segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Geração C – O chão dos pardais – Dulce Maria Cardoso
A vida é fingimento. «O chão dos pardais» - Dulce
Maria Cardoso (1964), Edições Asa, 2009 - acorda-nos para a terrível
constatação. Não saberemos como fugir-lhe.
Alice finge que é criança habitando castelo de
sonho, em conto de príncipe e princesa com o marido Afonso. Este recusa a
velhice e simula juventude. Patrocina pesadelos disfarçados de histórias de
encantar a jovens mulheres. Sofia é uma delas e muito bela crê que os sonhos se
concretizam em hotéis de luxo, jóias caras e viagens longínquas que a levam
para lugar nenhum, que não avassaladora escuridão por demais distante do seu
genuíno amor, Júlio.
Manuel e Clara são os filhos a quem Alice já não
sabe como demonstrar o seu amor. Díspares das «crianças louras com sardas» de
outrora, imaginadas perfeitas. O primeiro perde-se nas horas em frente ao
computador nutrindo romance virtual que o redime da sentença, num caso de
negligência médica, que lhe pende sobre o futuro. Clara oculta, tanto quanto consegue,
a paixão pela empregada Elisaveta. Foragida de Viltz conheceu a fome e o frio
no corpo e finge desconhecer o «tremer bom» que a proximidade da descendente
lhe provoca.
Eugénia não existe. Nasceu num quarto dos fundos
qual sombra da luminosa Alice. Fadada para a serventia, para um não-lugar no
país das maravilhas da patroa.
Gustavo é o biógrafo contratado para elaborar a
prenda perfeita para o sexagésimo aniversário de Afonso. O grande sucesso da sua
carreira fora assegurado pela biografia não real de um coronel fictício. Quem
melhor para escrevê-lo(s)? Recordação ideal para uma festa preparada ao detalhe
pela esposa dedicada.
Júlio deitará por terra tais aspirações. Sendo o
único disposto a viver em inteireza e
uma vez ferido pela mentira, pertence àquela minoria que não teme pagar o cru e
oneroso preço da(s) sua(s) verdade(s). A festa tornar-se-á memorável, todavia,
não como premeditara a anfitriã.
Feita de pessoas como nós, em mentiras como as nossas,
a narrativa evolui tendo como pano de fundo a morte da princesa Diana de Gales,
sussurro contemporâneo da infelicidade mascarada.
Todos sabemos do desacerto entre o que somos dentro
e o que fazemos fora, como o relógio do aparador na sala de Alice «que nunca
conta o mesmo tempo dos outros relógios» (pág.10) e que «O tempo trabalha a
favor das fraudes. É sempre preciso que alguém queira saber o que se passou. E
ninguém quer.» (pág.222)
A realidade é, amiúde, insuportável.
150 BPM – Um volume
imperdível de uma escritora admirável. Adquiri-lo numa pequena livraria, como a
“Pó dos Livros”,
por exemplo. Emprestá-lo uma vez lido, para que não se quede esquecido numa
estante.
PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI: http://geracao-c.com/conteudo.aspx?lang=pt&id_object=12468&name=O-chao-dos-pardais-–-Dulce-Maria-Cardoso,-por-Andreia-MoreiraEtiquetas: ESCRELER, Escritoras, GERAÇÃO-C, Literatura, Sugestões
sábado, 25 de agosto de 2012
Rostos na multidão – Valeria Luiselli - Geração C
O que relatarei poderá ser ficção e não passar de
coincidências arranjadas pelo meu pensamento, à conveniência do meu sentir.
Em Fevereiro, nas Correntes D’Escritas, assisti ao lançamento
de um livro cuja autora me falou ao peito, levando-me a adquiri-lo. Tratava-se
de Valeria Luiselli (1983) escritora mexicana, residente em Nova Iorque, que se
estreou no género Romance com este título. Decorrera pouco tempo desde o
nascimento da filha quando o escreveu. Digladiava-se ante o novo papel, receando
achar-se incapaz de permanecer criativa como até então. Temia que a sua
intelectualidade sucumbisse ao cansaço, à responsabilidade acrescida, ao tempo que
lhe escapava lesto. Não desistiu. Meteu mãos ao teclado e incorporou aquela
faceta tão definitiva da vida na narrativa. Eis que me encontrei em enredo que
fantasio autobiográfico, no qual o quotidiano da família se imiscui na obra
literária enriquecendo-a, ao invés de a sabotar.
«Agora escrevo à noite, quando as duas crianças
estão a dormir (…) Antes escrevia todo o tempo, a qualquer hora, porque o meu
corpo me pertencia. As minhas pernas eram compridas, fortes e magras. Era
lógico oferecê-las; a quem quer que fosse, à escrita. (…) Um romance silencioso,
para não acordar as crianças.» (Pág. 13)
A narradora sem nome entremeia passado(s) e
presente, relatando-nos como enquanto tradutora de uma editora pequena trouxe à
estampa, com ardil, a obra de um escritor que a assombrava no metro. Gilberto
Owen - Poeta mexicano - habitava, como ela, Harlem, nos anos vinte. Tomará,
igualmente, o seu lugar na narração. É em simultâneo que visitamos a pretérita existência
do escriba; o conturbado contexto familiar da escritora e lhe conhecemos as emoções
antes dos filhos e do marido. Três tempos para eles. Para nós somente um, encantatório.
As realidades misturam-se nos mesmos espaços. O filho mais velho consegue ver
Owen (?), chamando-lhe comsemcara. O romance constrói-se dentro de si mesmo.
«Gerar uma estrutura cheia de buracos para que seja
sempre possível chegar à página, habitá-la. Nunca meter mais da conta, nunca
estofar, nunca mobilar, nem adornar. Abrir portas, janelas. Erguer muros e
derrubá-los.» (Pág. 20)
Onde começa a ficção? Quem se defronta com a
dificuldade em escrever (um)a novela, fazê-la viver em páginas relevantes? As
ténues fronteiras confundem-nos. Owen perdia peso. Atestava-o a cada nova
pesagem. Cria desintegrar-se embora ao espelho tudo na mesma. O casamento dela
entra em falência. Perdendo peso também. Vazio(s) onde antes amor, gestos
quentes, partilha(s). As histórias escrevem-se ora paralelas, ora intersecções.
E nós assombrados.
Permanecerão connosco as vozes; os fantasmas deles,
feitos nossos, “rostos” inesquecíveis na multidão.
150 BPM – Magnífica
estreia. Escrita a acompanhar. Sugerir a leitura.
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segunda-feira, 2 de julho de 2012
ORLANDO - Uma Biografia - Virginia Woolf - Na Geração C
Sendo certo que uma vida
não será suficiente para ler todos os bons livros é uma felicidade não passar
ao lado de uma obra como Orlando (1928). A uma boa amiga, que mo ofereceu, o devo.
Quando o terminei voltei ao início e nova narrativa se me revelou. Está vivo,
metamorfoseia-se, pulsa Literatura e Génio. Nunca outrora a sensação do texto
estar a ser escrito só para mim, enquanto o lia, foi tão intensa.
Virgínia Woolf (1882-1941) brincou comigo com mestria. Pegou-me
pela mão, nos ombros a capa da sua voz literária única, acompanhando-me em
jornada com princípio no século XVI e término no XX, como se fora possível (E
é.) alguém viver mais de trezentos anos e ter somente trinta e seis.
Eis a biografia de uma personagem
singular: Alguém que nasce homem para se descobrir mulher, trinta anos mais
tarde. Corpo de um género, alma de outro, ou o contrário? Ambos os géneros e
almas num ente só?
A autora auxilia-nos: «(…) uma biografia é tida por completa se
evocar uns meros seis ou sete eus, quando cada pessoa pode chegar a ter muitos
milhares.» (Pág. 188)
Urgência perniciosa,
essa de definir as pessoas. Definição soa a castração, controlo, discriminação
e Orlando recusa qualquer forma de obediência. O amor: Alguém sabe, deveras, de
que é feito? De onde vem? Para onde vai quando morre? Ele/a ama veemente: uma
mulher (Sasha); um homem (Shelmerdine); os seus cães (Pippin, a spaniel, por exemplo.); a solidão; a literatura
(Vários escritores dilectos são referidos.); a escrita (O Carvalho, o seu poema
em perene des/construção que atravessará consigo vários séculos.); a natureza.
Foi «menino travesso
pontapeando cabeças decepadas; embaixador; soldado; cigana; rapariga apaixonada
pela vida; padroeira das letras» (Pág. 188), digladiando-se consigo para não se
permitir qualquer perda de tempo a parecer. Se é mulher e foi homem pouco
importa. É escritor(a). Poeta. Sê-lo-á independentemente das circunstâncias,
dos críticos, das roupas que enverga, das existências díspares que experimenta.
Vive em função da poesia, indagando a prosa, certa que essa conversa privada
nada tem que ver com a glória, nem com os que a admiram, uma vez alcançado o
sucesso; ou admirou até à idolatria, quando ainda caminhava ao seu encontro,
despida do reconhecimento alheio.
«Pois não era o escrever poesia uma transacção secreta, uma voz
respondendo a outra voz? (…) Haveria coisa mais secreta, pensou, mais lenta,
mais semelhante ao comércio dos amantes, que a resposta balbuciante que ao
longo de todos esses anos fora dando à velha canção sussurrada dos bosques, das
quintas, dos cavalos castanhos parados junto ao portão, pescoço contra pescoço (…)»
(Pág. 197)
Trata-se de teia sublimemente
urdida pela autora em que História, Filosofia, Sexualidade, Literatura, Romance,
Verdade(s), Iniquidade(s), Paixão, Amor e Vida(s) se entrecruzam
aprisionando-nos de modo indelével.
195 BPM – A melhor Literatura é intemporal. Orlando é de ontem, de
hoje e de muitos amanhãs, enquanto houver livros e pessoas para os lerem. Adquirir.
Sugerir a leitura a todos os amigos.
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terça-feira, 8 de maio de 2012
MELANCÓMICO – O Livro – Na GERAÇÃO C
Há uns anos perdi-me, enquanto vagueava por
território imaginário. Fui dar a um bairro catita, daqueles à antiga, em que as
pessoas se conhecem e se preocupam umas com as outras. Nesse havia um quiosque
tradicional, um gato preto para nos testar a sorte e um homem, com alma de
poeta e um saco de plástico em cada mão, a dedicar-se à filosofia (de bairro) e
aos aforismos (de pastelaria). Falo do Melancómico, personagem híbrida amante
da melancolia e da comicidade improvável, criado por Nuno Costa Santos (1974)
guionista e escritor.
Na mão esquerda “MELANCÓMICO – O livro.” Releio-o
para vos falar dele. Reencontro o Márcio; a Dona Bina; a cidade em que as
preocupações existenciais me chegam na conta do supermercado perto da água e do
fiambre e o humor se vende em gramas com IVA incluído.
Trata-se de colectânea de frases para saborear.
Nada de as lerem sôfregos, sem as mastigarem. Poderão afigurar-se-vos leves,
porque espirituosas, todavia, nelas encontram os grandes temas de uma vida
vivida: o Amor, a Morte, a Amizade, Deus, as Tecnologias, a Paternidade, os Antidepressivos
e a Chamuça. Destaco apenas uma delas para não estragar o prazer de descobrirem
as restantes. «DONA BINA SAI-SE COM ESTA ANTES DE PEDIR O CAFÉ COM ADOÇANTE – O
pior palco é aquele em que as pessoas julgam que não estão a representar. (Pág.54)»
No final do volume aguarda-vos entrevista com o bom
frasista. «Estamos com muito medo do silêncio e de ter experiências privadas
que depois não são contadas. Temos de contar tudo. E eu reivindico esse regresso
ao secretismo.» Subscrevo-lhe este e outros pensamentos.
Visitem-lhe o blogue entretanto extinto e o sítio onde encontram a série que passou na televisão,
que transportava para a pequena tela o universo da melancomia. Estou certa que não
darão por perdido esse tempo.
110 BPM – Um
livrinho para ter na estante ao alcance da mão, tão vital para os amantes de
aforismos, como a bomba para o(s) asmático(s). Se visitarem a Feira do Livro
encontrá-lo-ão (e ao Caderno) no Pavilhão da Europress (33B).
P.S. Aproveitem
e procurem também “No meu peito não cabem pássaros” de Nuno Camarneiro, o qual
sugerirei dentro de dias. Deixo, ainda, a pista para “O teu rosto será o
último” de João Ricardo Pedro, que fez da adversidade - Ficou desempregado. –
oportunidade - Escreveu este livro considerado por muitos um magnífico e
auspicioso primeiro Romance. –Habitam ambos a Praça Leya.
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sexta-feira, 30 de março de 2012
Hoje não vos falarei de um só livro, ou autor. Venho contar-vos da minha mais recente andança literária e dos livros e autores com quem me cruzei, num encontro de escritores de expressão Ibérica que aconselho, vivamente, a não perderem. São as Correntes D’Escritas, organizadas pelos infatigáveis e perseverantes Manuela Ribeiro e Luís Diamantino da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim que, com abnegação imensa, proporcionam, ano após ano, alguns dias em que o oxigénio se chama Literatura. Esta edição, a 13ª, realizou-se entre 22 e 25 de Fevereiro e valeu cada quilómetro percorrido. Os momentos mais aguardados são as “MESAS”. É então que se ouvem os escritores cujo trabalho seguimos e outros que se nos revelam, discorrer sobre os temas propostos. No entremeio ocorrem lançamentos de livros.
Sete mesas aconteceram: “A escrita é um risco total.”; “O fim da arte superior é libertar.”; “A Poesia é o resultado de uma perfeita economia de palavras.”; “Toda a Literatura é pura especulação.”; “A escrita é um investimento inesgotável no prazer.”; “Da crise da escrita não se pode fugir.” e “As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento.” Motes que originaram abordagens díspares e, em alguns casos, surpreendentes. Foram horas de conversa, risos, algumas lágrimas, dicas para aspirantes e sobre leituras porvires, muitos minutos de puro deleite. Interrogações. Epifanias. Abraços. Reencontros. A ideia que passa é que se trata de família. As pessoas cruzam-se nos corredores e alegram-se com os rostos com que se deparam. Demonstram a saudade sentida e o desejo de saber o que se passou no hiato de tempo que os apartou.
Este ano o homenageado foi Eduardo Lourenço e o 11º número da revista Correntes D’Escritas totalmente dedicado ao nosso maior pensador. Um encanto ouvi-lo, aprender com ele. Com os restantes participantes. Intervieram, directa ou indirectamente, mais de 50 escritores. Houve acontecimentos que marcaram, como Rubem Fonseca dizendo Camões, ou enunciando os cinco requisitos mínimos para se fazer um escritor (1-Loucura, 2-Alfabetização, 3-Motivação, 4-Imaginação, 5-Paciência); a Margarida Vale de Gato a recitar poemas no seu tom doce; a maravilhosa prelecção de Dom Manuel Clemente, ou a subtileza de Gonçalo M. Tavares, tão só exemplos. As Correntes são para se viverem, não para se lerem.
Por falar em leituras, deixo-vos com algumas sugestões que fazem parte da minha lista “A LER” que se reforçou naqueles dias, quer porque os livros foram mencionados, quer por que ao rever os autores relembrei vontades antigas (A ordem é aleatória): «Bufo & Spallanzani» de Rubem Fonseca (1925); «Adoecer» de Hélia Correia (1949); «Paixão» de Almeida Faria (1943); «Ainda não é o fim nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde» de Manuel António Pina (1943); «O segredo dos seus olhos» de Eduardo Sacheri (1967); «A louca da casa» de Rosa Montero (1951); «O amante é sempre o último a saber» de Rui Zink (1961); «O remorso de Baltazar Serapião» de Valter Hugo Mãe (1971); «A génese do amor» de Ana Luísa Amaral (1956); «Humilhação e Glória» de Helena Vasconcelos; «Um piano para cavalos altos» de Sandro William Junqueira (1974); «Os livros que devoraram o meu pai» de Afonso Cruz (1971); «Nova teoria do Mal» de Miguel Real (1953); «Os Íntimos» de Inês Pedrosa (1962) e «Rostos na multidão» de Valeria Luiselli (1983).
195 BPM – Inesquecível. A repetir, anualmente, se possível. Passar palavra. Em 2013 não perder.
Publicação original
AQUI.
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quarta-feira, 28 de março de 2012
«Pouco sei sobre economia, negócios, lucros, ou prejuízos. Desconheço estratégias financeiras, ou soluções milagrosas para o mercado livreiro. O que penso é intuição, ingenuidade, ou tão só ignorância. Creio que o livro em papel não morrerá. As livrarias tão pouco. Haverá sempre leitores a precisar do toque. Olho para as minhas estantes repletas de livros que ainda não li e tenho certo que continuarei a comprá-los. É a herança que quero legar. No presente o meu filho não pára, descobre ainda a novidade a cada passo. Tenho, todavia, esperança que a quietude venha a ser possível quando acordado e que possa, em breve, ler perto dele, enquanto brinca. Imagino que há-de crescer a ver-me tão feliz dentro dos livros e que um dia me abanará o joelho: «Lês para mim, mamã?» Hoje já o deixo tirar os livros das estantes. Risco enorme. Ainda não percebe o tesouro que tem nas mãos e a tentação do rasgar é imensa, quando se tem um ano. Quero que lhe sejam familiares estes amigos. Que os não tema, ou repudie. Por isso, quando se dirige às prateleiras coloridas divertido, falo-lhe mansa e deixo que os manuseie à vontade, como aos seus livros de borracha com patinhos, ursos e chupetas perdidas. Amo o meu filho. Ser-me-ia insuportável não poder abraçá-lo. Amo os livros, é-me inconcebível não lhes tocar para os conhecer, como o é amar um homem desconhecendo-lhe o odor. A fé que tenho? Há muita gente a pensar assim e a acreditar que se não pode deixar morrer este modo de aprender. Como em tudo na vida, cada um a desempenhar o seu pequeno papel: Que cada pessoa consiga no orçamento do mês guardar alguns euros para comprar, pelo menos, um livro numa livraria. Se só pode adquirir um, é imperioso que o escolha bem. Quem melhor do que um bom livreiro para nos aconselhar? Certamente não será uma estante abandonada, perto tupperwares e atoalhados, que nos assegurará levarmos boa companhia. Vivem-se tempos difíceis, não duvido. Gostava muito de poder estar aí a ouvir-vos, para perceber melhor a situação e poder contribuir para encontrar soluções efectivas e menos elementares.
À leitura entendo-a como aventura dos sentidos que me acicatará toda a vida: “Arde a pele às costas subjugadas, arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); cheira ao carvão das frases sublinhadas, sabe ao sal do médio a virar as folhas com ruído; eis o vício avassalador e irreprimível que, ao aprisionar, liberta."
No que depender de mim agirei e apesar de ausente grito convosco: “Isto não fica assim!”»
Andreia Azevedo Moreira
Escreleitora (Carcavelos)
Os relatos e as fotografias do que se passou AQUI. Etiquetas: A herança a legar são livros, ESCRELER, Escritores, ESPERANÇA, LEITURAS, LIVRARIAS, Livros, Livros em papel
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
O RETORNO - Dulce Maria Cardoso - Na Geração C
Tenho quinze anos. O meu pai foi levado, de mãos presas atrás das costas, por um grupo de homens armados. Nada pude. Parto amanhã com a minha irmã e a minha mãe, para um país que desconheço, onde teimam afirmar que retorno. Nunca mais volto a esta terra quente, que é a minha. Deixamos cá tudo. Até a Pirata. Não sei se, se apercebeu que era para sempre que partíamos. Correu tanto atrás de nós…
Inimaginável? Aconteceu em 1975 a muitas famílias portuguesas, aquando da descolonização. A escritora, Dulce Maria Cardoso (1964), viveu esses amargos dias e veio agora, contar-nos uma versão da história (não a sua) pela voz de Rui. Miúdo expedito e travesso que relata o que lhe acontece com uma leveza crua que magoa. Sai de Angola rapaz, chega a Portugal chefe de família. Rui, Milucha e dona Glória são encaminhados pelo IARN – Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais – para um hotel de cinco estrelas no Estoril. Um edifício de luxo a abarrotar de pessoas desoladas, onde tem de dividir o quarto com as duas mulheres, célere se transforma em prisão que asfixia Rui.
Repete amiúde, talvez para se consolar: «Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa.»
Faltavam-lhe o pai, os melhores amigos Lee e Gégé, a cadela Pirata, inclusive as vizinhas coscuvilheiras que maldiziam a mãe. As referências de outrora foram-lhe arrancadas à pressa e não houve tempo para se habituar ao frio, ou às pessoas que os acolheram desconfiadas. Algumas hostis. Era, todavia, tão vulnerável quanto resiliente e acompanhamos o seu recomeçar ao longo do período, que excedeu 365 dias, em que se encontrou naquelas circunstâncias. Cruzamo-nos com novos amigos, com pessoas que o intrigam, com as paixões que alimenta. Somos cúmplices nas transgressões. Na inocência também. Ouvimos-lhe o léxico à moda de lá. - Geleira, cacimbo, ginga-ginga, dar maca, são exemplos. - Conhecemos os hábitos que os desterrados trouxeram procurando, como podiam, reproduzi-los em parcos metros quadrados. Ser-vos-ão apresentadas inúmeras personagens. Apaixonante(s). Trata-se de viagem no tempo. Estamos em 1975. Temos quinze anos. Escrita magistral de quem sabe sair de si e ver pelos olhos de outrem.
O Retorno (Tinta-da-China, 2011) é livro imperdível para se saber mais sobre a história recente de Portugal. Despido de juízos de valor, ou preconceitos. Testemunho de sobrevivência ao sofrimento, à maldade, à violência, ao medo, na perda maior de uma (tantas) existência(s).
150 BPM – A adquirir. Lê-se num fôlego. Sugerir a leitura.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Coisas que me dão um gozo do caraças:
Punr inxemplos: Participar em desafios lançados por revistas e / ou estações de rádio. Que é que penso, no âmago do meu ser egocêntrico derivado a ser única cria?
ARE YOU TALKING TO ME?
Claro que nunca obtenho resposta. Para que preciso de respostas, se é meu apanágio ouvir o que me apetece?
Pois. Vai daí, uma das cenas em que participei ultimamente foi num desafio da
LER em que tínhamos de criar uma frase relacionada com a leitura.
O que é que sucede? Sucede que não entendi logo de início que o objectivo seria mesmo arranjar uma frase sobre esse acto maravilhoso que é ler, digna de figurar numa t-shirt. Achei que o discurso era em sentido figurado "ah e tal uma t-shirt" vindo a constatar, mais tarde, que não era.
Assim, a boa da Deia espremeu-se toda para chegar À frase. Foram horas, meus amigos. Centenas de minutos que me proporcionaram momentos de prazer indescritível para obter "isto", de que muito me orgulho. (Ainda que para nada sirva. Não dá para vestir, não dá para comer, mas fez-me escrever. Olaré.)
Aí vai alho:
"Arde a pele às costas subjugadas, arqueiam ante o(s) génio(s) escolhido(s); cheira ao carvão das frases sublinhadas, sabe ao sal do médio a virar as folhas com ruído; eis o vício avassalador e irreprimível que, ao aprisionar, liberta."
Eis que Deia percebe, finalmente, que o objectivo é a t-shirt.
(Senhores queridinhos da LER não sou assim tão estúpida, só percebi mais tarde, que a cena da t-shirt era a valer.)
Óoooooooooo. Pensei, mas não desarmei. Toca de enviar outras, só naquela.
A tentativa de resumir: LIVRE ENTRE(CRUZO) REALIDADES
A tentativa da baboseira: "Padeço de leitura e de micose: Quanto mais as coço, mais vontade tenho."
A tentativa do «ah que somos todos iguais na solidão»: "O frio de ser só acaba, quando visto livros que se me colam à pele."
Toda contentinha, mas com receio que enviassem senhores de fato empunhando notificação de providência cautelar que me impedisse, sequer, de voltar a abrir o blogue da revista.
(Os senhores já perceberam que não faço mal e deixam-me andar. Coitadinha.)
Perguntam vocês: Valeu a pena?
Então não?! Se soubessem o alento que me trouxe o trabalho de construção da primeira frase, estavam para aí a bater palmas, mesmo se a consideram fraquinha. Usar o tempo que temos a fazer o que amamos é tudo.
Quem ganhou? Quem ganhou?
Uma frase deliciosa. Justa vencedora. Não só, mas principalmente porque me remete para traquinices. (Gosto muito.)
Dedinho para cima para a Mariana Barata com a sua:
"Sim, vamos sair daqui. - Frente / No teu livro ou no meu? - Costas"
Muito e muito bom.
E foi isto.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Quanto valem os nossos objectivos? Qual o limite do valor, que nos dispomos pagar, para os concretizarmos? Para Gisela Batista o fim justificava quaisquer meios e a pujança da sua convicção enleou, irremediavelmente, quatro companheiras num sonho comum: alcançar a fama com um conjunto de mulheres cantoras. Nani e Maria Luísa Alcides, Madalena Micaia e Solange de Matos subjugaram-se às vontades da obstinada mulher. Importava que as ApósCalipso gravassem um vinil, invadindo a banda sonora da vida das pessoas com as suas canções. Toadas que deveriam tornar-se êxitos inolvidáveis, destinadas a marcarem décadas. É Solange, num monólogo, quem nos dá conta do sucedido, no final dos anos 80 do século vinte. Entre o 16/11/2009 e o 23/11/2009 escrever-nos-á sobre o que recordou ao participar, três meses antes, num programa de televisão em que Gisela Batista fora protagonista. «A Noite Perfeita». Nessa reencontrou-a, às antigas colegas e ao seu primeiro desmedido amor, João de Lucena, o coreógrafo.
Vinte e um anos atrás, Solange era uma estudante de 19 anos na Universidade Nova. Vivia num quarto alugado, perto do Campo Pequeno, deslocada do Sobradinho - Onde viveu com os pais depois de regressarem do Gurué (Moçambique). - e dos outros. Fazia rimas. Questionava. Sonhava. Quando as irmãs Alcides, a quem idolatrava em silêncio, a desafiaram para participar num projecto musical, escrevendo-lhes as «lyrics», ficou incrédula e embarcou na aventura mais por curiosidade, do que por fé.
Assim conheceu a «maestrina» (Gisela) e o rumo da sua existência alterou-se. A ambição incrustou-se-lhe à pele. A obsessão pelo estrelato cresceu. A expectativa, como a fome, comprimia-lhe(s) o estômago.
Não se tratava de quatro inocentes e um algoz. Todas se comprometeram até à alma. Todavia, Gisela detinha os meios financeiros, o que a colocava em vantagem, perante as demais. Pelo sucesso sacrificaram amores, o corpo, a maternidade, até uma vida.
Neste romance (Dom Quixote, 2011) Lídia Jorge (1946) transporta-nos ao âmago do(s) «império(s) minuto» - Expressão sua. Brilhante. - Momento(s) com tanto de esplendoroso, como de efémero. Trata-se de enredo que situaríamos, sem dificuldade, no presente. Haja vontade, dinheiro, contactos e “milagres” acontecem, mesmo se num grupo de cinco a única com reconhecível talento para o canto fosse Madalena Micaia. Revelou-se suprível.
Quando as luzes da ribalta ofuscam e sair do anonimato é mais importante do que respirar, afigura-se árduo discernir se o que parece o é deveras e se há mérito no que se alcança.
Afortunada? Título do single em que Solange depositava maior esperança, era a sua mãe que entendia que «Somos apenas o bem que fizermos aos outros, o resto não vale coisa nenhuma…» (Pág.259)
110 BPM – Numa era em que mostrar se revela o mais importante, este livro propõe-nos uma interessante reflexão sobre as prioridades que se estabelecem para a vida. Tinha dificuldade em separar-me dele. Sugerir a leitura.
Post-scriptum: Aproveito este espaço para divulgar uma iniciativa da revista
LER. Intitula-se LER15_25 e destina-se a todos os jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 25 anos que queiram partilhar com os leitores da publicação a sua escrita, fotografias e/ou ilustrações. Não percam tempo! Cultivem a vossa criatividade e desenvolvam o(s) vosso(s) talento(s).
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
POR ESTE MUNDO ACIMA - PATRÍCIA REIS
“Por este mundo acima” (Dom Quixote) de
Patrícia Reis (1970) apresentou-ma como uma das minhas escritoras de ora em diante. Se me concedessem somente uma palavra, para definir este colosso de Romance elegeria: ESPERANÇA. Quando me desconsolo com o mundo e com a Humanidade penso, amiúde, que não há remédio. Somos incapazes de retroceder na insânia e caminhamos para a extinção às nossas próprias mãos. Arrastaremos connosco as coisas belas que nos precederam. Desmesurada injustiça. Nesses momentos afigura-se-me como solução plausível uma catástrofe de contornos globais, que permita a Deus, à Natureza, ou ao Homem, recomeçar. (Tentar) Fazer melhor.
Eis a premissa pressentida nesta narrativa. Um acidente indefinido devastou Lisboa. - O planeta? - Eduardo sobrevive. Fora editor conceituado e sobranceiro. Homem das letras e pela cultura. Sofia, Lourenço e Jaime os seus amigos. Três existências fortíssimas a dar-nos nós na garganta. Quatro mosqueteiros antes do “acidente”. Depois o caos, a treva e Eduardo abandonado, desprovido das referências de outrora. Todavia, a sobrevivência é bicho traiçoeiro que se impõe, ainda que a desistência menos árdua e dolorosa. Aquele homem continua vivendo. Inicialmente imitando-se no pré-desastre. Depois, concebendo a impossibilidade de persistir imutável, apre(e)ndendo nova forma de ser, de estar, de se dar aos outros.
Encontra Pedro. Menino amadurecido à força, que vira morrer sua mãe e que se lança a Eduardo, bóia e náufrago em simultâneo. Crescerão juntos. Pedro faz-se homem, Eduardo também. Há no primeiro a intuição crua e certeira que em si coexistem o bem e o mal, sabendo-se capaz de ambos com semelhante aptidão. Por respeito ao amigo que o adoptou e cria, oculta-lhe a tendência para a maldade. O tesouro de ambos é a biblioteca da avó de Eduardo, a qual enriquecem através de expedições, por entre os destroços, para encontrar novos livros e onde este descortina muitas das respostas a dar ao rapaz em construção.
Mais sobreviventes se lhes juntam. Organizam-se. São solidários. Eduardo renascido é pessoa inspiradora para os demais, pelo seu sentido de ética, pela escolha consciente das melhores acções. Quando lhe pareceu que era o fim e nada haveria a fazer, senão aguardar a morte, reinventou-se. Recuperou momentos e afazeres. - Como analisar uma obra-prima ignorada há anos na escrivaninha. - Aprendeu a ver na escuridão.
Termino com a mãe de Pedro (Pág.195): “Procura alguém que saiba mais do que tu. Não te limites a receber. Aprende a dar. A reciprocidade é essencial.”
195 BPM – Um lema de vida. Cura a desesperança e ajuda a crer que mesmo na mais absoluta devastação, podemos intuir trilho.
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domingo, 20 de novembro de 2011
1) Vão à página
http://www.conteconnosco.com/
2) GOSTAM (dedinho para cima na dita cuja)
3) Procuram-me -
http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060
4) Gostam. (Dedinho para cima no meu 17/11/2050 = clicar na barra que diz VOTAR)
5) VOTAM DIARIAMENTE e passam palavra a TODOS os amigos. (Vá lá eu sei que todos os dias vão à vossa página. Demora 7 segundos, mais coisa, menos coisa.)
6) Eu fico contentinha. Cheia de alento e assim.
7) Vocês fazem uma boa acção.
AGRADECIDA!
Resumindo
: 1) www.conteconnosco.com/ - Dedinho para cima 2) http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060 - Dedinho para cima DIÁRIO = Clicar em VOTAR
PASSEM PALAVRA. ISTO COMEÇOU EM OUTUBRO (eu, para não variar, chego atrasada à cena.) TODA A AJUDA É PRECIOSA.Etiquetas: ALENTO, ESCRELER, ESCRITA, HISTÓRIAS, VIDA, Weeeeeeeeeee
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Retorno aos clássicos com “O Estrangeiro” de Albert Camus (1913-1960. Nobel da Literatura em 1957). Afigura-se história simples: Morre a mãe de Mersault e este cumpre a função de ir ao velório e ao funeral. Não chora. Namora com Maria porque a deseja. Trabalha num escritório, para ganhar um ordenado. Tem um amigo, Raimundo, que se envolveu em quezília com o irmão de uma amante que espancou. Almoça no Celeste. Trivial. Indiferente ante as escolhas do quotidiano que, segundo ele, jamais fazem a diferença, dado que todos mortos um dia. Numa tarde de Verão dispara cinco tiros que se revelam fatais para outro homem, porque se desnorteia com o calor.
Será julgado. Testemunhamos o esgotante desenrolar do processo de acusação. Constatamos que, para os acusadores, o crime maior não terá sido assassinar um homem. Foi não carpir a mãe.
Acaba-se-lhe quem o trouxe para a vida e nem uma lágrima, um soluço, um tremor? Sinal nenhum de desconsolo? De facto, como o próprio esclarece, estaria com demasiado sono para viver, em condições, a perda. As necessidades fisiológicas impõem-se-lhe amiúde ao bom senso e aos deveres sociais. Há muito que nada diziam um ao outro, motivo bastante para que lhe não doesse tanto a despedida. Preferiria, note-se, que tivesse continuado viva, todavia, a culpa do falecimento não fora sua. No dia seguinte à descida de sete palmos da ascendente vai até à praia, namorisca com Maria e termina a noite no cinema, com uma comédia do Fernandel. Insensível, ou tão-só fiel a si mesmo?
Dir-se-á de alguém que diz o que pensa e sente que é honesto. Sincero. Confiável. E se as razões e sentires dessa pessoa chocam os outros? Agridem, até? Se vão contra tudo o que lhes incutem desde o ventre? Então desejarão que se cale (nós também), de preferência para sempre. Eis o que sucede ao anti-herói desta obra-prima de 89 páginas. Será sentenciado por se expor em demasia, ao não omitir certos pormenores do que lhe vai dentro. É descritivo até às entranhas e nunca censório. Não há floreados no discurso de Mersault, ou hipocrisia e é isso que o trama quando, ironicamente, se manteve calado a maior parte da existência, por considerar não ter o que de relevante dizer.
Culpado de não chorar, de assumir as urgências e os não-sentimentos. Culpado de não ser, nem agir, como os demais. Estrangeiro em terra de mentirosos. Ninguém aguenta a verdade inteira, como não se tolera olhar directamente para o sol. Foi a inteireza que condenou Mersault e é nessa que renascerá.
A um instante da execução crê recomeçar. Nesse momento de expiração, mais do que o amem, deseja com fervor que o odeiem profunda e exultantemente. Somente bizarro, ou derradeiro grito de liberdade?
195 BPM – A adquirir. Um livro para reler a vida toda. Cito o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo: tudo é verdade e nada é verdade.»
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Howard Jacobson. (Manchester, 1945). Já ouviram falar deste autor? Desconhecia a sua existência, até ele vencer o Man Booker Prize 2010 com este título que foi, em consequência, muito publicitado. Talvez o mérito dos prémios literários seja esse: que os galardoados a partir de um livro vencedor consigam divulgar a sua bibliografia, não raras vezes extensa e ignorada. Foi assim que cheguei até ele, dado que a Questão Finkler é o primeiro livro do escritor a ser publicado em Portugal.
Deparei-me com narrativa bem-humorada e fluida que tem como ponto de partida uma situação absolutamente hilariante. Julian Treslove tem 49 anos e jamais tomou uma decisão na vida. Foi sempre a vida a tomar decisões por si, até ao momento crucial em que saído de um jantar com dois amigos (Samuel Finkler e Libor Sevcik, ambos judeus.), é assaltado por uma mulher que após a agressão o abandona com uma acusação. – Pelo menos assim se lhe afigura, o que lhe chegou aos ouvidos e ao entendimento. – «Seu judeu.» Resolve, após horas que somaram dias de pensamentos tortuosos e massacrantes que, das duas uma: ou é judeu e lho ocultaram desde a infância, ou há-de ser judeu se, se dedicar ao estudo da história e cultura judaicas para se converter. Sente-se mais judeu que qualquer um dos dois companheiros de solidão, considerando uma injustiça que o sejam e ele tenha nascido privado do acesso a esse grupo de eleitos. Vive, aliás, obcecado por Finkler, filósofo bem sucedido, a quem inveja e com quem mantém tácita competição desde a adolescência.
Treslove é um homem imerso em sentimentos de incompletude. «Por vezes, a sensação de ter perdido algo precioso durava o dia inteiro.» (Pág.27)
Inacabado enquanto profissional. - Faz biscates como sósia de várias pessoas conhecidas, sendo parecido com todas, todavia, com nenhuma em particular - Como amante. – Tende a ser abandonado pelas mulheres de ar débil, a fazer lembrar o moribundo, que o encantam mas que, inevitavelmente, se enfadam com o seu taciturno feitio. Também falha no papel de pai de dois filhos adultos, com quem jamais exerceu a paternidade, forçando-se a convívio artificial, pontual e displicente. Imperfeito enquanto amigo. – É de tal maneira deslumbrado com o judaísmo que negligencia amiúde a amizade que o uniu àqueles homens que, mal ou bem, o acompanharam durante décadas.
Pejada que está esta obra de personagens riquíssimas, humanas, reais, disse-vos mais sobre o Julian porque, apesar de se demonstrar tão sofrido, incompreendido e, sobretudo, vazio, ele enche o romance.
110 BPM – Gostei muito do livro. Ensinou-me sobre as questões judaicas, o conflito israelo-palestiniano e a cultura do povo judeu. Apresenta ritmo que nos enleia na história e diversas frases que são autêntica poesia. Oferecer a um amigo.
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P.S. Escapou-se-me o "muito" na classificação derivado a ser uma coisa mais ou menos formatada. Gostei do livro, apenas. Não "muito". Nestes textos tento mostrar o lado positivo dos livros que leio. Neste caso, apesar de partir de uma situação que considerei genial não achei que o resultado final tivesse feito juz à ideia que me encantou. Etiquetas: ESCRELER, GERAÇÃO-C, LEITURAS, Sugestões
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
E vão 6.
Por estarem desse lado e me esperarem quando me ausento. Aquele abraço de reconhecimento a todos.
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Não enlouqueci e decidi pôr ponto final à minha vida de livro. Antes vos venho falar sobre uns encontros em que tenho participado e me lembrei de vos sugerir. Tardiamente, admito, dado que já vamos para o quarto, no dia 14 de Setembro. Assim concebam o que têm perdido, tenho certo que assomará a vontade de me chamar mona. Para tal dispõem da caixa de comentários. Adiante.
A
Rosa Azevedo, minha formadora numa das paragens dessa minha viagem realizada na senda de aprender a “escreler” é co-responsável pela iniciativa e, tal como os restantes companheiros, pessoa que respira literatura. Eis o que intuo: trata-se de malta que vive para e pelos grandes livros. Gente que quer partilhar o seu amor, as palavras, os silêncios, as a(des)venturas, as epifanias. O quanto se amadurece e compreende quando se lê. Como se nos torna inevitável questionarmo-nos e ao que nos rodeia. Pensarmos sobre o que nos é familiar e o que desconhecemos. Ao ler somos mais conscientes e adquirimos mais ferramentas para fazermos as escolhas que definirão o rumo da nossa existência.
- Fala-se sobre quê, ao certo, nesses encontros?
- Sobre tudo o que se relaciona com - Passo a citar os organizadores do(s) evento(s) na respectiva
página do facebook. - “Livros e coiso”. Interessa, por conseguinte, tanto os leitores como nós, como os livreiros, os editores, os distribuidores, os próprios escritores e, ainda, pessoas que não lêem mas que ali, entre uma caipirinha e um pires de amendoins, decidem que é o que lhes faz falta à vida.
- Ali?
- No bar do
Chapitô, o Bartô, situado na Costa do Castelo, n.º 1 a 7. Lugar romanesco que enleva, com as suas estantes que trepam as paredes de uma biblioteca erigida, ao longo de anos, com devoção; a sua cadeira antiga de barbeiro, onde imaginamos sentar-se o mais distinto cavalheiro da capital do século XIX, ou o lagar para o qual os convidados são conduzidos, permanecendo no centro da acção, à medida que nos cativam com bom humor, sabedoria e pertinentes questões.
- Horas? 22h. Mais minuto(s) menos minuto(s). Aconselho, enquanto aguardam, espreitadela à portentosa vista sobre Lisboa.
Temas já debatidos: «Já não preciso ler uma biblioteca para escrever um livro?»; «O e-book - devo deitar fora os meus livros?» e «Socorro, onde está o meu livreiro?».
A 14 falar-se-á sobre o Cânone. Estou em pulgas. É opressor o sentimento de uma vida ser insuficiente para todos os livros que se quer ler. Sempre que tenho a oportunidade de ouvir quem sabe, vou. - Os participantes têm sido de alto gabarito! - Então, escolho o meu caminho convicta que não desperdiço o tempo que me é por demais valioso.
150 BPM – Assinalar na agenda como “A não perder.” Sugerir a todos os amigos. (Os facebookianos, os reais e aqueles que habitam os dois mundos).
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quinta-feira, 28 de julho de 2011
Eis um texto falhado porque não faz juz nem ao que senti ao ler este livro, uma preciosidade, nem ao tanto que a sua leitura me enriqueceu. Nele descobri que sou feminista e aqui me assumo, correndo o risco de me chamarem histérica queimadora de soutiens, ressabiada e outros apupos que tais. Quem assim fala desconhece a matéria e como tal, não merece que sequer se inicie discussão séria, porque já fechou os olhos de dentro a realidade(s) que lhe(s) é (são) alheia.
«Não posso ir sem autorização escrita de meu marido, pai ou irmão.»; «Não me deixaram estudar.»; «Queimaram-me viva. Disseram: és bruxa. Atearam o fogo rindo.»; «Espancou-me violentamente. Diz que me portei “mal”. Que uma senhora não (re)age “assim”.»; «Violou-me meu pai. Minha mãe ordenou que me calasse. Chamou-me: imoral.»; «Meu marido afirmou: Estás louca. Sentenciou: Internem-na. Aqui estou sã num hospício. Ele vive com a amante.»
Situações ficcionadas (verídicas) que agridem, não tão remotas que as possamos, de ânimo leve, olvidar. Algumas vívidas, ainda. Embrenhei-me de forma avassaladora neste livro. Tem sido algo ignorado, no nosso país, desde que foi publicado em 1972. É lamentável. Com ele compreendi muitas coisas sobre mim, os outros e a sociedade em que me insiro. O que mais me impressionou foi a coragem das três escritoras que o criaram, a três mãos, em 1971. Tendo-se reunido em Maio desse ano demoraram nove meses a erigir esta obra(-prima). O tempo de uma gestação, de onde também nasceu uma sólida cumplicidade. Arriscaram a posição enquanto autoras já conhecidas e as próprias vidas. Jamais revelaram quem escreveu o quê. No contexto da ditadura, que terminou há 37 anos, imaginem o que foi três jovens mulheres – Maria Isabel Barreno (1939), Maria Teresa Horta (1937) e Maria Velho da Costa (1938). – escreverem sobre sexualidade, vontade(s), liberdade(s) e revolução(ões). Reivindicarem o direito a muito mais do que serem somente esposas, domésticas e mães. O direito a serem (fazerem) o que almejassem. Para os homens, por exemplo, o direito a recusarem-se participar numa guerra sem sentido. Denunciaram todo o tipo de injustiças e não apenas as perpetradas contra o género feminino. Foram injuriadas, apontadas, julgadas por pornografia. Só o 25 de Abril de 1974 evitou que fossem presas.
Como fio condutor encontram-se as “As Cartas Portuguesas”, romance epistolar publicado em 1669. Nesse Mariana Alcoforado, mulher enclausurada freira num convento de Beja, remete ao cavaleiro de Chamilly cinco cartas inflamadas de amor e ódio, recordando a paixão com ele experimentada. Daí emanam inúmeras histórias de Marias, Marianas, Marias Ana, Mónicas, entre outras, na forma de poemas, cartas, micronarrativas, citações ou jogos de palavras, não se cingindo, ao longo das 307 páginas, a um género literário.
Não se trata de um livro exclusivamente feminista, ou sobre a condição feminina, como à primeira vista se poderá afigurar. Antes de um manifesto contra todo o tipo de tirania(s) e discriminação. Que ao evidenciar-se as dissemelhanças se encontre um caminho não tanto para a igualdade - Utópica quando o que está em causa é a natureza díspar de cada ser humano. - quanto para o direito à diferença de todas as mulheres e de todos os homens. Continua, por conseguinte, por demais actual.
195 BPM - Esta edição anotada (Dom Quixote 2010) resulta do trabalho de Ana Luísa Amaral e da sua equipa de investigação, que nos devolveram um documento único e vital para compreender parte do mundo em que vivemos. Fica o repto: adquiram o livro e sugiram-no aos amigos. É (a nossa) história. Com o conhecimento mudam-se mentalidades e é às gerações mais jovens que compete boa parte dessa mudança.
Fontes de informação factual:
- Breve Introdução – Ana Luísa Amaral em Novas Cartas Portuguesas – Edição Anotada (Dom Quixote, 2010.)
- Ípsilon, suplemento do jornal Público, de Novembro de 2010.
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quarta-feira, 27 de julho de 2011
sexta-feira, 24 de junho de 2011

Quedo-me em contemplação. Defronte o mar. Imenso azul. AS ONDAS rebentam calma e ininterruptamente. O som líquido cadenciado embala-me. Concebo que as vagas se assemelham, todavia, cada rebentar irrepetível. Como nós. Únicos na nossa (dis)semelhança. Deito-me. Sou submergida. Deixo-me ir com a corrente. Não morro de imediato. Entro noutro meio. Abdico do oxigénio que me asseguraria a sobrevivência como a conheço. Respiro literatura. Sou ligada à máquina (de escrever) de Virginia Woolf (1882 – 1941) sendo-me doce a extinção porvir. Há vida depois desta escritora. Existência maior porque mais plena.
Seis vozes se nos revelam por uma sétima “anónima”. Ou, dar-se-á o inverso e essa é-nos desvendada quando nos confrontamos com as restantes: Bernard, Rhoda, Neville, Louis, Susan e Jinny. Seis ondas e respectivas idiossincrasias. Com eles fui circulação. Sangue pulsando nas veias de personagens complexas. Como se fora possível conhecer-lhes(nos) deveras o âmago, os órgãos, a(s) dor(es).
Tamanho escrutínio ou lucidez são de enlouquecer. Não foi, por conseguinte, de ânimo leve que lhes acompanhei o crescimento. Fui leitora angustiada dos monólogos íntimos de cada um, enquanto amadureciam. Sós, como eu. (Como vocês.) Solidão desde a infância, ainda que então consideremos todos amigos; à idade adulta, quando já aprendemos a olhar os outros com desconfiança. Do berço ao caixão: isolamento. Ideia que perpassa o romance. A humanidade um oceano de solidões. As frases de Woolf na boca de cada um dos seis são terramotos que nos deixam sem abrigo, ineptos para as ilusões de outrora:
“As experiências da vida são incomunicáveis e é essa a causa de toda a solidão e de toda a desolação humana.” (Pág.125)
“Por um instante vimos entre nós o cadáver do ser completo que não tínhamos conseguido ser, mas que ao mesmo tempo não conseguíamos esquecer.” (Pág.222)
“Deus seja louvado por esta solidão que me libertou da pressão do olhar, da solicitação do corpo, da necessidade da palavra e da mentira. (…) Deixem-me ficar aqui para sempre, entre estas simples coisas, esta chávena de café, esta faca, este garfo, coisas em si, que me deixam ser eu.” (Pág. 237)
A história decorre em nove partes, do nascer ao pôr do sol, enquanto AS ONDAS se sucedem. Como se a vida se cumprisse num dia.
195
Batimentos cardíacos
Por
Minuto – Sublime. A adquirir para reler a vida toda. Sugerir a leitura.
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sábado, 14 de maio de 2011
Um Teatro às Escuras - Pedro Tamen
O mês passado fui ver um filme intitulado POESIA. Nesse se afirmava que para criá-la é necessário ser-se capaz de ver a beleza que existe em tudo quanto nos rodeia, ou acontece. Curiosamente sugiro-vos um “Um teatro às escuras.” (Publicações Dom Quixote, 2011) Como escrever a beleza em recinto imerso em treva? - Perguntam vocês. - O poeta e tradutor Pedro Tamen (1934) fê-lo de forma sublime neste livro. - Respondo-vos eu, que já o li cinco vezes. - Ilumina-nos um palco “que nunca ninguém viu” permitindo-nos assistir ao diálogo entre dois amantes porvires sobre o seu pressentido amor.
A maior parte das vezes quando me agrada uma escrita procuro saber mais sobre quem empunhou a pena. Neste caso, li uma entrevista do sujeito que me encantou de tal maneira que não hesitei em adquirir um exemplar do seu mais recente trabalho.
Deparei-me com poemas que são as deixas de uma dramaturgia pensada ao pormenor. Assisti à acção e, em simultâneo, aos bastidores. Apercebi-me dos “problemas de iluminação” que afectam todos os responsáveis por levá-la à cena: o contra-regra; o autor da música; o encenador; o electricista; o ponto; o imprescindível público. Todos desconhecedores, afinal, do texto, munidos de esperança que os ilude abrilhantando o futuro inexistente. Até o encenador - Segundo o autor, uma metáfora de Deus. – sente o desnorte e a impotência que o desconhecido impõe.
É a expectativa do acontecimento que nos move e não o acontecimento em si mesmo, daí que nos possamos considerar actores incapazes de parar com a representação de uma vida que não o é deveras, quando nos protegemos constantemente com “guaritas” que nos coíbem de sentir. Diz “Ela” na página 46:
«(…) e outro tempo de calmas e de mel
nos tornará reais sem as guaritas
que nos protegiam noutras eras:
apanharemos chuva e sol deveras.»
Eis que somos mais do que meros espectadores sentados numa “floresta de cadeiras” (Imagem belíssima – Pág.9) porque nos revemos “nele”, “nela” e nas restantes vozes. Assaltam-nos as mesmas questões, as infindas ambiguidades, buscamos revelações, tememos a obscuridade. Irremediavelmente sós nesse palco onde se nos desenrola a existência. E então: Somos ou representamos? Podemos saber existir o que não vemos? Há que perceber para ser? Que sei sobre mim? Que sabem os outros do meu ser e que sei eu do deles?
Luz? Talvez quando a peça terminar. Só a morte nos é certa. Viver é cegueira.
“Um caminho pode ser a luz ausente.” (Página 37)
Cesso agora de esmiuçar que, como disse Natália Correia, «a poesia é para comer». Para encontrarem este e outros livros de poesia sugiro, igualmente, uma visita à livraria POESIA INCOMPLETA (http://poesia-incompleta.blogspot.com/)
150 Batimentos Por Minuto – Maravilhoso e original. A adquirir. Sugerir a leitura.
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quarta-feira, 20 de abril de 2011
Texto criado para o blogue do ALA que entretanto se finou (o blogue, não o senhor graças a deus)
Sábado, 4 de Setembro de 2010
As piscinas com pé do ALA
Quando leio sublinho. Há uns dias, na praia, uma menina à minha frente lia. Dizia o texto em surdina enquanto o percorria com os dedos, como quem tacteia para reter nas mãos o que os olhos lêem. O meu palpar é a carvão. Frase que me enleie, impedindo-me de prosseguir na leitura, é feita refém. Viro o feitiço contra o feiticeiro, assim que me asseguro que já não a perco. - Um pavor de esquecer as ideias tão boas que me chegam ao entendimento. - Ainda que muitos anos decorram, folhearei o(s) livro(s) com a certeza que recupero as preciosidades aí encontradas. Assim tenho enriquecido.
Quem costumo sublinhar obstinada? António Lobo Antunes, pois. Esse homem capaz das mais definitivas frases - “Não se desce vivo de uma cruz.” - que nos soam ao mais belo poema. Haverá alguém apto a responder-lhe depois de tamanha sentença? Duvido. Nada podemos acrescentar. Já está lá tudo. Limitemo-nos a ler. Sentir. Agradecer tamanho privilégio. O António mostra como é. Nós, com sorte, conseguimos ver.
Ler os livros do ALA é como entrar no mar com a bandeira vermelha. Desconhecemos se regressamos com vida. Arriscamos, ainda assim. Ele sabe disso. Talvez por isso tenha afirmado um dia* que as narrativas que publica na Visão são como piscinas para crianças, porque não se perde o pé. É certo que não, António. Não me afogo, como no oceano revolto dos seus livros, antes chapinho qual catraia inteira. Sou tão feliz nessas suas águas paradas, contudo, tão limpas. Às vezes, tenho de deitar fora as revistas e passo horas salvando-lhe as crónicas. Estão ali à mão de reler.
Esta semana guardo mais uma: “JANJÃO” (Visão n.º 913) a qual clamo aos leitores deste blogue que se apressem a ler. Não a sublinho. Arranco-a, dobro-a em quatro e conservo-a junto ao peito. É maravilhosa. Lá me encontrei e àquele que me morreu sem que o seu corpo tenha perecido. Revisitei o perdão em cada palavra. Permaneço de joelhos no chão e com o rabo nos calcanhares mirando-vos - A si e ao seu Janjão no divã. - comovida, desde esta manhã em que vos v(l)i.
“Claro que herdei alguma coisa dele: a solidão feroz, a capacidade de ser horrivelmente desagradável com os outros, os caprichos não tão incompreensíveis quanto isso, apenas defensivos, a agressividade injusta, o receio que me toquem demasiado fundo e fique tão sem pele, tão vulnerável, tão à mercê dos outros.” (Pág.11 – Visão n.º 913)
Se soubesse quantos de nós (e somos tantos) buscamos ávidos estas crónicas, jamais ponderaria abandonar-nos. Deve-nos essa parte de si. A simplicidade. A beleza. A honestidade com que escreve. Deus, se Existe, não lhe deu este ofício à toa. Cumpra o seu dever, António. Construa-nos piscinas com pé o resto da vida.
(Obrigada.)
Andreia Azevedo Moreira.
* Café com letras, na biblioteca de Oeiras, em 29 de Outubro de 2008.
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