilidade de persistir imutável, apre(e)ndendo nova forma de ser, de estar, de se dar aos outros.

Encontra Pedro. Menino amadurecido à força, que vira morrer sua mãe e que se lança a Eduardo, bóia e náufrago em simultâneo. Crescerão juntos. Pedro faz-se homem, Eduardo também. Há no primeiro a intuição crua e certeira que em si coexistem o bem e o mal, sabendo-se capaz de ambos com semelhante aptidão. Por respeito ao amigo que o adoptou e cria, oculta-lhe a tendência para a maldade. O tesouro de ambos é a biblioteca da avó de Eduardo, a qual enriquecem através de expedições, por entre os destroços, para encontrar novos livros e onde este descortina muitas das respostas a dar ao rapaz em construção.

Mais sobreviventes se lhes juntam. Organizam-se. São solidários. Eduardo renascido é pessoa inspiradora para os demais, pelo seu sentido de ética, pela escolha consciente das melhores acções. Quando lhe pareceu que era o fim e nada haveria a fazer, senão aguardar a morte, reinventou-se. Recuperou momentos e afazeres. - Como analisar uma obra-prima ignorada há anos na escrivaninha. - Aprendeu a ver na escuridão.

Termino com a mãe de Pedro (Pág.195): “Procura alguém que saiba mais do que tu. Não te limites a receber. Aprende a dar. A reciprocidade é essencial.”

195 BPM – Um lema de vida. Cura a desesperança e ajuda a crer que mesmo na mais absoluta devastação, podemos intuir trilho.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

 

PARA ACABAR DE VEZ COM A LEITURA - HOJE - Pegai* num livro e ide por deus!


* Vê-se "mêmo" que ninguém cá vem, pá. Então tinha "pagai" ao invés de "pegai" e ninguém me diz uma palavrita sobre o sucedido?

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

 

O ESTRANGEIRO – Albert Camus - by me na GERAÇÃO-C olaré


Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório, para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros que se revelam fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.

Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não carpir a mãe.

Acaba-se-lhe quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo? De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse tanto a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível, ou tão-só fiel a si mesmo?

Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até? Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre? Então desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia, ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas e nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault, ou hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.

Culpado de não chorar, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.

A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro, ou derradeiro grito de liberdade?

195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

 

Temos de falar...

Então vem para aqui uma alminha divulgar-vos coisinhas giras para irem assistir, como por exemplo a prelecção de ontem sobre literatura de humor, para apresentação da apetitosa colecção da Tinta da China e vocês baldam-se?

Leram o cartaz mais abaixo? Por deus, aquilo era com os geniais e inefáveis Abel Barros Baptista e Ricardo Araújo Pereira (E abro um parêntesis para informar que se me dividiu o coração e não pude decidir, nem tenho a certeza de qual eu gosto mais, ta raran ta raran. Eis que o encerro.) e vossas excelências nickles potatoes?

Então mas então?

Porque estou aperreada? Questionam-se já um pouco incomodados com a minha inquirição.

Porque, meus amigos, sucedeu que se tratava de auditório repleto de miúdos dos primeiros anos; – Ou então é aparência de 18 ou 19 em corpo de 25, não sei. - alguns docentes, o Carlos Vaz Marques, a malta da Tinta da China, o RAP o ABB e eu. Eu que não sou carne nem peixe. Que me visto à teen não disfarçando, todavia, o ar de trintona. Que não entendo, lá está, todas, todas as eruditas piadinhas. Eu que corro ofegante atrás “deles” sabendo que o atraso é irremediável. (Não desistirei, não se preocupem, que resiliência é o meu nome do meio. Criam ser Azevedo? Pois.) Era eu, miúdos (muitos miúdos), os organizadores e a minha Bzuu - Companheira de todos os devaneios. - do lado de fora, que não conseguiu entrar por causa dos 347 indivíduos apinhados no interior do recinto. E vocês pá? E vocês que pertencem à minha faixa etária, ou superior, gostam do RAP, do Abel, de Literatura e gargalhadas?

Talvez tenhamos de rever a nossa relação.

O coiso lá de baixo continua só com dois membros; não me aparecem nos locais que vos sugiro; passam dias sem uma palavra, uma atenção, um postal virtual. É triste. Toda a gente sabe que a plantinha tem de ser regada, nem que seja com uma mijinha.

Porém, como sou boazinha e a palavra rima com mijinha, deixo-vos com o (meu) detalhadíssimo testemunho do que se passou. Pode ser que da próxima - SIM. HAVERÁ PRÓXIMA(S). - se abalancem no ir.

Fartei-me de rir.










2 Bónus:

Dica de RAP - Adquirir na internet “How to tell a story” do Mark Twain.

Anedota por ABB – Qual a última palavra de Dodi para Diana no túnel? D(aaaaaa)I! (Isto em falado foi muito e muito bom.)
 
LINK: https://www.facebook.com/#!/pages/FCSHNOVA-P%C3%A1gina-Oficial/211643438860565 

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

 

deus porque me não equipaste com o dom da ubiquidade?

Esta? Foi aqui que encontrei.

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Vozes celestiais ecoam nos meus ouvidinhos...

A imagem? Saquei daqui.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

 

A ver se é neste FDS que o papo todo*.


*Pensaram logo em traquinices, não é seus malandrecos?

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

 

A Questão Finkler na Geração-C, by euzinha.


Howard Jacobson. (Manchester, 1945). Já ouviram falar deste autor? Desconhecia a sua existência, até ele vencer o Man Booker Prize 2010 com este título que foi, em consequência, muito publicitado. Talvez o mérito dos prémios literários seja esse: que os galardoados a partir de um livro vencedor consigam divulgar a sua bibliografia, não raras vezes extensa e ignorada. Foi assim que cheguei até ele, dado que a Questão Finkler é o primeiro livro do escritor a ser publicado em Portugal.

Deparei-me com narrativa bem-humorada e fluida que tem como ponto de partida uma situação absolutamente hilariante. Julian Treslove tem 49 anos e jamais tomou uma decisão na vida. Foi sempre a vida a tomar decisões por si, até ao momento crucial em que saído de um jantar com dois amigos (Samuel Finkler e Libor Sevcik, ambos judeus.), é assaltado por uma mulher que após a agressão o abandona com uma acusação. – Pelo menos assim se lhe afigura, o que lhe chegou aos ouvidos e ao entendimento. – «Seu judeu.» Resolve, após horas que somaram dias de pensamentos tortuosos e massacrantes que, das duas uma: ou é judeu e lho ocultaram desde a infância, ou há-de ser judeu se, se dedicar ao estudo da história e cultura judaicas para se converter. Sente-se mais judeu que qualquer um dos dois companheiros de solidão, considerando uma injustiça que o sejam e ele tenha nascido privado do acesso a esse grupo de eleitos. Vive, aliás, obcecado por Finkler, filósofo bem sucedido, a quem inveja e com quem mantém tácita competição desde a adolescência.

Treslove é um homem imerso em sentimentos de incompletude. «Por vezes, a sensação de ter perdido algo precioso durava o dia inteiro.» (Pág.27)

Inacabado enquanto profissional. - Faz biscates como sósia de várias pessoas conhecidas, sendo parecido com todas, todavia, com nenhuma em particular - Como amante. – Tende a ser abandonado pelas mulheres de ar débil, a fazer lembrar o moribundo, que o encantam mas que, inevitavelmente, se enfadam com o seu taciturno feitio. Também falha no papel de pai de dois filhos adultos, com quem jamais exerceu a paternidade, forçando-se a convívio artificial, pontual e displicente. Imperfeito enquanto amigo. – É de tal maneira deslumbrado com o judaísmo que negligencia amiúde a amizade que o uniu àqueles homens que, mal ou bem, o acompanharam durante décadas.

Pejada que está esta obra de personagens riquíssimas, humanas, reais, disse-vos mais sobre o Julian porque, apesar de se demonstrar tão sofrido, incompreendido e, sobretudo, vazio, ele enche o romance.

110 BPM – Gostei muito do livro. Ensinou-me sobre as questões judaicas, o conflito israelo-palestiniano e a cultura do povo judeu. Apresenta ritmo que nos enleia na história e diversas frases que são autêntica poesia. Oferecer a um amigo.

PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI.

P.S. Escapou-se-me o "muito" na classificação derivado a ser uma coisa mais ou menos formatada. Gostei do livro, apenas. Não "muito". Nestes textos tento mostrar o lado positivo dos livros que leio. Neste caso, apesar de partir de uma situação que considerei genial não achei que o resultado final tivesse feito juz à ideia que me encantou. 

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terça-feira, 23 de agosto de 2011

 

Vou para aqui:

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Vinda daqui:


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