terça-feira, 7 de agosto de 2012
INSTANTÂNEOS XVIII
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
3 à mesa. Faltava 1.
Chega-se-lhe um homem mais velho. Sorriu. «Perdoe-me. Não posso mais estar de pé.»
Sentou-se na cadeira imediatamente ao lado. Virou-se para ela. Quedou-se num silêncio de dois.
Chega-se outro. Sorriu. Limpava os óculos. «Boa tarde!»
«Estou de partida. Não por vossa causa.» (Sorrindo.)
Era a hora em que o aparelho fixado à parede clamava regresso. Disto eles não sabiam e não acreditaram.
«Pode continuar a estudar!»
«Não seja pela gente.»
Não era. Não fosse a necessidade e teria ficado por ali, a conversar, a tarde toda. A saber deles. A contar dela.
Disto eles não sabiam. Não acreditaram. Viram-na afastar-se crendo que repudiara a companhia.
«Talvez a diferença de idades...» «Talvez medo...» «Talvez alma antipática.»
Moral da história: Amiúde o que parece, não é.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
INSTANTÂNEOS XVII
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
(MICRO)CONTO DE TERROR
(Molhava o bico.)
Outro penava louco com o que cria que lhe sussurravam, contudo, nada era transmitido deveras.
(Bico seco, seco.)
Aqueloutro não suspirava, nem agia.
(Bico aberto.)
E um havia que acusava os outros de permanecerem quietos, como condenava os restantes se, se revelavam ousados. Persistia em fazer o que não queria, dizer o que não sentia, pensar o que jamais tentaria.
(Bico amargo.)
Todos eram tristes.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011
INSTANTÂNEOS XV
- Pois. Moro por estas bandas há 20 anos. E tu?
- Há nove. A Helena?
- Está bem. Obrigado. E a Olímpia?
- Também.
- Estás com bom aspecto! – Voz tremente.
- Obrigado. Tu também. – Olhos a fugir-lhe para o rio.
- Adeus então. Gostei de te ver!
- Adeus. – Calou a saudade e o espanto. O frio que o trepou de repente. Como? O impermeável fechado.
Prosseguiram, lado a lado, com sorrisos bonitos, que desenhavam vazios do passado comum. Pareceu-me vê-los de mão dada, quando eram já 132 os metros que os apartavam.
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sábado, 26 de novembro de 2011
DO APRENDER A TRANSGREDIR
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domingo, 20 de novembro de 2011
AJUDEM-ME. POR FAVOR.
2) GOSTAM (dedinho para cima na dita cuja)
3) Procuram-me - http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060
4) Gostam. (Dedinho para cima no meu 17/11/2050 = clicar na barra que diz VOTAR)
5) VOTAM DIARIAMENTE e passam palavra a TODOS os amigos. (Vá lá eu sei que todos os dias vão à vossa página. Demora 7 segundos, mais coisa, menos coisa.)
6) Eu fico contentinha. Cheia de alento e assim.
7) Vocês fazem uma boa acção.
AGRADECIDA!
Resumindo: 1) www.conteconnosco.com/ - Dedinho para cima 2) http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060 - Dedinho para cima DIÁRIO = Clicar em VOTAR
PASSEM PALAVRA. ISTO COMEÇOU EM OUTUBRO (eu, para não variar, chego atrasada à cena.) TODA A AJUDA É PRECIOSA.
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segunda-feira, 14 de novembro de 2011
INSTANTÂNEOS XIV
Sumário do exercício: 33 minutos; 107 Kcal; 4.5km.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
AS REUNIÕES LÁ NA PARÓQUIA
Epílogo - Isto veio a ser(-lhe) de extrema utilidade quando, décadas mais tarde, uns e outros lhe tentaram impingir aulas para aprender a (con)viver com a pessoa com quem já dividia a vida há anos. (Em pecado, claro está. Diz que a menina nunca, mas nunca, se há-de livrar de ir parar com os costados ao dito Inferno. E ainda bem.)
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terça-feira, 21 de junho de 2011
INSTANTÂNEOS XI
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quinta-feira, 2 de junho de 2011
INSTANTÂNEOS X
30/05/2011
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
CONTINUAÇÃO - Uma pessoa (uma mulher) por um filho...
- É por agora.
- Terei tempo.
Não tinha. Nunca tinha tempo. Despachava-se tarde dos miúdos, da louça, da roupa, da vida vivida lesta. A matilha a enfurecer-se.
«Amanhã…»
E o porvir chegava a hoje e a mesma letargia a afagá-la. Tudo mais importante. Uma birra. Um colo. Gargalhadas bonitas. A louça. A roupa. Os almoços confeccionados de véspera.
«Amanhã.»
O padecimento em crescendo. «Ladram tão alto estes cães.» Ainda que fosse por aquele momento, que pensasse que haveria de ter tempo, as dúvidas:
- E se morro? Que fiz por essa que também sou, tão carente?
- Que interessas, tu? Morre descansada. Fizeste o que te competia.
- E a voz? Estes cães? (Lobos?) Feras que investem garras e presas que me laceram. Comem-me o fígado, os pulmões, o coração.
- Que voz? Que feras? Enlouqueceste de vez?
- Esta que me ensurdece. Porque não se calam os cães? Não enlouqueci. Sou sã. (Ainda.) Pergunto: Acabarei louca?
- Sim. Morrerás doente. Não há cura para o mal que te aflige.
- Há.
- Pouco importa. Olha para o relógio. Estás sem tempo.
- Tê-lo-ia não dormisse.
- Tens de descansar.
- Usasse a noite em meu proveito e talvez o silêncio. A paz. Não posso mais.
- Definharias.
Ti ri ri ri ri. Ti ri ri ri ri.
8h37. Azáfama. 9h31 e um cartão de ponto na mão. A morte às prestações registada num aparelhinho fixado à parede.
«Onde é que guardaste a caneta?»
«As folhas brancas onde estão?»
(Os tímpanos da alma a romper-se.)
«Era o dia primeiro do mês em que a decisão fora tomada. Inexorável. Havia tentado preveni-lo do que estava prestes a suceder, contudo, ele fizera-se massa indefectível para que o não enchessem de desesperança. Era irremediável a situação em que se colocara. Falhara o prazo. Falta imperdoável que se lhe colara à epiderme das mãos. Teria de devolver o indevidamente recebido. Tê-lo-ia ajudado estivesse ao seu alcance. Regras eram, todavia, torrentes contra as quais se sentia impotente para nadar, ou sequer manter o fôlego. Creia que há sempre quem se encontre a seu lado e o fim é, não raras vezes, recomeço. (Perdoe o lugar-comum.) Sem mais para lhe transmitir permita-me que o deixe a pensar onde errou, para que possa, em situação hipotética futura, errar melhor.»
Escolheu manter «Com os meus melhores cumprimentos» como se fora possível disfarçar o desvario.
Chamaram-na ao oitavo andar. Ergueram a folha ao nível do seu nariz. Vociferaram. Devolveram a missiva.
Limpou a ira alheia do sobrolho e regressou ao 7.º. Ordenaram-lhe que reescrevesse o documento. Fê-lo com gana que desconhecia encerrar. Impregnou-o de melodia, desproveu-o da(s) banalidade(s). Remeteu-o à revelia da entidade superior. Chegara a casa, nessa tarde, por demais leve. Chegou a considerar-se capaz de correr, tal era a alegria. (O peso que a gravidez lhe acrescentara refreou-lhe o impulso.) Correspondeu ao que esperavam de si, em casa, com ânimo reforçado e os seus notaram que o seu sorriso reverberava. Não lho disseram. Não era hábito partilharem o que se passava dentro de cada um.
Persistiu por tempo indeterminado na desobediência. Durante algum tempo o seu Curriculum vitae permaneceu incólume. Despedimento nenhum. Trabalhadora exemplar. A escrita cresceu-lhe. O trabalho diário permitia-lhe evoluir. A voz tornara-se meiga. (Um cachorro amoroso.) Afagava-lhe a consciência. Ela cumpria-se dia-a-dia. Pensava: «Morrerei pacificada.» Queria acreditar estar mais próxima de escrever Literatura. Não seria lida pelas massas, mas isso não a moía. Tinha um leitor de cada vez que redigia uma participação transformada, com enlevo, em arte. Andava feliz como aquele que tem sede e se depara com o que beber.
Era o dia primeiro em que a decisão fora tomada.
Tinham começado a chegar, em catadupa, as respostas ao empreendimento daquela funcionária pública. Não se tratava de cartas de reclamação, antes palavras de incredulidade e reconhecimento.
Se por um lado se encontravam devastados pela culpa que lhes fora imputada e que, claramente, os prejudicava. Por outro, a forma como lhes havia sido comunicado desprovia a(s) respectiva(s) sentença(s) de crueldade. Revelavam-se ineptos para contestar o que era, no mínimo, estranho. Vinham, por conseguinte, felicitar os serviços pela façanha e solicitar que, em situações de incumprimentos futuros, fossem notificados por aquela mulher que se recusava a ser tratada por qualquer título.
De nada lhe serviram os louvores. Tão pouco o facto de ter já inúmeros leitores entusiásticos. Foi despedida.
Precisava de dinheiro. Filhos para alimentar; necessidades primárias – Noutras latitudes: luxos). Comprometimento(s).
A crise instalara-se no País - Era o que afirmavam os meios de comunicação. - uns anos antes daquele em que redigira o ofício cinquenta. Foi parar à rua. Estendia suplicante a mão, todos os dias úteis das 9h31 às 17h32. (Jamais ficara a dever horas à casa.)
A sua mendicidade soava a poesia.
Andreia Azevedo Moreira
(14/05/2011 pelas 23 e qualquer coisa a 15/05/2011 às 01h16)
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
Uma mulher.
CONTINUA.
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terça-feira, 12 de abril de 2011
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
INSTANTÂNEOS IX
- Falta sempre alguma coisa.
- E se te disser convicto «Nada me falta.» ?
- Falta sempre alguma coisa.
- Nada me falta.
- Falta. Quanto mais não seja, falta-te que te falte qualquer coisa.
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quarta-feira, 30 de março de 2011
MAURO PAVIA OLHAVA-A MAS NÃO A VIA
sexta-feira, 18 de março de 2011
INSTANTÂNEOS VIII
Chegara a crer, plena de certeza(s), possuir um dom. Depois deu-se o instante em que percebeu que o chamamento era, afinal, uma micose. Passou o resto da existência a coçá-la.
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sábado, 5 de março de 2011
INSTANTÂNEOS VII
Não se abismava ante a personagem. Era apenas mais um homem entre tantos outros. Esquecia-se amiúde de o visitar e quando o fazia o tédio assomava-se-lhe aos pulmões e ela corria para a janela abrir a boca e as narinas para que o ar entrasse convenientemente.
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
INSTANTÂNEOS VI
És tu.
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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Pensar «sem maneiras» não é o mesmo que ficar «sem maneiras». Ou talvez seja.
De como um almoço por demais agradável (…apesar de certas e determinadas correntes de pensamento se me terem afigurado algo redutoras e inconscientemente (?) machistas. Terei, pois, de estudar de forma mais aprofundada o assunto para poder, caso a oportunidade se me apresente, voltar à carga com mais propriedade e menos intuição e não fazer, por conseguinte, figura de parva…) deu nisto:
"SEM MANEIRAS"
Nenhum dos quatro entendia o que estaria ali a fazer.
Disseram-lhes: sentem-se.
(Sentaram-se.)
Havia pessoas, ao redor, a conversar há minutos como se, se conhecessem de décadas de convívio e somente aqueles quatro estranhos se estranhassem.
O facto de não fazerem ideia quem eram aqueles com quem iriam almoçar não os impediu de sorrirem.
Que fazer quando somos constrangimento?
Sorrir. Desviar as atenções da ignorância perante o outro, ou do que (nos) espera e, também, daquilo que se quer mostrar, ou que permaneça oculto pelo maior período de tempo possível.
Sorrir toda a estupidez.
Sorrir. Imaginar os outros nus, ou a cagar, para os trazer para perto da própria humanidade.
Por baixo da roupa todos carne, mais ou menos gordura, pele, imperfeições, pilosidades, sinais, tez clara ou escura, odor(es).
Os trajes escondem nus que se assemelham mesmo quando diferem, como as almas aprisionadas nos crânios e nas costelas.
Sorriam, pois, os quatro ignorantes que mais não eram que corpos nus envergonhados da necessidade, ou do horror, que os fazem, de igual modo, evacuar. Sem contenção. Humilhando.
As perninhas debaixo da mesa abanavam. As mãos tremiam, enquanto os pulsos se confrontavam com a mesa para que não fosse tão evidente o nervosismo. As vozes em falsete, não destoando porque nenhum sabia a que soavam as vozes verdadeiras.
«Vim aqui ter de carro ou de comboio?»
«Vi-te chegar no 758.»
«Ouviste-me o pensamento?»
«Não. Nada te disse. O que ouviste? Vim de metro. Entrei no Campo Grande e saí no Cais do Sodré. Subi a Rua do Alecrim a pé.»
«E eles?»
«Sei lá. Não os conheço. Nem te estou a responder. Tentas apenas ganhar tempo. Desconheces o que dizer de relevante, não é?»
«É um facto. Para que nos sentaram aqui?»
«Às vezes é benéfico não conhecermos os outros, tal como não nos conhecemos deveras.»
«Sei quem sou. Não me envolvas nas tuas crises.»
«Crises? Esqueces-te que não me conheces? Tão pouco te respondo. Tentas somente ganhar tempo...»
«Pois.»
Tímidos sorrisos geram risos que adivinham gargalhadas e o desassossego esbate-se. Não se treme quando se ri daquela maneira. A seriedade impõe o temor. A imbecilidade permite que a coragem, ainda que ignara, se revele.
Quem dos quatro falará primeiro? Nenhum? Todos um coro?
(De questões. Insegurança. Solidão.)
Querem compor-se, parecer bonitos, receiam não agradar. Olvidam o pormenor subtil, todavia, óbvio: todos com medo.
Não existem os destemidos. Os que mais arriscam são, talvez, os que mais t(r)emem. Não permitem, contudo, que os agrilhoem. Batem os braços com força e ânimo desmedidos, acreditam poder voar e respiram. Gritam. Revoltam-se. Berram às pessoazinhas que regozijam no amolgar ao apelidá-los de «LOUCOS» que se fodam e persistem num frenesim de asas que os eleva em voo que se não pode medir numa distância dos pés ao chão. Voam tão alto que os pequeninos da existência jamais os alcançam embora os insultem como se lhes pudessem chegar.
Eis que os quatro, cada um a seu modo, eram dos que voam. Assim, não tardou até que se desenleassem do embaraço para poderem dizer coisas uns aos outros. Os quatro, sem excepção, queriam dizer algo e o que não fosse dito nas palavras que embatiam na língua e nos dentes, sê-lo-ia com olhos, trejeitos, meneares de torsos e dedos a sugerir direcções.
As horas sucederam-se e eles esquecidos dos que se conheciam a ocupar a mesma sala e não passavam então de paredes caiadas. Mudas. Já não os incomodava a familiaridade aparente de outrora, dado que haviam cessado de existir. Rodeados de paredes desinteressantes encontravam-se defronte a autêntico banquete. Bálsamo para as papilas gustativas e poderoso inflamador dos sentidos. Escorreu-lhes o dito nas gargantas com as horas de conversa.
Vénus ajeitava o cabelo curto na testa calando muitas interrogações. O tempo não era suficiente para aferir as díspares vontades que como aranhas lhe teciam teias nos pulmões. Volta e meia faltava-lhe o ar e ela sentava-se muito direita, procurando que o oxigénio persistisse em fazê-la viver. Ameaçava dizer o que a incomodava – Uma espécie de torpor. – inclinando-se para Mercúrio, para logo se recostar na cadeira, ingerindo mais puré. Este era a cola que lhe unia os maxilares impossibilitando-lhe qualquer articulação.
Mercúrio atento impedia que o silêncio se (re)instalasse entre os dois. Falava-lhe sobre as coisas importantes enquanto a descansava com os olhos: «SOU COMO TU.»
Nessas alturas o puré não descia e ela fitava-o muito séria incapaz de sorrir o seu sorriso bonito.
Terra e Saturno, pelo contrário, eram loquacidade cúmplice e diziam além das coisas importantes, aquelas que são só volumes com que se colmatam os vazios.
Amiúde Terra repreendia Vénus sem que os restantes notassem.
«Engole o puré. Que fazes?»
«Cala-te. Que pretendes?» - A cabeça pendendo para a direita, as sobrancelhas um acento circunflexo.
«Desculpa. Custa-me ver-te calar. Perder tempo com puré.»
«É comigo. Que sabes de mim e do que me apetece comer?»
«Nada. Nem te conheço. Tens razão. Mastiga o puré. Faz o que te der na gana.»
Vénus abriu a boca a Terra e puré nenhum.
Terra sabia que a partir desse momento Vénus iria em sentido que lhe agradava. Não a conhecia mas vê-la confiante era(-lhe) crucial.
Vénus e Mercúrio denotavam tensão. Este destruíra em incontáveis fios a fita de tecido vermelha que servira para fazer do guardanapo um canudo. Horas antes mirara-a com o mesmo como se empunhasse um telescópio. O pescoço parcialmente revelado pelo cabelo escorrido, muito abaixo dos ombros, obcecava-o de forma indisfarçável. Com a brincadeira procurava dissipar o ímpeto que o acometia de lho conhecer. Com o rosto? Descendo-lhe suavemente até à clavícula enquanto o marcava com a barba hirsuta. Com o nariz? Inspirando-lhe o aroma adocicado. Com os lábios humedecidos? Deixando-lhe rasto de saliva.
Decidira render-se à cobardia. Ir ao cinema. Comunicou-o.
- Tenho de partir. Apetece-me um filme. Com sorte chego a tempo da sessão das 18h. É longo, como seria muito duradoura a tarde se me dispusesse a conhecer-vos melhor. Não necessito de mais três pessoas na minha vida e é por isso que vou a esta sessão. Passem bem, sim?
Terra encolheu os ombros. Tinha desabafado algumas inquietações com quem de direito. Sentia-se bem. Retorquiu:
- Considero, igualmente, já conhecer o número de pessoas exacto que consigo suportar.
Saturno encarou-os ofendido.
- Folgo em sabê-los tão cheios de pessoas. Para que vieram se estão sem espaço?
Vénus desconcertada balbuciou como se a questão se lhe dirigisse.
(Não era o caso. Faltavam-lhe pessoas. Uma, pelo menos.)
- Não gosto assim tanto de puré. Gostei de vocês. A argamassa impediu-me, até aqui, de o dizer.
Foi assim, ainda com fios de carne entre os incisivos, passadas horas em que se esqueceram dos disfarces, que recordaram o pudor que sentiam por se resumirem a corpos nus e almas fechadas.
Calaram-se. Instalou-se insidiosa a artificialidade e com essa a ausência de assunto. Saturno virou-lhes as costas irritado por ser o único a não temer a exposição e dirigiu-se às paredes, já não mudas, nem brancas, antes vozes e caras que eram “adeusinhos” e sorriam dentes de circunstância que diziam:
«Nunca mais te vou ver e não me importo.»
Após hercúleo esforço, os outros três, haviam sucumbido às leis dos demais. Era inconcebível para ele que o tivessem feito. Suava descontentamento. Reuniram-se uma última vez em torno da mesa, fitando-se, medindo-se irremediavelmente expectantes, nesse momento em que nada deveriam aguardar dado que era o fim do que não principiara. Saturno sustinha o desprezo que agora lhe inspiravam os companheiros do repasto. Terra perdera-se nas considerações que tecia por dentro das meninges, constatando que ficara muito por dizer, embora não fosse importante já que dentro de minutos tudo como dantes; Vénus percorria com a língua o interior da boca, recriminando-se por todo o puré que ingerira ao longo dos anos, enquanto Mercúrio lhe fixava o pescoço num ardor sem precedente. A buzina do táxi arrancou-o à pele daquela mulher.
- ADEUS.
Despediram-se em amplexos demorados nos quais aferiram a real nudez.
(Corpos que vibram não se podem ocultar.)
Vénus mirou-se na superfície da colher de sobremesa lambida, certificando-se que nenhum puré persistira nos dentes e correu atrás de Mercúrio impondo-se no mesmo táxi.
Era uma viatura exígua e dois o número certo de pessoas que comportava.
(Quatro se dois pares, lado-a-lado, se emparelhassem como Vénus que se sentou em Mercúrio antes mesmo de lhe explicar que necessitava de uma boleia para nenhures.)
Deu-lhe para rezar. Encarou o tejadilho da viatura enquanto ela lhe desapertava as calças e entrelaçava o pescoço no dele. Os abdómenes confrontavam-se ríspidos. Não ousava descolar as mãos do assento, apesar das mamas adivinhadas do tamanho exacto das palmas da sua premência. Era marcado a cheiros, saliva e possessão.
No retrovisor não havia rosto para o motorista e os ombros desprovidos de olhos não os incomodavam, apesar de pejados de ouvidos.
Foi por tempo indeterminado que Vénus comandou e Mercúrio foi subjugado. Demonstrado ficou que um desmedido silêncio pode não significar quietude, antes o momento que antecede inexorável predação.
O pavor da nudez ficara-lhe no restaurante, no braço flectido de Terra que lho segurara com ternura, como ao casaco de uma criança. Como se fossem, até, amigas.
Proferiu enfim, assertiva:
- Convida-me para ir contigo ao cinema.
- Vem comigo ao cinema. A película desenrola-se por mais de quatro horas. Aguentarás tanto tempo a meu lado?
- Não gosto dessa palavra.
- Qual?
- Aguentar.
- Olha para mim. O que vês? Não vislumbras quão patético sou?
Vénus percorre-lhe os lábios com a língua, de seguida os dentes, o céu da boca. Envolve-lhe a língua com a sua. Certifica-se que também nele puré nenhum.
Narizes encostados. Quatro eram dois olhos imensos de coruja.
«SOU COMO TU.»
Andreia Azevedo Moreira (13/11/2010 pelas 14h45 – 24/11/2010 pelas 07h30)
Títulos alternativos (Vocês decidem):
1) "Puré de batata com apontamento de casca de laranja braseada"
2) "Cascas de batata fritas com maionaise a acompanhar a 4,5€ são um absurdo."
3)"Atenção que o puré de batata congelado do Pingo Doce é muito bom e parece mesmo caseiro."
P.S. Ei-lo Tânia. Espero que (também) gostes. ;)
P.S. 2 Peço perdão pelas ideias repetidas à exaustão. Falta revisão mais apurada, porém, tive receio que o tempo se me esgotasse sem conseguir publicá-lo e vá-se lá saber porquê determinei que era importante fazê-lo antes que me rebentassem a bolha.
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