sexta-feira, 1 de junho de 2012

 

DANÇA(S) DA SOLIDÃO

Crer é querer. Ver o que se consegue, não o que é. A emancipação do(s) vício(s) amarga. Sonhava? Mentira(s). Ao pequeno-almoço, ao jantar, aquele copo de leite antes do sono. Tinha sede, desconhecendo de quê. Sou sede, ainda. A mão firme, ao centro. Banhei-me na ilusão e dessa não escapei lavada. A alma pesada. Bacia e cadência. O coração lento, descompassado e aldrabão. Sensação de ócio, agora. O que fiz com tanto tempo? Que olhos são estes que me mentem? Ouvidos que me entregam discursos deturpados. Mente que não me engana. Diz-me ao que vem. Eu? Ignara e crédula. Saboreio o doce da(s) inverdade(s), da loucura. Luto com as superfícies. Cegueira boa e perniciosa, tudo junto. Dança(s) da solidão. (Aos 18 já o sabia.) Se é tarde? Nunca o é, quando se trata de Liberdade.



(Saberei sê-lo?)

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

 

WE NEED TO TALK ABOUT KEVIN


Há pessoas que nascem anjo(s), outras demónio(s). A maioria nasce apenas pessoa, com um pouco de ambos. Nem todos os "Kevin" matam, contudo, dominam melhor que outrem a arte de massacrar. Agressões há que não deixam vestígio(s) de sangue e se revelam, todavia, indeléveis. É duríssimo Amar (incondicionalmente) um Kevin. Desisti há muito. Nos sonhos creio. Nas preces que são minhas guardo o lugar dele, almejando-lhe o melhor. Longe. (Muito longe de mim.)

«Soubeste amá-lo Fernanda?»

«Conseguiste amá-lo Francisco?»

«Não aprendi a fazê-lo. Tentei muito. Tudo. Parei chegada ao meu próprio abismo.»

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segunda-feira, 30 de abril de 2012

 

...


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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

 

Do(s) erro(s)

Não falaria melhor sobre mim.

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

 

REEDIÇÃO

Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferia ter nascido homem. É violenta a vida para todos, isso é certo. Para uma mulher, porém, na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que simples agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece dessas regras que inventaram para nós. Não me sinto a mulherzinha que pretendem que seja.

Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Mas eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:

- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.

Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos:

- Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?

Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o pensamento que me habita não se adequa ao presente? Antes a morte por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue as mutilações. Que é isto que me fazem à alma senão uma amputação? Sei que sofrias. Vi lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei pude prová-las no sal que te temperava a face quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Constantemente a perder o fôlego, porque quanto mais corria menos te alcançava. E no fundo sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, a não ser este imenso amor que sempre nutri por ti e tu sem o aceitar.

Anna Maria

Para o dia de hoje.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

 

CENAS (do lazer) QUE ME TÊM FEITO BEM À MONA*



DO AVISO



DA DOR


DA GARGALHADA


DA ESPERANÇA (e da coragem)


DO ALENTO



*CLIQUEM NAS IMAGENS PARA SABER ONDE AS ENCONTREI.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

 

05/10/1993 - 28/10/2002



Amo-te foquinha. Até já.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

 
- Larga-me a mão papá!
- Não posso. Anda daí.
- Onde?
- Já vais ver.
- É bonito lá onde vamos?
- Há paz.
- Precisamos de paz papá?
- Preciso.
- E mais papá?
- Preciso de ti também.
- Porquê papá? Para jogar à bola?
- Mais ou menos. Não penses que te estou a usar filho. Quero-te bem.
- Usar papá? Como usar um boné, por exemplo?
- Sim. Como usar um boné. Não estou a fazer isso.
- Então o que estás a fazer papá? Porque me apertas com tanta força a mão? Dói um bocadinho sabes? Não queres que fuja, é?
- É. É isso. Não me podes fugir. Não agora.
- Nunca fugiria de ti papá. Gosto tanto de ti. Olha, gosto mais de ti do que de jogar à bola e tu sabes como eu gosto tanto de jogar à bola, pois é?
- Pois.
- Olha, mas larga-me a mão. Eu não fujo. Prometo!
- Não posso filho. Preciso de ti.
- O que é precisar papá?
- É não poder passar sem... Não posso passar sem ti. Entendes? É por isso que te levo para onde vou. Para não estar sem ti.
- Mas eu estou sempre aqui para ti papá. Não vês?
- Sim mas vou para longe e quero levar-te comigo.
- E a mamã?
- A mamã não vai.
- E como é que eu lhe mostro um passe muita fixe que aprendi hoje de manhã lá nas escolinhas?
- Não mostras.
- Não é justo papá. Também lhe quero mostrar. Eu também gosto muito da mamã sabes?
- Sei. Cala-te agora um bocadinho e acelera o passo.
- Tens pressa papá?
- Tenho.
- Porquê?
- Porque é tarde para mim. (Para nós.)
- Tarde? Mas ainda nem almocei!
- Quero que saibas que é porque te amo muito.
- Vou ficar de castigo?
- De certa forma sim.
- Mas eu não fiz nada de mal papá! Alguém te contou uma mentira? Eu não fiz nada de mal! Não me ponhas de castigo.
- Tem de ser.
- Porquê?
- Porque sou egoísta. Quero que a tua mãe sofra. Que sinta o que é estar vazio.
- Queres aleijar a mamã?
- Quero.
- Mas isso não se faz papá. Não se aleijam pessoas de propósito! Tu é que me ensinaste isso lembras-te? Só tenho seis anos, mas isso eu sei.
- Tens razão. Mas agora não te consigo dar ouvidos. Nem te consigo ver. Só sei que é hoje que acabamos.
- Acabamos como num um dois três acabou a história?
- Sim.
- Não posso papá. Desculpa. Amanhã tenho de jogar com o João André de manhã. Prometi-lhe a desforra. Marquei-lhe muitos golos hoje sabes? Ficou tão chateado comigo. E como quero que continuemos amigos, amanhã vou deixá-lo ganhar.
- Amanhã não podes ir à escola filho.
- Papá, não posso é faltar. Amanhã vou à escola sim! Vais ver!
- Confia em mim. Aperta a mão do pai.
- Não quero papá. Estás a assustar-me com essa conversa do um dois três acabou a história. Ainda tenho uma data de jogos para jogar com o João André e tu não queres deixar. Isso deixa-me triste papá.
- Anda. Já decidi. Anda. Confia no pai.
- Ai! - Começa a chorar. Soluça desconsolado com medo do, até então, companheiro de muitas brincadeiras.

(...)

- Porque me levaste para morrer papá? Não estava doente. Se estivesse, nada que umas torradinhas com doce da avó e chá não curassem. Porque me apertaste com tanta força a mão papá?! Porque não me deixaste dar-te uma canelada com toda a minha força e fugir-te? Sentava-me no passeio à espera que alguém me viesse buscar. Talvez a mamã.

- A mãe não! A tua mãe nem pensar. Não te merece.

- Porquê?

- Porque já não nos quer.

- A mamã já não me quer?

- Já não ME quer.

- E a mim?

- Hum?

- E a mim?

- A ti quer e nunca mais te vai ter.

- Ter?

- Sim. És nosso. Meu e dela. Mas agora eu é que sei o que hei-de fazer contigo. Vais ser de ninguém.

- E tudo o que eu queria ainda fazer? Achas que vou ter tempo até à estação dos combóios?

- Não filho. Mas o que são os teus sonhos perto da desilusão que sinto?

- Cantas-me o "Pouca-terra-pouca-terra-pouca-terra. Uuuuuuuuú!"?

- Não tenho tempo.

- Larga-me a mão! Larga-me a mão! Larga-me a mão! Tu não és o meu papá!

- Já não confias em mim?

- Não percebo nada do que estás a dizer papá. Só sei que amanhã quero jogar à bola com o João André. Quero rir, correr, brincar e ser alegre!

A vida daquele menino não podia acabar assim. Colhida por um comboio a 150km/hora.

Todavia, acabou.

Desde que li a parangona que me sinto doente.

As crianças não são coisas!
As crianças não são coisas!
As crianças não são coisas.

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terça-feira, 5 de julho de 2011

 

HIPERGRAFIA

Que é do meu silêncio? Do tempo. Do estar só. Que é de mim? Impõe-se-me esta reedição. (Como é que já sabia, nada sabendo? Ainda.) Falta-me o fôlego, a calma, a vontade. Que é da minha escreleitura? Que fazer se dia a dia afogo essa que também sou. Calo(-me) o grito. Adio. "Morte não te antecipes." Gostaria também de conseguir não ser, como li numa (auto)entrevista da Patrícia Reis, no sofá da LER, uma mulher demasiado cansada. Mas sou. Extenuada para me sentir capaz de pensar, quanto mais criar. Incapaz, todavia, de aliviar este aperto constante na alma que se enche por um lado de um Amor desmedido e se esvazia por outro de Amor não menor, tão-só diferente. Pelo amor primeiro sacrifico(-me) o outro. Imponho-me uma espécie de morte, para que outrem mantenha pelo máximo período de tempo possível aquele olhar puro, tão cheio de esperança e de encanto pelo mundo que lhe é, por ora, todo novo.

Eis o tempo em que tinha tempo:

- Alice, vem deitar-te. - Era a quarta vez que Frederik a chamava e o tom, outrora paciente, fora substituído por um que denotava já alguma irritação com a atitude da mulher.

Alice Farlow vomitava as entranhas. Quatro e meia da madrugada e premia, ainda, freneticamente as teclas do computador, convicta que em seguida se sentiria aliviada.

- Já vou querido. Está quase. Uma palavra mais e termino.
- Uma palavra... - bufou Frederik. Enterrou-se nos lençóis, preparando-se para dormir. Desde que a mulher engravidara pouco mais havia a fazer a seu lado, na cama, do que dormir. Cansara-se da procura frustrada. Sabia que era apenas uma fase e de momento, apesar de subtil, Alice era implacável na recusa.

Alice escrevera a palavra "Vazio" e regressara à cama como era hábito, pouco tempo antes do despertador tocar.

Frederik acusava já a respiração pesada quando ela, antes de se deitar a seu lado, o beijou ternamente colocando-se, em seguida, de barriga para cima, com as mãos sobrepostas em cima do peito.

Sentia-se inquieta afinal. Não lhe fora benigna a escrita, como esperava. Continuava como em todos os restantes momentos da sua vida: aflita.

Não admitia ser doente aos outros. - E nesse grupo "os outros", exterior e independente de si, incluía o marido. – Porém, sabia sê-lo. Contribuíra para o seu autodiagnóstico a formação em medicina, que não a deixava iludir-se. Padecia de hipergrafia. Desconhecia, no entanto, que tudo o que escrevia era desprovido de significado e que, de facto, era totalmente vão o seu esforço, pois ideia alguma era transmitida nessa catarse.

Dessa ignorância alimentava o seu desassossego, crente que o resultado seria nada menos que a frase perfeita. Aquela que, embora não sendo bela, seria, no mínimo, reveladora.

Fitava o escuro, por cima de si e à sua volta, os pensamentos sucedendo-se ininterruptamente:

É isto a vida sem palavras: Escuridão.

Amo Frederik, mas se não lho pudesse dizer... Se não lhe pudesse sussurrar "AMO-TE" enquanto lhe lambo o lóbulo da orelha antes de fodermos, seria como se não o amasse de todo. (Pobres dos mudos.) Foi para isso que deram ao Homem a capacidade de falar. Que os bichos se amem sem proferir palavra? Aceito. Mas é para mim, enquanto fêmea desta espécie, inconcebível fazê-lo.
Frederik olhar-me-ia indignado, com repulsa até, se suspeitasse que quando faço amor com ele, estou simplesmente a foder. Foder. Eis uma palavra com força. Nela se encerra toda a pujança do acto. Se disser "fazer amor" diluo por duas palavras o que, para mim, é uma só, repleta de solidez: foder. Não a considero vulgar, nem tão pouco indecorosa. Simplesmente intensa. Mas talvez Frederik não me possa entender e por isso, por ele, lhe digo, quando digo, "faz amor comigo".
Com as putas, que ele procura amiúde, e das quais julga que desconheço a existência, esperaria tudo menos um: "Faz amor comigo." Comigo só espera isso. Como é doce e ingénuo este meu homem.
Pois se somos animais - E simula escrever com o dedo esquerdo no ar "animais", fechando os olhos com força, como numa prece, para memorizar a palavra que daí a umas horas anotará onde calhar. São essas preocupações que a impedem de dormir a maior parte das noites. Palavras desgarradas que não pode, de forma alguma, esquecer ou deixar de registar, assim que lhe seja possível. Habituou-se à insónia, embora tema estar a prejudicar os seus fetos. - e apenas nos afastamos da irracionalidade porque existem as palavras e com essas criámos uma linguagem nossa. É no momento em que essa espécie de luta, corpo a corpo, se dá, que as palavras e a racionalidade são olvidadas e somos somente duas criaturas movidas pelo instinto. Nesses momentos, só há carne, sangue, violência, dor e prazer. E nisso, todos somos semelhantes. Julga-me melhor que as putas que compra, o meu bom Frederik. Julga-me impoluta e branda. E eu como ele, como elas, naquele momento, apenas um sedento animal. -Desenha "sedento" na barriga. - Sedento. Juntar sedento a animais. Acrescentar a palavra putas e a essas, ingenuidade. Será que me vou esquecer? Não me posso esquecer: animais, sedento, putas, ingenuidade, Frederik, Alice, escuridão, palavras, foder. Talvez fosse melhor levantar-me. Saio daqui sem o acordar, escrevo num instante estas preciosidades e volto. Durmo ainda algumas horas. Duas talvez. Horas. Acrescentar horas! Nada disto é importante, se numa palavra havia dito tudo. Preciso dormir.
Alice contorcia-se de ânsia, o estômago transido pela náusea que a angústia lhe agrilhoara à garganta. Levantar-se-ia mais uma vez nessa noite, com cuidado desmedido para não acordar o companheiro e escreveria, enquanto o suor da urgência pingava sobre a mesa da cozinha, as tiranas palavras.

Estando grávida de gémeos a psicose piorara assustadoramente. Já não se tratava apenas de noites em branco em frente ao computador. Escrevia em todo o lado. No pacote de açúcar, depois de o esvaziar no galão; no interior da sua bata branca de médica, totalmente escrevinhado; o papel higiénico enquanto sentada na sanita, repleto de palavras. Chegara a dar-se o caso de, não tendo quantidade de papel suficiente para escrever e se limpar, ter optado por escrever, desdenhando as consequências de semelhante opção.

Toda a sua roupa tinha bolsos e nesses havia sempre, pelo menos, duas esferográficas. Admitia a falha de tudo o resto, menos do veículo do seu génio. Inconcebível, não apontar os pensamentos brilhantes e profundíssimos que cria ter formulado, aquando da escrita dos vocábulos.

Frederik andava há anos a alertá-la que tudo o que fazia era escrever palavras incoerentes. Que nada daquilo prestava. Que era insano o seu comportamento. Fazia-o de forma quase cruel para que ela o ouvisse. Procurava poupá-la ao sofrimento de o ouvir por outrem. Alguém que não a quisesse tanto quanto ele.

- Canaliza essa energia desregrada para outros fins Alice! Procura outra ocupação que te realize e onde possas ser efectivamente boa. - Agora que ela ia ser mãe estava certo que o faria com rigor e exemplarmente. Seria uma excelente mãe, para os seus filhos, disso não lhe restavam dúvidas. Tentava então mostrar-lhe o que via com nitidez. - Porque não te dedicas ao quarto dos bebés? Ainda não te vi fazer nada em prol da sua vinda. Arranja o quarto, decora-o como quiseres. Compra roupinhas para eles. Sê como as outras mulheres Alice. Sê como as outras! Não compliques. E se quiseres, meu amor, conta-me as tuas ideias e eu escrevo por ti e para ti, aquilo que quiseste dizer todo este tempo e não foste capaz. Nunca passarás de uma escritora deploravelmente medíocre, e é para teu bem que to digo.

Alice* arrogante e agressiva fazia pouco dele, nessas alturas. Em tom jocoso humilhava-o com palavras geladas dizendo-lhe que o que separava o êxito dele, da ausência do dela, era um órgão reprodutor, destinado à queda, ao fracasso.

Não tinha, efectivamente, consciência da sua inépcia para o ofício que acreditava aprimorar de cada vez que empunhava uma caneta ou digitava no computador.

Era deveras doloroso para o marido perceber que a mulher não acreditava em si, julgando-o, injustamente, despeitado.

Desesperado dissera-lhe que desse a ler os seus escritos a terceiros, para que esses, isentos, lhe repetissem o que tentava provar-lhe há anos.

- Só quando os passar a limpo. - Retorquia. - Não tenho tido tempo.
- Hipergrafia, Alice. Já o estudaste, sabes o que é. Hipergrafia. Acorda! Cura-te Lili. Por favor ouve-me.

Alice sabia o que era, porém ignorava que da doença nada se produzia a não ser a perene dor.

- Estou no limite. Ouves? No limite, porra! - Gritava-lhe quando o desânimo era superior ao amor. - Como é que pretendes criar o Eddward e o Kurt, dizes-me?

Ela parava e olhava o ventre desmesuradamente proeminente, acusando o término da gestação.

Haverá momentos só meus. Como hoje. Assim continuará a ser. Não serás tu a privar-me desses, não serão os gémeos também.

Frederik atormentava-se com o futuro que adivinhava tortuoso dada a crescente irascibilidade da mulher. Era penoso dizer-lhe que ela enquanto escritora não prestava, era como se lho dissessem acerca de si e da sua obra. Mas era preciso que se apercebesse da sua loucura e para que a vida pudesse ter um rumo autêntico. Alice era infantil a exprimir-se, dava erros ortográficos e gramaticais gravíssimos e inadmissíveis para as aspirações que alimentava. Escrevia febril e ele chorava sozinho e desconsolado o seu infortúnio. Esgotara os argumentos dissuasores.

Nessa manhã viu-a despir-se para tomar banho. Escondera-lhe os lápis de cera com que era hábito escrever nos azulejos. Esperava ouvir-lhe os gritos exasperados, as reclamações repletas de raiva, os impropérios. Nada.

Durante vinte minutos o silêncio fora ensurdecedor. Não fosse a água, continuar a cair irregularmente, interrompida pelo corpo de Alice e respectivos movimentos e Frederik julgar-se-ia só em casa.

Sentou-se sobre o tampo fechado da sanita verde, encarando o cortinado opaco com os olhos mortiços. Não ousou chamá-la, limitando-se a aguardar. Pela primeira vez tinha agido de maneira concreta para a impedir do delírio. Iniciara nesse dia a oposição derradeira. Não mais seria benevolente ou permissivo. Era porque a amava que agia assim.

Alice abre a cortina e como invariável e instintivamente o marido observa-lhe os seios antes de lhe perceber qualquer outra parte do corpo.

Horrorizado constata-a raiada de sangue. Alice havia utilizado a lâmina da gillette com que se depilava para escrever na barriga.

(HELP)

Não desisti. Ando a aprender a conciliar. Conciliarei assim que conseguir. No dia em que conciliar a coisa como deve ser voltarei a considerar-me uma mulher inteira capaz das melhores conciliações. De momento estou coxinha. Pois.

*Tinha aqui uma vírgula horrorosa e ninguém me previne caraças?!

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sexta-feira, 20 de maio de 2011

 
Uma pessoa (uma mulher) por um filho adia qualquer coisa. A cabeça continua a funcionar, tem ideias, arrisca umas "curtas". Há permanente angústia por não conseguir concretizar a maior parte do que se lhe assoma ao pensamento. Sabe, todavia, que para escrever Literatura o empenho tem de ser total. Ainda há muito que aprender. Tudo, talvez. Pede ao Universo que a sua hora tarde, para conseguir, um dia, ter a disponibilidade de que o seu Amor necessita. Adiar não é desistir. É tão-só a latência que se lhe impõe por existir alguém, muito maior do que ela ou os seus desejos, que precisa que esteja a seu lado. Uma pessoa (uma mulher) não fica triste se isto acontece, porque aprende com as entranhas a renunciar ao egoísmo. Mas, não esquece. A sua exigência de escrita manifestar-se-á sempre, ainda que de forma subtil e habitar-lhe-á o peito até ao dia derradeiro.

A. a 13 de Maio de 2011 às 13:00

Choro muitas vezes por esta pessoa (uma mulher). Apiedo-me dela desconhecendo se a(s) sua(s) impossibilidade(s) se trata de injustiça, ou natureza, da sua condição. Ignoro se desistiu deveras e a criação é o álibi perfeito para a desistência. Se aguarda paciente a sua oportunidade de usar o tempo a seu bel-prazer. A decisão foi tomada. Não há retrocesso. Desejo que não tenha decidido privar-se do seu modo de ser e que o Universo lhe ouça a prece: "Morte não te antecipes." Choro muitas vezes por esta pessoa (A quem não reconheço como vítima).

Uma mulher.

CONTINUA.

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

 

Como é que uma pessoa sabe(?):

a) Que não vê a coisa porque não quer.
b) Que não vê a coisa porque não pode.
c) Que não vê a coisa porque essa não existe.
d) Que a coisa não existe mas está a querer vê-la.
e) Nenhuma das anteriores ou de como uma pessoa nunca sabe. (Nada.) (De nada.)

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

 

Só eu sei da minha dor.


Só eu sei o que daria para se afigurar tão simples O abraço.

Vocês que nada sabem e muito falam não me atingem. As vossas sentenças não me condenam.

A maior perda, a condenação suprema, é essa ausência que sei ser irremediável e me come parte do peito.

Passo bem sem todos vocês. (Os dos indicadores em riste.)

Jamais perderei o tempo precioso da vida que me resta tentando explicar-vos.

Onde andaram que vos não vi nos tempos de (maior) desespero?

Aparecem agora quais cavaleiros andantes. Juntam-se nas duras palavras quando, repito, desconhecem (todos) os factos. Não passam de júri comprado a lágrimas de crocodilo.

HIPÓCRITA(S).

http://www.youtube.com/watch?v=1sgd6NuBq8w&feature=player_embedded#!

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sábado, 16 de outubro de 2010

 

ANIVERSÁRIO(S)

Vagueio na memória pela casa que na infância foi amiúde minha. A quietude e o silêncio actuais agridem-me porque os sinto definitivos.

A penumbra com que se buscava tão-só o fresco, nos dias mais quentes, é hoje a afirmação do que não torna. Do que (se) foi (para sempre).

Abate-se sobre mim inexorável a saudade desses instantes. Tolhe-me o ânimo essa carência da(s) certeza(s) de vocês em mim. E de quem sou (era) aí convosco. Em cada Verão, feita vossa, dia-a-dia e outra vez.

Ao cheiro da árvore do vosso jardim, inebriante nas noites abafadas e que nos chegava às narinas enquanto apreciávamos a brisa nocturna no alpendre, recordo-o enternecida numa semelhante, aquando do regresso diário da estação. Cortaram-na há muitos anos porque era enjoativo. Que falta sinto dessas noites com esse cheiro adocicado. Da árvore e de vocês todos nos respectivos lugares. Não nos deviam mover dos sítios para que fomos feitos. Fomos feitos uns para os outros. Apesar das falhas. Graças às virtudes. Tínhamos (temos) todos um lugar na vida de cada um dos restantes.

(O quanto uma essência nos faz viajar...)

Às escadas em que nos sentávamos rindo, sem nada aguardar, talvez não torne. Porque hoje se lá me sentasse, esperaria por vós, incansável, dorida, saudosa do tanto que são cá dentro e já não podem ser lá fora.

A todos quantos crescemos nesses metros quadrados dói essa casa tão vazia. O silêncio e a quietude a espancar-nos e nós a fingirmos que não magoa tanta pancada, tamanho vácuo. Essas perdas imensas.

Há que continuar.

A vida empurra-nos.

Não cessamos, todavia, de espreitar para trás. Sabemos que não se apagam (jamais) as pessoas nossas. Ainda que o presente se reduza a um olhar remoto, uma vaga centelha da desmedida força de outrora e a uma ausência irremediável. Ainda assim.

Mutamo-nos, adaptamo-nos, existimos. Não destruiremos, contudo, as fundações. Sólidas? Periclitantes? Pouco importa. Alicerces. História. Memória. Amor.

Vagueio na obscuridade, no silêncio e na quietude definitivos do que não volta a ser e, se atenta, ouço ainda gargalhadas, ralhetes, gritos, manias, conversas, mágoas, perdões. Ouço-nos reunidos. Instantâneos do tempo. Vejo-nos. Foi ontem. (Não foi?) Não vos parece que foi tudo há um dia?

Talvez tenham decorrido somente 24 horas.

Intuo-o na gata listada, macia, perseverante no quotidiano do dia anterior ao de hoje. Já sem gente, sem risos, nem choros. Apenas a casa. Desabitada. E ela enchendo teimosa as escadas do alpendre, o corredor empedrado que dá para a garagem, deitando-se pelo relvado lá atrás.

Impassível colmatando-nos o abismo, não nos consentindo esquecer(-vos).


Um abraço à minha família.

CA, PA, MA e um especial pelo dia de hoje para ti JFAZ.

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terça-feira, 17 de agosto de 2010

 

Saudades tuas. (Muitas.) A vida é já.

My Way from blackholeorguk on Vimeo.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

 

A minha oração de 7º dia para ti.


Não conheci o meu avô Fernando Rafael Azevedo. Um homem de coração grande. (Ouvi.)

Tão pouco vivi no tempo do avô brincalhão Francisco Moreira. (Herdei de ti a traquinice?)

Contigo António da Silva Tinoco tive o privilégio de conviver e devo dizer-te que te encarava com o respeito e o carinho que teria devotado a qualquer um dos avôs que não pude conhecer. Uma vida (aparentemente) simples pode ser grandiosa. (A tua foi.)

Ficam os filhos, os netos, bisnetos, ainda, os amigos. Testemunhos de uma passagem pela vida (muito rica e) admirável.

Até já avô Tinoco. Foi muito bom conhecer-te.

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domingo, 22 de novembro de 2009

 


http://www.youtube.com/watch?v=fn7F75stXxI

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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

 

Não. Não nos esquecemos. (Não é possível.)

Parabéns onde quer que te encontres.

O tempo parou para ti?

Para nós não.

Que fazer do dia de hoje?

Continuamos por cá e ainda nos lembramos que era hoje que fazias anos.

E lembraremos sempre. É isso não é?

Um abraço apertado.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

 

"MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO"

Em Agosto fazem anos pessoas muito importantes. Este Agosto foi difícil. Triste. Devastador. Mas as pessoas que muito amo e que fizeram anos neste mês soalheiro (cá está, já emprego a palavra que devo) têm direito à sua posta de aniversário como é apanágio deste estaminé. Cá vai então:

A 4 - Mãe querida, mãe querida! (A inspiração musical está duvidosa. Ai está, está.) 61. És a pessoa mais importante da minha vida. (Enquanto faço um círculo imaginário com os braços esticados e olho em direcção ao horizonte.)

A 5 - Sabes que começou no A, A, A, A... (E eu a dar-lhe...) Priminho Afonso. És lindo, alegre e inspirador. Um beijinho para ti.

A 10 - Somos nozes S.; Ou somos a gente. Ou ainda: isto é os primos. eh eh. I'll go wherever you will go.

A 16 - You're beautifull, you're beautifull, you're beautifull, It's true. Mana morenaça. Sem palavras. Só aquele abraço. Aquele estar aqui. Aquele gostar muito de ti.

A 17 - Escuridão. Dor. Despedida.

A 22 - Amiga Maria João. A mais divertida. A mais espirituosa. A mais (salutarmente) louquita do grupo. Beijo grande.

A 25 - O Cantigas prestes a ser pai. (Ficam bonitos vocês dois. Ainda bem que a encontraste.) O Diogo: olha miúdo ainda ontem andei contigo ao colo. Pareço uma velha mas é verdade. És um puto encantador de sorriso iluminado. Um gd beijinho.

A 27 - Sogrinho, olé. Sogrinho, olé. Um pai para mim. Sem qualquer dúvida. Um abraço repleto de ternura e reconhecimento.

A 30 - Que saias incólume da guerra a que estás sujeito pelas mãos da alma escura e fria como a morte, que te calhou como parente em triste sorte. Que consigas, apesar de tudo, ser uma criança FELIZ. Estamos a torcer por ti.

A 31 - Há 7 anos viveu-se um dos dias mais felizes que recordo.

E é isto. Que seria de mim sem todos vocês?

Seria Deia por certo. Mas uma Deia muito menos rica. Ah pois é.

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domingo, 23 de agosto de 2009

 

Oração de 7.º Dia

Ainda não acredito que morreste.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

 

Two times Johnny. Uma pessoa peculiar. Até já.

Uma vida destruída destrói muitas mais em cadeia. A sequência de fatalidade(s) para que alguns nascem talhados, qual destino perfidamente traçado por um verdugo qualquer. Assim nasceram vocês três, já de vida destruída, dilacerados pela dor e pela injustiça. A velhice muito antes do tempo marcada nas vossas belas feições. A derrota já, muito antes das batalhas. As mazelas na alma, muito antes das alegrias ou compensações que qualquer vida traz.

"Sangue sábio", como o título de um livro que ainda hei-de ler. O sangue que carrega as histórias do passado a existências que se esperavam novas, puras. (Impossível.)

Uma vida destruída fala com o seu sangue às novas vidas, destruindo-as parcialmente, ainda antes que elas tenham noção do que é ser.

Há os que conseguem vencer essa bagagem onerosa, esse desditoso fardo.

Há os incapazes de o fazer, pois nasceram demasiado mutilados na alma por sofrimentos alheios.

Cada vida a sua história, sei-o bem. Há, no entanto, heranças que ainda que as reneguemos com toda a nossa vontade nos assombram.

Quero acreditar em "outras vidas" Tio. Faço votos para que nasças de novo e consigas, nessa outra existência, provar a felicidade e saber ao que sabe a Vida.

Apesar da tua forma crua de agir, nesta vida, foste e és muito amado. (Apesar de tudo, foste amado.)

Espero que alguma coisa em ti to tenha dito (e feito acreditar) antes de partires.

(Lembrar-me-ei para sempre de ti. Fazes parte da minha história. )

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