terça-feira, 7 de agosto de 2012

 

INSTANTÂNEOS XVIII

Abandonou-lhe os heterónimos que ficcionara, dedicando-se inteiramente ao ortónimo. Quando percebeu que o havia inventado também, matou-se. Pediu uma bica, despejou-lhe um pacote de açúcar, todavia, o acre persistia. Era a língua que lamentava ver-se enrolada, asfixiante, impedida do beijo que outrem não lhe prometera.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

 

3 à mesa. Faltava 1.


Era uma mesa, no meio da rua. Perdida. Com quatro cadeiras presas ao chão a protegê-la. Não achou estranho, sentou-se. Pensou: está aqui para que descanse e leia a revista, sob este dia bonito. Pessoas passavam ao redor daquele tampo desenquadrado e da mulher sentada, que ora ria, ora chorava ao sabor das linhas proferidas por um bigode.

Chega-se-lhe um homem mais velho. Sorriu. «Perdoe-me. Não posso mais estar de pé.»

Sentou-se na cadeira imediatamente ao lado. Virou-se para ela. Quedou-se num silêncio de dois.

Chega-se outro. Sorriu. Limpava os óculos. «Boa tarde!»

«Estou de partida. Não por vossa causa.» (Sorrindo.)

Era a hora em que o aparelho fixado à parede clamava regresso. Disto eles não sabiam e não acreditaram.

«Pode continuar a estudar!»
«Não seja pela gente.»

Não era. Não fosse a necessidade e teria ficado por ali, a conversar, a tarde toda. A saber deles. A contar dela.

Disto eles não sabiam. Não acreditaram. Viram-na afastar-se crendo que repudiara a companhia.

«Talvez a diferença de idades...» «Talvez medo...» «Talvez alma antipática.»

Moral da história: Amiúde o que parece, não é.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

 

INSTANTÂNEOS XVII

pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum piiiii_________________________________________________________________________________

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

 

(MICRO)CONTO DE TERROR

Havia um homem que endoidecia com as mentiras que lhe diziam.

(Molhava o bico.)

Outro penava louco com o que cria que lhe sussurravam, contudo, nada era transmitido deveras.

(Bico seco, seco.)

Aqueloutro não suspirava, nem agia.

(Bico aberto.)

E um havia que acusava os outros de permanecerem quietos, como condenava os restantes se, se revelavam ousados. Persistia em fazer o que não queria, dizer o que não sentia, pensar o que jamais tentaria.

(Bico amargo.)

Todos eram tristes.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

 

INSTANTÂNEOS XV

- Por aqui?
- Pois. Moro por estas bandas há 20 anos. E tu?
- Há nove. A Helena?
- Está bem. Obrigado. E a Olímpia?
- Também.
- Estás com bom aspecto! – Voz tremente.
- Obrigado. Tu também. – Olhos a fugir-lhe para o rio.
- Adeus então. Gostei de te ver!
- Adeus. – Calou a saudade e o espanto. O frio que o trepou de repente. Como? O impermeável fechado.

Prosseguiram, lado a lado, com sorrisos bonitos, que desenhavam vazios do passado comum. Pareceu-me vê-los de mão dada, quando eram já 132 os metros que os apartavam.

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sábado, 26 de novembro de 2011

 

DO APRENDER A TRANSGREDIR

As palavras, lidas de relance, não lhe abandonavam o pensar.

“PORCA”

                                                                           “ODEIO-TE”
“NOJENTA”           “MUDA DE CAMISA!”
                                                                                                           “CHEIRAS MAL”
                 
                  “CHAVALA JAVARDA”
                   
                                                                  “RIDÍCULA”

“ODEIO-TE”

Dirigiu-se ao WC do pavilhão A. Retirou a carta que ardia no bolso de trás das calças de ganga, por demais justas, esquecendo as restantes. As que prometiam amor, um cinema, sorrisos ou encontros. Que fossem fictícias e outra forma de gozo, não era importante. Não se comparavam à pujança com que esta a tocara. Releu as agressões como a poemas-soco. Soletrou cada vocábulo deglutindo-os. Tremia. As mãos geladas. Pensara rasgar a missiva deitando-a em mil bocadinhos para a sanita. Saía dali e fingia com sorriso arrancado aos pés, que não havia aquela dor tão grande a carcomê-la. Tomaria banho, assim que pudesse. Trocaria a camisa de flanela aos quadrados, por outra das quatro que costumava envergar. Pentear-se-ia. Ainda a ergueu ao nível do nariz para principiar a tarefa. Mudou de ideia.

- Sim. Decidi de outro modo. Não me arrependo.

- Tem noção que terá consequências?

(Encolheu repetidamente os ombros)

- Sinto-me bem. Logo à noite deito-me e durmo descansada.

- Conte-me o que se passou, para que a sua versão conste do processo.

- Há esta cena das cartas dos namorados no 14 de Fevereiro não é?

- Sim…

- Pois. Essa porcaria só serve para gozarem os otários. Marcam encontros falsos, naquela de irem espreitar o parvo na inútil espera; enviam recados em nome de terceiros que, amiúde, nem gramam o destinatário; escrevem recadinhos lindos esvaziados de verdade, enfim, trinta por uma linha. Recebi várias dessas cartinhas. Não me chateiam. Imagino, inclusive, que são genuínas e chego a sentir orgulho por receber três, ou quatro. É normal uma miúda achar que tem direito à atenção de outrem. Pouco me mói se é brincadeira. Sonho que não e tudo bem até ao ano seguinte. Nem me questiono sobre a ausência de outros sinais além dos bilhetes do 14/02. Antes de esquecer o assunto, espreito de esguelha para o bar, certificando-me que, de facto, ninguém. Um João, um Rodrigo, um Eliseu. Alguém. Tenho convivido bem com isto. Este ano foi diferente. Aquela estúpida de merda…

- Modere a linguagem por favor.

- Ok. Aquela imbecil do caralho…

- Olhe que só piora a situação que já não é famosa.

- Tem razão. Peço desculpa. Como ia a dizer, aquela sonsa fez-se passar por minha amiga enquanto fomos colegas de turma, quando tudo o que queria era livre acesso aos meus testes. Fui coisa a usar enquanto deu jeito. Pois bem, assim que deixámos de ser da mesma turma, passei a alvo declarado de troça. Antes camuflava as suas opiniões sobre mim, atribuindo-as a terceiros. “Ah sabes o que é que o fulano disse?... Pois! Nem concordo, mas…” Semeava insegurança. Teve a lata de me vir questionar sobre o número de cartas que recebi para aferir a minha reacção. Encarou-me de olhos muito abertos farejando. Panhonha, ao invés de lhe dizer ali seis certezas ou, até, um empurrão, fui para a casa de banho agoniar-me sozinha. Incapaz de chorar, ou exprimir, o princípio do sofrimento que aquilo me causou.

- Continue. Sem se exaltar, por favor, que isto para o seu lado já se complicou quanto baste.

- Está bem! Ora, encontrava-me nesse impasse, engasgada de mágoa, decidida a rasgar a carta quando me deu a vontade.

- Hum… Hum…

- Não foi planeado está a ver? Como adivinhar aquela aflição?

- E o saco onde transportou a matéria?

- Um feliz acaso. O resto já sabe como aconteceu.

- Pois sei. Quer acrescentar algum pormenor, que me não tenha sido comunicado pela outra parte?

- Sim. Quero dizer, em minha defesa, que confirmei junto dela, antes de fazer fosse o que fosse com o “acaso”, se tinha sido ela a escrever-me.

- O que lhe respondeu?

- Riu-se. Riu-se muito, enquanto piscava o olho à Helga. Eram gargalhadas que doíam. Passei-me e utilizei o “acaso”.

- Então admite que o premeditou?

- Tanto quanto se pode premeditar um cagalhão.

- Já a avisei para ser bem-educada.

- Desculpe. Estou nervosa. Mas não arrependida, deixe lá isto aí escrito na sua folhinha. Lamento, igualmente, não a ter obrigado a comer a carta. Ainda agora me pesam no estômago aquelas palavras.

- A família dela exige um pedido de desculpas.

- Com certeza. Aceitá-lo-ei com todo o gosto.

- Está a fazer-se desentendida? Eles querem que peça desculpa à Vanessa.

- Fá-lo-ei se ela o fizer também.

- Ela alega que é mentira. Que a Andreia a inveja e por isso lhe fez aquela maldade.

- Ah ah ah ah.

- Recusa-se a pedir-lhe desculpa?

- Ah pois recuso! O que eu lhe fiz vê-se. Depois de um banhito com sais do boticário, perfuma-se com Aqua Fresca, veste um pijaminha quente e fofinho, dorme e aquilo passa-lhe! Amanhã, ou depois, cheiro nenhum a merda. Pelo menos, literalmente. O que ela me fez e a outros, não sai. Fica-nos dentro. Para sempre. Hei-de encontrá-la adulta, longe destes quinze anos turbulentos e tremer enquanto a cumprimento inepta para lhe demonstrar o quanto a desprezo. Dar-lhe-ei dois beijinhos, como se me merecesse consideração. Temê-la-ei, de novo. Como se a qualquer momento balões de banda desenhada me viessem legendar:

“PORCA”
“ODEIO-TE”
“NOJENTA” “MUDA DE CAMISA!”
“CHEIRAS MAL”
“CHAVALA JAVARDA” “RIDÍCULA”

“ODEIO-TE”

- A fantasia apaziguou-a com o passado?

- De que maneira!

- Que fará se um dia a reencontrar?

- O mais provável será ignorá-la. Dois beijinhos não darei decerto. Que nojo!

- Dir-lhe-á alguma coisa?

- Não.

É-me suficiente saber que, no presente, não permitirei que me violentem daquela maneira.

Andreia AM Sábado 29/10/2011 (23h) a Domingo 30/10/2011 (00h37mn)

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domingo, 20 de novembro de 2011

 

AJUDEM-ME. POR FAVOR.

1) Vão à página http://www.conteconnosco.com/

2) GOSTAM (dedinho para cima na dita cuja)

3) Procuram-me - http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060

4) Gostam. (Dedinho para cima no meu 17/11/2050 = clicar na barra que diz VOTAR)

5) VOTAM DIARIAMENTE e passam palavra a TODOS os amigos. (Vá lá eu sei que todos os dias vão à vossa página. Demora 7 segundos, mais coisa, menos coisa.)

6) Eu fico contentinha. Cheia de alento e assim.

7) Vocês fazem uma boa acção.

AGRADECIDA!

Resumindo: 1) www.conteconnosco.com/  - Dedinho para cima 2) http://www.conteconnosco.com/trabalho-detalhe2.php?id=2060 - Dedinho para cima DIÁRIO = Clicar em VOTAR

PASSEM PALAVRA. ISTO COMEÇOU EM OUTUBRO (eu, para não variar, chego atrasada à cena.) TODA A AJUDA É PRECIOSA.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

 

INSTANTÂNEOS XIV

Corre na passadeira ao lado do Editor de apelido Leporídio. Ri-se, por dentro, do acaso. Pensa: Tão perto, todavia, (ainda) demasiado longe. Maravilhoso lugar-comum. Canta(-lhe), com as entranhas, os seus contos, como se tocassem no MP3, sem bateria, que finge marcar-lhe o ritmo da passada. Ignora ruborizada a incredulidade dos demais. Ele observa-a de esguelha. Desconhece todas as letras, atribuindo-o à provecta idade. Pensa (ofegante): Boa música.

Sumário do exercício: 33 minutos; 107 Kcal; 4.5km.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

 

AS REUNIÕES LÁ NA PARÓQUIA

A menina tinha nove anos e crescera temendo o Inferno.

- Olha o Inferno! - Dizia-lhe a avó e ela acreditava.

- Preciso de me baptizar. Urgente. - Informou os pais resoluta.

A menina tinha nove anos e ia, finalmente, receber o primeiro sacramento esperançosa de escapar ao Inferno.

- Ó Vó! O que é o Inferno? - Não lhe ocorrera, jamais, perguntar. Assumiu de imediato que deveria ser qualquer coisa maligna e a evitar.

Houve algumas reuniões em que pessoas sérias falavam sobre assuntos graves, muito direitas, como se houvesse competição para aferir qual o mais aprumado. O senhor prior, no princípio de cada uma, torcia e puxava o papo à menina enquanto lhe perguntava se, se portava bem. 

(Ninguém a desproveu, entretanto, da convicção que a força que o careca empregava, no cumprimento, era de tal maneira desmesurada que fora o responsável pela papada que, ainda hoje, lhe circunda a carinha laroca.)

Discutiu-se o amor como se pudesse ser debatido o mistério maior. Perguntaram ao casal "feliz" se, se amavam mais depois de 11 anos de casamento, ou no princípio de tudo.

ELE: AGORA.
ELA: ANTES.

Não era importante que o que ele afirmava fosse mentira e que ela tivesse dito, mais ou menos, o que lhe ia dentro ao nível do estômago.

As palavras tinham sido proferidas perante terceiros.

ELE: (E)s(t)ou humilhado. Porque não mentiste?

ELA: Lamento a dor. Não sei representar. Vivo em crueldade.

A reunião acabou e quem fizera a(s) pergunta(s) parecia satisfeito.

Os dias que se sucederam foram feitos de um silêncio avassalador para a menina, que perdera a certeza de não querer ir para o Inferno.

Moral da história: No que toca a celebrações na Igreja, é muito importante que se falte às reuniões.

Epílogo - Isto veio a ser(-lhe) de extrema utilidade quando, décadas mais tarde, uns e outros lhe tentaram impingir aulas para aprender a (con)viver com a pessoa com quem já dividia a vida há anos. (Em pecado, claro está. Diz que a menina nunca, mas nunca, se há-de livrar de ir parar com os costados ao dito Inferno. E ainda bem.)





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terça-feira, 21 de junho de 2011

 

INSTANTÂNEOS XI

Ia mais do que uma vez por dia à caixa do correio na expectativa de receber a sms que ele não enviara, porque apenas se permitia escrever e-mails. (Disso ela não sabia.) Entristecia-se amiúde por não saber ler. Fechava a porta da rua atrás de si, subia até ao apartamento e chorava lágrimas de ignorância, enquanto ele premia botões que não lhe estavam destinados.

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quinta-feira, 2 de junho de 2011

 

INSTANTÂNEOS X

O funcionário dos CTT recordava-se dela de uma vida inteira de carreira contributiva a enviar sonhos por carta registada.

30/05/2011

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

 

CONTINUAÇÃO - Uma pessoa (uma mulher) por um filho...

Apresentava-se ao serviço às 9h31. Havia um mundo real para dactilografar. Carecia de tempo e de espaço para a ficção. A dela. – Imaginada deveras. Mal sucedida. – A dos outros: Ah tão criativa! – Não mais do que o seu modo de lhes contar das frustrações, dos devaneios, do medo. Falava-lhes da(s) sua(s) verdade(s). Acreditassem se lhes aprouvesse. Curioso era que duvidassem do que era de facto aplaudindo-o, desconsiderando o que lhe custara as entranhas a imaginar. Relevava a injustiça, porque o resultado era sempre o desmedido alívio por suprir a urgência de que padecia. Como se o perene cansaço, por ouvir dentro das meninges imperativa voz - Qual matilha de canídeos latindo. - lhe desse trégua. Havia muito que não descansava da dita. Precisava do dinheiro: filhos para criar; necessidades elementares (Noutras latitudes superfluidades.); responsabilidades. A certeza de não poder agredir outrem com as omoplatas sem que o peito lhe escurecesse. Cria na luz para criar. Uns apreciam a treva. Ela almejava escrevê-la sem habitá-la. A angústia andava a alimentar-se-lhe da alegria de outrora. Consolava-se:

- É por agora.

- Terei tempo.

Não tinha. Nunca tinha tempo. Despachava-se tarde dos miúdos, da louça, da roupa, da vida vivida lesta. A matilha a enfurecer-se.
Enrodilhava-se na fadiga como se frio e essa cobertor. Adiava.

«Amanhã…»

E o porvir chegava a hoje e a mesma letargia a afagá-la. Tudo mais importante. Uma birra. Um colo. Gargalhadas bonitas. A louça. A roupa. Os almoços confeccionados de véspera.

«Amanhã.»

O padecimento em crescendo. «Ladram tão alto estes cães.» Ainda que fosse por aquele momento, que pensasse que haveria de ter tempo, as dúvidas:

- E se morro? Que fiz por essa que também sou, tão carente?

- Que interessas, tu? Morre descansada. Fizeste o que te competia.

- E a voz? Estes cães? (Lobos?) Feras que investem garras e presas que me laceram. Comem-me o fígado, os pulmões, o coração.

- Que voz? Que feras? Enlouqueceste de vez?

- Esta que me ensurdece. Porque não se calam os cães? Não enlouqueci. Sou sã. (Ainda.) Pergunto: Acabarei louca?

- Sim. Morrerás doente. Não há cura para o mal que te aflige.

- Há.

- Pouco importa. Olha para o relógio. Estás sem tempo.

- Tê-lo-ia não dormisse.

- Tens de descansar.

- Usasse a noite em meu proveito e talvez o silêncio. A paz. Não posso mais.

- Definharias.
- Há quem consiga. Três, quatro horas de sono. Quanto baste.
- Não sejas ridícula. Vamos, acorda. Está na hora.

Ti ri ri ri ri. Ti ri ri ri ri.

8h37. Azáfama. 9h31 e um cartão de ponto na mão. A morte às prestações registada num aparelhinho fixado à parede.
Aquilo continuou até ao intolerável. A voz: Implacável.

«Onde é que guardaste a caneta?»
«As folhas brancas onde estão?»

(Os tímpanos da alma a romper-se.)

Impunha-se-lhe cessar a representação. Uma criança de cinco anos chamar-lhe-ia “fingidona”, realizasse o tamanho da mentira que alimentava.
Principiou trémula o ofício n.º 50 de 2011. Ousou furtar-se ao costumeiro “Vimos pelo presente ofício”

«Era o dia primeiro do mês em que a decisão fora tomada. Inexorável. Havia tentado preveni-lo do que estava prestes a suceder, contudo, ele fizera-se massa indefectível para que o não enchessem de desesperança. Era irremediável a situação em que se colocara. Falhara o prazo. Falta imperdoável que se lhe colara à epiderme das mãos. Teria de devolver o indevidamente recebido. Tê-lo-ia ajudado estivesse ao seu alcance. Regras eram, todavia, torrentes contra as quais se sentia impotente para nadar, ou sequer manter o fôlego. Creia que há sempre quem se encontre a seu lado e o fim é, não raras vezes, recomeço. (Perdoe o lugar-comum.) Sem mais para lhe transmitir permita-me que o deixe a pensar onde errou, para que possa, em situação hipotética futura, errar melhor.»

Escolheu manter «Com os meus melhores cumprimentos» como se fora possível disfarçar o desvario.

Chamaram-na ao oitavo andar. Ergueram a folha ao nível do seu nariz. Vociferaram. Devolveram a missiva.

Limpou a ira alheia do sobrolho e regressou ao 7.º. Ordenaram-lhe que reescrevesse o documento. Fê-lo com gana que desconhecia encerrar. Impregnou-o de melodia, desproveu-o da(s) banalidade(s). Remeteu-o à revelia da entidade superior. Chegara a casa, nessa tarde, por demais leve. Chegou a considerar-se capaz de correr, tal era a alegria. (O peso que a gravidez lhe acrescentara refreou-lhe o impulso.) Correspondeu ao que esperavam de si, em casa, com ânimo reforçado e os seus notaram que o seu sorriso reverberava. Não lho disseram. Não era hábito partilharem o que se passava dentro de cada um.

Persistiu por tempo indeterminado na desobediência. Durante algum tempo o seu Curriculum vitae permaneceu incólume. Despedimento nenhum. Trabalhadora exemplar. A escrita cresceu-lhe. O trabalho diário permitia-lhe evoluir. A voz tornara-se meiga. (Um cachorro amoroso.) Afagava-lhe a consciência. Ela cumpria-se dia-a-dia. Pensava: «Morrerei pacificada.» Queria acreditar estar mais próxima de escrever Literatura. Não seria lida pelas massas, mas isso não a moía. Tinha um leitor de cada vez que redigia uma participação transformada, com enlevo, em arte. Andava feliz como aquele que tem sede e se depara com o que beber.

Era o dia primeiro em que a decisão fora tomada.

Tinham começado a chegar, em catadupa, as respostas ao empreendimento daquela funcionária pública. Não se tratava de cartas de reclamação, antes palavras de incredulidade e reconhecimento.

Se por um lado se encontravam devastados pela culpa que lhes fora imputada e que, claramente, os prejudicava. Por outro, a forma como lhes havia sido comunicado desprovia a(s) respectiva(s) sentença(s) de crueldade. Revelavam-se ineptos para contestar o que era, no mínimo, estranho. Vinham, por conseguinte, felicitar os serviços pela façanha e solicitar que, em situações de incumprimentos futuros, fossem notificados por aquela mulher que se recusava a ser tratada por qualquer título.

De nada lhe serviram os louvores. Tão pouco o facto de ter já inúmeros leitores entusiásticos. Foi despedida.

Precisava de dinheiro. Filhos para alimentar; necessidades primárias – Noutras latitudes: luxos). Comprometimento(s).

A crise instalara-se no País - Era o que afirmavam os meios de comunicação. - uns anos antes daquele em que redigira o ofício cinquenta. Foi parar à rua. Estendia suplicante a mão, todos os dias úteis das 9h31 às 17h32. (Jamais ficara a dever horas à casa.)

A sua mendicidade soava a poesia.

Andreia Azevedo Moreira
(14/05/2011 pelas 23 e qualquer coisa a 15/05/2011 às 01h16)

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

 
Uma pessoa (uma mulher) por um filho adia qualquer coisa. A cabeça continua a funcionar, tem ideias, arrisca umas "curtas". Há permanente angústia por não conseguir concretizar a maior parte do que se lhe assoma ao pensamento. Sabe, todavia, que para escrever Literatura o empenho tem de ser total. Ainda há muito que aprender. Tudo, talvez. Pede ao Universo que a sua hora tarde, para conseguir, um dia, ter a disponibilidade de que o seu Amor necessita. Adiar não é desistir. É tão-só a latência que se lhe impõe por existir alguém, muito maior do que ela ou os seus desejos, que precisa que esteja a seu lado. Uma pessoa (uma mulher) não fica triste se isto acontece, porque aprende com as entranhas a renunciar ao egoísmo. Mas, não esquece. A sua exigência de escrita manifestar-se-á sempre, ainda que de forma subtil e habitar-lhe-á o peito até ao dia derradeiro.

A. a 13 de Maio de 2011 às 13:00

Choro muitas vezes por esta pessoa (uma mulher). Apiedo-me dela desconhecendo se a(s) sua(s) impossibilidade(s) se trata de injustiça, ou natureza, da sua condição. Ignoro se desistiu deveras e a criação é o álibi perfeito para a desistência. Se aguarda paciente a sua oportunidade de usar o tempo a seu bel-prazer. A decisão foi tomada. Não há retrocesso. Desejo que não tenha decidido privar-se do seu modo de ser e que o Universo lhe ouça a prece: "Morte não te antecipes." Choro muitas vezes por esta pessoa (A quem não reconheço como vítima).

Uma mulher.

CONTINUA.

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terça-feira, 12 de abril de 2011

 
A mãe alimenta o bebé no jardim e as pessoas que passam sorriem-lhes com ternura. Como se os conhecessem e lhes tivessem a afeição dos que se querem. Somente um dos olhares fora pernicioso. Um ver deturpado, sujo, maldoso, como se lho quisera arrancar dos braços para ignominioso festim. A mulher sangrou por dentro com a ideia da maldade do mundo. A ideia da maldade do mundo careca e com óculos ensombrou-lhe, por um instante, o filho, ao debruçar-se para o mirar. Sentiu frio. Aconchegou-o contra si. «Está tudo bem.» Beijou-o entre os olhos, onde começa a cana do nariz. Inocente ele desconhece que a ideia da maldade do mundo o descobriu e lhe fixou as feições. Ela sabe não o poder proteger perenemente da perfídia, que a escuridão todos os dias se abate sobre as gentes. Traz, todavia, no peito toda a força da esperança que a sustenta. O som da gargalhada do menino, pendurado nos seus tímpanos de progenitora, serena-lhe qualquer angústia.

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

 

INSTANTÂNEOS IX

- E se nada me faltar?

- Falta sempre alguma coisa.

- E se te disser convicto «Nada me falta.» ?

- Falta sempre alguma coisa.

- Nada me falta.

- Falta. Quanto mais não seja, falta-te que te falte qualquer coisa.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

 

MAURO PAVIA OLHAVA-A MAS NÃO A VIA

Mauro Pavia era um homem interessantíssimo. Bonito não, todavia, isso era de somenos importância, se o que dizia e a forma como se movia na existência cativavam tanto os demais. Além disso, possuía inteligência acima da média, daí que Mariana Alberto se tenha abespinhado imensamente quando o percebeu a cometer crasso erro. Mauro Pavia conhecera uma mulher extraordinária e ainda não se tinha dado conta do sucedido, tal era a gravidade do estado narcísico de que fora acometido. Passava os dias falando de si e dos seus feitos, naquela atitude grosseira de ostentar tudo quanto lhe sobejava. Considerava, decerto, embevecê-la, enquanto a alienava cada vez mais. Tornara-se enfadonho que quisesse tanto falar de si e tão pouco saber dela. Que concebia ele construir? Uma relação, seja de que tipo for, erige-se com partilhas e (re)conhecimentos recíprocos, não com altares. Para isso há as igrejas e ela não era, de todo, uma pessoa religiosa. Persistia o tolo nessa atitude há tempo indeterminado, ou porque não a desejasse deveras e andasse, tão só, a passar o tempo como quem fala para o espelho. Ou, porque a quisesse com intensidade tamanha, que julgava não serem suficientes todas as suas qualidades e sentisse, por conseguinte, necessidade de constantemente lhas relembrar. Olvidava um elementar: “E tu?” que os elevaria a interacção mais densa que o debitar unívoco de glórias vãs. Mauro Pavia ia perder aquela mulher. Era uma questão de horas. Apesar de todo o conhecimento e intelectualidade que encerrava comportava-se, no que concernia às relações humanas no geral e àquela, em particular, como um parvalhão e não havia filosofia que curasse tal enfermidade. Mariana Alberto sabia de tudo isto mas não lho poderia dizer jamais, porque ele era deus, todo sabedoria e ela não passava de ignara rapariga, cujo único talento era ser capaz de descortinar as subtilezas da vida. Andreia Azevedo Moreira 26/03/2011 pelas 11:41

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sexta-feira, 18 de março de 2011

 

INSTANTÂNEOS VIII


Chegara a crer, plena de certeza(s), possuir um dom. Depois deu-se o instante em que percebeu que o chamamento era, afinal, uma micose. Passou o resto da existência a coçá-la.

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sábado, 5 de março de 2011

 

INSTANTÂNEOS VII

Agora que sabia coisas dele perdera o interesse.
Não se abismava ante a personagem. Era apenas mais um homem entre tantos outros. Esquecia-se amiúde de o visitar e quando o fazia o tédio assomava-se-lhe aos pulmões e ela corria para a janela abrir a boca e as narinas para que o ar entrasse convenientemente.
Agora que sabia coisas dele, já não o desejava tanto. Não o desejava de todo. E se o desejara quando ele era um estranho. Tinha tido, por diversas vezes, a sensação de estar a enlouquecer de tanto querê-lo. O tempo passara e ele era, afinal, tão só um homem, o que não era o bastante para que se sentisse intrigada. Impelida para ele. O facto de ter aprendido mais sobre o homem não ajudou. Fê-la esfriar e realizar que também ela não passava de uma mulher. Uma mulherzinha muito exigente com os outros e pouco consigo. Não gostava da realidade. Gostava menos ainda das coisas apreendidas sobre ele que lhe lembravam as dela. Para quê saber da humanidade? Ná. Aquilo parava por ali.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

 

INSTANTÂNEOS VI

Sabia definir o momento em que se apaixonara por ele. Era uma tarde de Verão e tinham sido recrutados, pela grande amiga comum, para tomarem um café, enquanto ela matava saudades de ambos. Depois de o deixar em casa, ainda mal o conhecia, ele ficara de porta entreaberta aguardando a sua inversão de marcha e a passagem defronte. Sorriu-lhe. Ela acenou-lhe e soube que era ele. Assim, sem mais.

És tu.

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

 

Pensar «sem maneiras» não é o mesmo que ficar «sem maneiras». Ou talvez seja.

À Ana A., Ao João P., ao Pedro M., e, já agora, a mim_zinha (Santinho).

De como um almoço por demais agradável (…apesar de certas e determinadas correntes de pensamento se me terem afigurado algo redutoras e inconscientemente (?) machistas. Terei, pois, de estudar de forma mais aprofundada o assunto para poder, caso a oportunidade se me apresente, voltar à carga com mais propriedade e menos intuição e não fazer, por conseguinte, figura de parva…) deu nisto:

"SEM MANEIRAS"

Nenhum dos quatro entendia o que estaria ali a fazer.

Disseram-lhes: sentem-se.

(Sentaram-se.)

Havia pessoas, ao redor, a conversar há minutos como se, se conhecessem de décadas de convívio e somente aqueles quatro estranhos se estranhassem.

O facto de não fazerem ideia quem eram aqueles com quem iriam almoçar não os impediu de sorrirem.

Que fazer quando somos constrangimento?

Sorrir. Desviar as atenções da ignorância perante o outro, ou do que (nos) espera e, também, daquilo que se quer mostrar, ou que permaneça oculto pelo maior período de tempo possível.

Sorrir toda a estupidez.

Sorrir. Imaginar os outros nus, ou a cagar, para os trazer para perto da própria humanidade.

Por baixo da roupa todos carne, mais ou menos gordura, pele, imperfeições, pilosidades, sinais, tez clara ou escura, odor(es).

Os trajes escondem nus que se assemelham mesmo quando diferem, como as almas aprisionadas nos crânios e nas costelas.

Sorriam, pois, os quatro ignorantes que mais não eram que corpos nus envergonhados da necessidade, ou do horror, que os fazem, de igual modo, evacuar. Sem contenção. Humilhando.

As perninhas debaixo da mesa abanavam. As mãos tremiam, enquanto os pulsos se confrontavam com a mesa para que não fosse tão evidente o nervosismo. As vozes em falsete, não destoando porque nenhum sabia a que soavam as vozes verdadeiras.

«Vim aqui ter de carro ou de comboio?»
«Vi-te chegar no 758.»
«Ouviste-me o pensamento?»
«Não. Nada te disse. O que ouviste? Vim de metro. Entrei no Campo Grande e saí no Cais do Sodré. Subi a Rua do Alecrim a pé.»
«E eles?»
«Sei lá. Não os conheço. Nem te estou a responder. Tentas apenas ganhar tempo. Desconheces o que dizer de relevante, não é?»
«É um facto. Para que nos sentaram aqui?»
«Às vezes é benéfico não conhecermos os outros, tal como não nos conhecemos deveras.»
«Sei quem sou. Não me envolvas nas tuas crises.»
«Crises? Esqueces-te que não me conheces? Tão pouco te respondo. Tentas somente ganhar tempo...»
«Pois.»

Tímidos sorrisos geram risos que adivinham gargalhadas e o desassossego esbate-se. Não se treme quando se ri daquela maneira. A seriedade impõe o temor. A imbecilidade permite que a coragem, ainda que ignara, se revele.

Quem dos quatro falará primeiro? Nenhum? Todos um coro?

(De questões. Insegurança. Solidão.)

Querem compor-se, parecer bonitos, receiam não agradar. Olvidam o pormenor subtil, todavia, óbvio: todos com medo.

Não existem os destemidos. Os que mais arriscam são, talvez, os que mais t(r)emem. Não permitem, contudo, que os agrilhoem. Batem os braços com força e ânimo desmedidos, acreditam poder voar e respiram. Gritam. Revoltam-se. Berram às pessoazinhas que regozijam no amolgar ao apelidá-los de «LOUCOS» que se fodam e persistem num frenesim de asas que os eleva em voo que se não pode medir numa distância dos pés ao chão. Voam tão alto que os pequeninos da existência jamais os alcançam embora os insultem como se lhes pudessem chegar.

Eis que os quatro, cada um a seu modo, eram dos que voam. Assim, não tardou até que se desenleassem do embaraço para poderem dizer coisas uns aos outros. Os quatro, sem excepção, queriam dizer algo e o que não fosse dito nas palavras que embatiam na língua e nos dentes, sê-lo-ia com olhos, trejeitos, meneares de torsos e dedos a sugerir direcções.

As horas sucederam-se e eles esquecidos dos que se conheciam a ocupar a mesma sala e não passavam então de paredes caiadas. Mudas. Já não os incomodava a familiaridade aparente de outrora, dado que haviam cessado de existir. Rodeados de paredes desinteressantes encontravam-se defronte a autêntico banquete. Bálsamo para as papilas gustativas e poderoso inflamador dos sentidos. Escorreu-lhes o dito nas gargantas com as horas de conversa.

Vénus ajeitava o cabelo curto na testa calando muitas interrogações. O tempo não era suficiente para aferir as díspares vontades que como aranhas lhe teciam teias nos pulmões. Volta e meia faltava-lhe o ar e ela sentava-se muito direita, procurando que o oxigénio persistisse em fazê-la viver. Ameaçava dizer o que a incomodava – Uma espécie de torpor. – inclinando-se para Mercúrio, para logo se recostar na cadeira, ingerindo mais puré. Este era a cola que lhe unia os maxilares impossibilitando-lhe qualquer articulação.

Mercúrio atento impedia que o silêncio se (re)instalasse entre os dois. Falava-lhe sobre as coisas importantes enquanto a descansava com os olhos: «SOU COMO TU.»
Nessas alturas o puré não descia e ela fitava-o muito séria incapaz de sorrir o seu sorriso bonito.

Terra e Saturno, pelo contrário, eram loquacidade cúmplice e diziam além das coisas importantes, aquelas que são só volumes com que se colmatam os vazios.
Amiúde Terra repreendia Vénus sem que os restantes notassem.

«Engole o puré. Que fazes?»

«Cala-te. Que pretendes?» - A cabeça pendendo para a direita, as sobrancelhas um acento circunflexo.

«Desculpa. Custa-me ver-te calar. Perder tempo com puré.»

«É comigo. Que sabes de mim e do que me apetece comer?»

«Nada. Nem te conheço. Tens razão. Mastiga o puré. Faz o que te der na gana.»

Vénus abriu a boca a Terra e puré nenhum.

Terra sabia que a partir desse momento Vénus iria em sentido que lhe agradava. Não a conhecia mas vê-la confiante era(-lhe) crucial.

Vénus e Mercúrio denotavam tensão. Este destruíra em incontáveis fios a fita de tecido vermelha que servira para fazer do guardanapo um canudo. Horas antes mirara-a com o mesmo como se empunhasse um telescópio. O pescoço parcialmente revelado pelo cabelo escorrido, muito abaixo dos ombros, obcecava-o de forma indisfarçável. Com a brincadeira procurava dissipar o ímpeto que o acometia de lho conhecer. Com o rosto? Descendo-lhe suavemente até à clavícula enquanto o marcava com a barba hirsuta. Com o nariz? Inspirando-lhe o aroma adocicado. Com os lábios humedecidos? Deixando-lhe rasto de saliva.

Decidira render-se à cobardia. Ir ao cinema. Comunicou-o.

- Tenho de partir. Apetece-me um filme. Com sorte chego a tempo da sessão das 18h. É longo, como seria muito duradoura a tarde se me dispusesse a conhecer-vos melhor. Não necessito de mais três pessoas na minha vida e é por isso que vou a esta sessão. Passem bem, sim?

Terra encolheu os ombros. Tinha desabafado algumas inquietações com quem de direito. Sentia-se bem. Retorquiu:

- Considero, igualmente, já conhecer o número de pessoas exacto que consigo suportar.

Saturno encarou-os ofendido.

- Folgo em sabê-los tão cheios de pessoas. Para que vieram se estão sem espaço?
Vénus desconcertada balbuciou como se a questão se lhe dirigisse.

(Não era o caso. Faltavam-lhe pessoas. Uma, pelo menos.)

- Não gosto assim tanto de puré. Gostei de vocês. A argamassa impediu-me, até aqui, de o dizer.

Foi assim, ainda com fios de carne entre os incisivos, passadas horas em que se esqueceram dos disfarces, que recordaram o pudor que sentiam por se resumirem a corpos nus e almas fechadas.

Calaram-se. Instalou-se insidiosa a artificialidade e com essa a ausência de assunto. Saturno virou-lhes as costas irritado por ser o único a não temer a exposição e dirigiu-se às paredes, já não mudas, nem brancas, antes vozes e caras que eram “adeusinhos” e sorriam dentes de circunstância que diziam:

«Nunca mais te vou ver e não me importo.»

Após hercúleo esforço, os outros três, haviam sucumbido às leis dos demais. Era inconcebível para ele que o tivessem feito. Suava descontentamento. Reuniram-se uma última vez em torno da mesa, fitando-se, medindo-se irremediavelmente expectantes, nesse momento em que nada deveriam aguardar dado que era o fim do que não principiara. Saturno sustinha o desprezo que agora lhe inspiravam os companheiros do repasto. Terra perdera-se nas considerações que tecia por dentro das meninges, constatando que ficara muito por dizer, embora não fosse importante já que dentro de minutos tudo como dantes; Vénus percorria com a língua o interior da boca, recriminando-se por todo o puré que ingerira ao longo dos anos, enquanto Mercúrio lhe fixava o pescoço num ardor sem precedente. A buzina do táxi arrancou-o à pele daquela mulher.

- ADEUS.

Despediram-se em amplexos demorados nos quais aferiram a real nudez.

(Corpos que vibram não se podem ocultar.)

Vénus mirou-se na superfície da colher de sobremesa lambida, certificando-se que nenhum puré persistira nos dentes e correu atrás de Mercúrio impondo-se no mesmo táxi.

Era uma viatura exígua e dois o número certo de pessoas que comportava.

(Quatro se dois pares, lado-a-lado, se emparelhassem como Vénus que se sentou em Mercúrio antes mesmo de lhe explicar que necessitava de uma boleia para nenhures.)

Deu-lhe para rezar. Encarou o tejadilho da viatura enquanto ela lhe desapertava as calças e entrelaçava o pescoço no dele. Os abdómenes confrontavam-se ríspidos. Não ousava descolar as mãos do assento, apesar das mamas adivinhadas do tamanho exacto das palmas da sua premência. Era marcado a cheiros, saliva e possessão.

No retrovisor não havia rosto para o motorista e os ombros desprovidos de olhos não os incomodavam, apesar de pejados de ouvidos.

Foi por tempo indeterminado que Vénus comandou e Mercúrio foi subjugado. Demonstrado ficou que um desmedido silêncio pode não significar quietude, antes o momento que antecede inexorável predação.

O pavor da nudez ficara-lhe no restaurante, no braço flectido de Terra que lho segurara com ternura, como ao casaco de uma criança. Como se fossem, até, amigas.
Proferiu enfim, assertiva:

- Convida-me para ir contigo ao cinema.
- Vem comigo ao cinema. A película desenrola-se por mais de quatro horas. Aguentarás tanto tempo a meu lado?
- Não gosto dessa palavra.
- Qual?
- Aguentar.
- Olha para mim. O que vês? Não vislumbras quão patético sou?

Vénus percorre-lhe os lábios com a língua, de seguida os dentes, o céu da boca. Envolve-lhe a língua com a sua. Certifica-se que também nele puré nenhum.

Narizes encostados. Quatro eram dois olhos imensos de coruja.

«SOU COMO TU.»

Andreia Azevedo Moreira (13/11/2010 pelas 14h45 – 24/11/2010 pelas 07h30)


Títulos alternativos (Vocês decidem):

1) "Puré de batata com apontamento de casca de laranja braseada"

2) "Cascas de batata fritas com maionaise a acompanhar a 4,5€ são um absurdo."


3)"Atenção que o puré de batata congelado do Pingo Doce é muito bom e parece mesmo caseiro."




P.S. Ei-lo Tânia. Espero que (também) gostes. ;)

P.S. 2 Peço perdão pelas ideias repetidas à exaustão. Falta revisão mais apurada, porém, tive receio que o tempo se me esgotasse sem conseguir publicá-lo e vá-se lá saber porquê determinei que era importante fazê-lo antes que me rebentassem a bolha.

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