Estou pela primeira vez nestas andanças dos "blogues"... Resolvi fazer um em homenagem ao meu companheiro de 9 anos, o meu filhote, de quem tenho muitas saudades! Entretanto aproveito e vou pondo cá ideias que me passem pela cabeça! (16Set.2005)
Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferia ter nascido homem. É violenta a vida para todos, isso é certo. Para uma mulher, porém, na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que simples agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece dessas regras que inventaram para nós. Não me sinto a mulherzinha que pretendem que seja.
Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Mas eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:
- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.
Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos:
- Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?
Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o pensamento que me habita não se adequa ao presente? Antes a morte por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue as mutilações. Que é isto que me fazem à alma senão uma amputação? Sei que sofrias. Vi lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei pude prová-las no sal que te temperava a face quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Constantemente a perder o fôlego, porque quanto mais corria menos te alcançava. E no fundo sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, a não ser este imenso amor que sempre nutri por ti e tu sem o aceitar.
# Ideia partilhada por Andreia Azevedo Moreira @ 00:07 0 Outras ideias
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
2 lemas para (continuar a) viver bem em 2011
1) "Mais vale morrer de pé que viver ajoelhado."
2) "As más acções ficam para quem as pratica."
Com a Baba O'Riley dos The Who aos altos berros tocando dentro da mona. Há quem me veja desconhecendo a banda sonora que cá vai dentro e sem essa a visão está incompleta. Fica a dicazinha quanto a 1) e a 2).
Também podia ser ESTA para 1), por exemplo. E ESTA para 2).
# Ideia partilhada por Andreia Azevedo Moreira @ 14:31 0 Outras ideias
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Só eu sei da minha dor.
Só eu sei o que daria para se afigurar tão simples O abraço.
Vocês que nada sabem e muito falam não me atingem. As vossas sentenças não me condenam.
A maior perda, a condenação suprema, é essa ausência que sei ser irremediável e me come parte do peito.
Passo bem sem todos vocês. (Os dos indicadores em riste.)
Jamais perderei o tempo precioso da vida que me resta tentando explicar-vos.
Onde andaram que vos não vi nos tempos de (maior) desespero?
Aparecem agora quais cavaleiros andantes. Juntam-se nas duras palavras quando, repito, desconhecem (todos) os factos. Não passam de júri comprado a lágrimas de crocodilo.
# Ideia partilhada por Andreia Azevedo Moreira @ 14:25 0 Outras ideias
domingo, 31 de maio de 2009
É lá dentro a minha morada.
Não pude entrar. Disseram-me que não podia entrar. Estou aqui fora, sentado incrédulo. Choro. Apoio a cabeça nas mãos de desânimo, não tenho forças para a erguer. Não é de vergonha que me tomba a cabeça, é do cansaço. Dói-me tudo. Disseram-me que não podia entrar e eu não tive forças para lhes explicar que só eu posso estar ali. Só faz sentido que seja eu, a estar lá dentro. Eles parecem não perceber, ou não querer entender e disseram-me que são as regras. As regras também ditaram que não pudéssemos comprar casa. Disseram-nos "não". Aceitámos. Têm-nos dito "não" muitas vezes e eu tenho engolido, em seco, sem perceber a razão de tantas recusas. Disseram-nos que era proibido que amássemos uma criança. Resignámo-nos. Ofenderam-nos. Renegaram-nos. Tentaram varrer-nos. Como se o que os seus olhos não vissem, não existisse de facto. Foi um amor vivido plenamente apenas entre as nossas paredes. Que não são nossas deveras, recordo, porque não nos permitiram que as comprássemos para nós. Amo muito esta pessoa. É uma pessoa bonita, cheia de qualidades e com os seus defeitos também. É uma pessoa que desejo com ardor e com quem o meu corpo se entende sublimemente. É a pessoa que escolhi e me escolheu. Lembro-me da primeira vez que os meus olhos encontraram os seus. Não foi preciso explicar o que quer que fosse, porque nesse momento soube que era ali que iria morar e fui correspondido. Custou-me sempre muito, andar com este que tanto amo e não lho poder demonstrar. Quiseram, não raras vezes, que dissesse que era amizade, este incomensurável amor. Quiseram que fingisse que tudo o que sinto seria menos, do que é na verdade. Quiseram convencer-me que era um amor menor. Disseram-nos que não afrontássemos os outros, com esta forma anormal de ser e eu, procurei incessante e desesperadamente e não encontrei jamais qualquer anomalia. Assimilei que o meu amor agride os outros e por isso coibi-me dele, muitas vezes (demasiadas vezes) não sei se para não os agredir, se para que não nos agredissem. Estou muito cansado que nos agridam. Muito cansado que tentem convencer-me que é feio, o que para mim é belo e perfeito. Tenho perdido muito tempo do meu amor a esconder-me. Agora, ele está ali dentro e não me deixam entrar. E sei que foram infinitamente escassas as festas que lhe dei, as vezes que o apertei num abraço, ou que a minha boca se saciou na sua, porque só o pude fazer em privado. Foram demasiadas as oportunidades de o amar plenamente das quais abdiquei, em prol de uma sociedade carrasca, que mais não tem feito senão querer matar-me este amor. Estou aqui. Não me deixam entrar. Querem fazer-me crer que tudo o que temos vivido não vale. Tentam fazer-me acreditar que é de somenos importância isto que toda a vida sentimos. Gritam-me que o elo que temos não tem validade, porque há, ainda, regras que ditam a sua nulidade. Isto que tenho em mim não pode existir. Dizem. E eu quero gritar-lhes do crime hediondo que cometem, mas estou demasiado cansado porque tenho passado a vida a lutar. Porque me tem sido constantemente negada a vivência deste amor como "os outros" o podem fazer. Tento combater a revolta e tento limpar-me das injustiças que tenho sofrido, mas é-me muito difícil sair incólume desta guerra velada. É-me complicado despir o manto de vergonha com que sempre tentaram cobrir-me. Uma festa. Dar as mãos. Gestos singelos. Negados. Tornei-me furtivo. Exímio na arte de amar sem o toque. Ainda que a saudade me rasgasse o peito, não havia lugar a festa, ao abraço, ao beijo. Há um vazio imenso de não ter podido dar azo ao que sinto livremente, como sempre foi permitido "aos outros". Com verdade. Em plenitude. E este vazio tem-me consumido. Consome-me o desânimo. Como explicar o amor? Porque tenho eu de explicar o meu amor? Têm-me dito, toda a vida, por meias palavras, por olhares reprovadores e jocosos que não é bonito. Não compreendo. É bonito sim. Tenho chorado. Tenho chorado muito. Há muito que desisti de explicar que o que sinto é amor. Amor igual àquele que vislumbro ao olhar para os outros casais. Estudo os trejeitos dos apaixonados na rua. Sei que os meus em nada diferem daqueles. Vejo como se olham, como se agarram, como se querem e não consigo descortinar o que me separa e ao meu amor, desses outros pares. Sei que lhe quero bem, que daria a minha vida pela dele, que tudo faço para o proteger e que toda essa cumplicidade me é devolvida. E no entanto, hoje não me deixam entrar. Toda a vida a ter de me esconder. A justificar o que não tem explicação. O que é por natureza. Sou assim. Amo assim. Não deveria ser necessário penar para me impor. Não deveria explicar o amor porque os sentimentos não se explicam, vivem-se. E eu até estou habituado a isso tudo, tem sido uma vida inteira a mentir-lhes, para que não me chateiem e não me tentem formatar. Mas agora não me deixam entrar e isso é-me inaceitável. É desumano o que me fazem. Não percebo esta sentença impiedosa. Nunca fiz mal a outrem. Está ali dentro toda a minha vida partilhada com outra pessoa. Morre. E dizem-me que vá para casa, que só a família chegada, que eu não. Como? Sou eu, sim. Tenho sido eu a companhia de uma vida inteira. Tenho sido eu o amor, o sexo, também a amizade. Tenho sido as discussões, a ternura, a saúde, as doenças (esta também), as viagens, a cumplicidade, as traições, as mágoas, os desabafos, as flatulências, o desespero, as gargalhadas, os abraços, os beijos, as dificuldades, as vitórias. Tenho sido eu. Sou eu ainda. Ainda que me mandem para casa eu já estou lá dentro. Compreendem? Não. Nunca compreenderam. São 30 anos de incompreensão e intolerância. E ainda que não compreendam é ali dentro que morre parte de mim. Mandam-me para casa. Dizem-me que eu não. E eu já não tenho como lhes explicar que não se explica o (este) amor.
O meu nome é João e ali dentro morre-me toda uma vida. O meu Francisco. Não me deixam entrar. Mas eu nunca de lá saí.
Andreia Azevedo Moreira (Lisboa, 1978) licenciou-se em Engenharia Florestal e não exerce. Não estudou letras mas dedica-se-lhes com paixão. Escreveu os argumentos e os guiões das curtas-metragens «Espelho meu» (2018) e «A Escritora» (2019) em parceria com Hugo Pinto, o realizador e o argumento/guião da curta-metragem «À vida» (48HFP Lisboa) realizado por André Costa. Colabora com o projecto online fotografarpalavras idealizado por Paulo Kellerman. No papel: «Os cães ladram» (Colectânea «O país invisível», C.E. Mário Cláudio, 2016); «Pode um corpo morto» (Colecção Crateras, Nova Mymosa, 2019); «Mar Fechado» (Grotta n.º4, 2019/2020); «As paredes em volta» (Colecção Crateras, Nova Mymosa, 2020); «A vinte e quatro minutos da eternidade» (Ed. Minimalista, Antologia de contos, 2020); «Abel» (Ed. Minimalista, Contos Minimalistas, 2021), Augustine e os maus sentimentos (Nova Mymosa, 2021), Depois do abismo o canto dos pássaros (Nova Mymosa, 2022), Em português escrevo com A (Edição em papel de 06-04-2023, Jornal de Leiria), Pesar o adeus (Nova Mymosa, 2024). Liberdade e gratidão são verbos. Pearl Jam, banda sonora.