segunda-feira, 2 de abril de 2012

 

AQUI VAI TEASER! (ou então não...)

MANIFESTO ANDREIA AZEVEDO MOREIRA PARA O CORO DAS VONTADES (Gravado ontem mas não é mentira.) A 14 DE JULHO NUM TEATRO PERTO DE SI. (Que é como dizer no MARIA MATOS).

É tão mas tão bom perder a vergonha.

Step by step u u baby!

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terça-feira, 5 de julho de 2011

 

HIPERGRAFIA

Que é do meu silêncio? Do tempo. Do estar só. Que é de mim? Impõe-se-me esta reedição. (Como é que já sabia, nada sabendo? Ainda.) Falta-me o fôlego, a calma, a vontade. Que é da minha escreleitura? Que fazer se dia a dia afogo essa que também sou. Calo(-me) o grito. Adio. "Morte não te antecipes." Gostaria também de conseguir não ser, como li numa (auto)entrevista da Patrícia Reis, no sofá da LER, uma mulher demasiado cansada. Mas sou. Extenuada para me sentir capaz de pensar, quanto mais criar. Incapaz, todavia, de aliviar este aperto constante na alma que se enche por um lado de um Amor desmedido e se esvazia por outro de Amor não menor, tão-só diferente. Pelo amor primeiro sacrifico(-me) o outro. Imponho-me uma espécie de morte, para que outrem mantenha pelo máximo período de tempo possível aquele olhar puro, tão cheio de esperança e de encanto pelo mundo que lhe é, por ora, todo novo.

Eis o tempo em que tinha tempo:

- Alice, vem deitar-te. - Era a quarta vez que Frederik a chamava e o tom, outrora paciente, fora substituído por um que denotava já alguma irritação com a atitude da mulher.

Alice Farlow vomitava as entranhas. Quatro e meia da madrugada e premia, ainda, freneticamente as teclas do computador, convicta que em seguida se sentiria aliviada.

- Já vou querido. Está quase. Uma palavra mais e termino.
- Uma palavra... - bufou Frederik. Enterrou-se nos lençóis, preparando-se para dormir. Desde que a mulher engravidara pouco mais havia a fazer a seu lado, na cama, do que dormir. Cansara-se da procura frustrada. Sabia que era apenas uma fase e de momento, apesar de subtil, Alice era implacável na recusa.

Alice escrevera a palavra "Vazio" e regressara à cama como era hábito, pouco tempo antes do despertador tocar.

Frederik acusava já a respiração pesada quando ela, antes de se deitar a seu lado, o beijou ternamente colocando-se, em seguida, de barriga para cima, com as mãos sobrepostas em cima do peito.

Sentia-se inquieta afinal. Não lhe fora benigna a escrita, como esperava. Continuava como em todos os restantes momentos da sua vida: aflita.

Não admitia ser doente aos outros. - E nesse grupo "os outros", exterior e independente de si, incluía o marido. – Porém, sabia sê-lo. Contribuíra para o seu autodiagnóstico a formação em medicina, que não a deixava iludir-se. Padecia de hipergrafia. Desconhecia, no entanto, que tudo o que escrevia era desprovido de significado e que, de facto, era totalmente vão o seu esforço, pois ideia alguma era transmitida nessa catarse.

Dessa ignorância alimentava o seu desassossego, crente que o resultado seria nada menos que a frase perfeita. Aquela que, embora não sendo bela, seria, no mínimo, reveladora.

Fitava o escuro, por cima de si e à sua volta, os pensamentos sucedendo-se ininterruptamente:

É isto a vida sem palavras: Escuridão.

Amo Frederik, mas se não lho pudesse dizer... Se não lhe pudesse sussurrar "AMO-TE" enquanto lhe lambo o lóbulo da orelha antes de fodermos, seria como se não o amasse de todo. (Pobres dos mudos.) Foi para isso que deram ao Homem a capacidade de falar. Que os bichos se amem sem proferir palavra? Aceito. Mas é para mim, enquanto fêmea desta espécie, inconcebível fazê-lo.
Frederik olhar-me-ia indignado, com repulsa até, se suspeitasse que quando faço amor com ele, estou simplesmente a foder. Foder. Eis uma palavra com força. Nela se encerra toda a pujança do acto. Se disser "fazer amor" diluo por duas palavras o que, para mim, é uma só, repleta de solidez: foder. Não a considero vulgar, nem tão pouco indecorosa. Simplesmente intensa. Mas talvez Frederik não me possa entender e por isso, por ele, lhe digo, quando digo, "faz amor comigo".
Com as putas, que ele procura amiúde, e das quais julga que desconheço a existência, esperaria tudo menos um: "Faz amor comigo." Comigo só espera isso. Como é doce e ingénuo este meu homem.
Pois se somos animais - E simula escrever com o dedo esquerdo no ar "animais", fechando os olhos com força, como numa prece, para memorizar a palavra que daí a umas horas anotará onde calhar. São essas preocupações que a impedem de dormir a maior parte das noites. Palavras desgarradas que não pode, de forma alguma, esquecer ou deixar de registar, assim que lhe seja possível. Habituou-se à insónia, embora tema estar a prejudicar os seus fetos. - e apenas nos afastamos da irracionalidade porque existem as palavras e com essas criámos uma linguagem nossa. É no momento em que essa espécie de luta, corpo a corpo, se dá, que as palavras e a racionalidade são olvidadas e somos somente duas criaturas movidas pelo instinto. Nesses momentos, só há carne, sangue, violência, dor e prazer. E nisso, todos somos semelhantes. Julga-me melhor que as putas que compra, o meu bom Frederik. Julga-me impoluta e branda. E eu como ele, como elas, naquele momento, apenas um sedento animal. -Desenha "sedento" na barriga. - Sedento. Juntar sedento a animais. Acrescentar a palavra putas e a essas, ingenuidade. Será que me vou esquecer? Não me posso esquecer: animais, sedento, putas, ingenuidade, Frederik, Alice, escuridão, palavras, foder. Talvez fosse melhor levantar-me. Saio daqui sem o acordar, escrevo num instante estas preciosidades e volto. Durmo ainda algumas horas. Duas talvez. Horas. Acrescentar horas! Nada disto é importante, se numa palavra havia dito tudo. Preciso dormir.
Alice contorcia-se de ânsia, o estômago transido pela náusea que a angústia lhe agrilhoara à garganta. Levantar-se-ia mais uma vez nessa noite, com cuidado desmedido para não acordar o companheiro e escreveria, enquanto o suor da urgência pingava sobre a mesa da cozinha, as tiranas palavras.

Estando grávida de gémeos a psicose piorara assustadoramente. Já não se tratava apenas de noites em branco em frente ao computador. Escrevia em todo o lado. No pacote de açúcar, depois de o esvaziar no galão; no interior da sua bata branca de médica, totalmente escrevinhado; o papel higiénico enquanto sentada na sanita, repleto de palavras. Chegara a dar-se o caso de, não tendo quantidade de papel suficiente para escrever e se limpar, ter optado por escrever, desdenhando as consequências de semelhante opção.

Toda a sua roupa tinha bolsos e nesses havia sempre, pelo menos, duas esferográficas. Admitia a falha de tudo o resto, menos do veículo do seu génio. Inconcebível, não apontar os pensamentos brilhantes e profundíssimos que cria ter formulado, aquando da escrita dos vocábulos.

Frederik andava há anos a alertá-la que tudo o que fazia era escrever palavras incoerentes. Que nada daquilo prestava. Que era insano o seu comportamento. Fazia-o de forma quase cruel para que ela o ouvisse. Procurava poupá-la ao sofrimento de o ouvir por outrem. Alguém que não a quisesse tanto quanto ele.

- Canaliza essa energia desregrada para outros fins Alice! Procura outra ocupação que te realize e onde possas ser efectivamente boa. - Agora que ela ia ser mãe estava certo que o faria com rigor e exemplarmente. Seria uma excelente mãe, para os seus filhos, disso não lhe restavam dúvidas. Tentava então mostrar-lhe o que via com nitidez. - Porque não te dedicas ao quarto dos bebés? Ainda não te vi fazer nada em prol da sua vinda. Arranja o quarto, decora-o como quiseres. Compra roupinhas para eles. Sê como as outras mulheres Alice. Sê como as outras! Não compliques. E se quiseres, meu amor, conta-me as tuas ideias e eu escrevo por ti e para ti, aquilo que quiseste dizer todo este tempo e não foste capaz. Nunca passarás de uma escritora deploravelmente medíocre, e é para teu bem que to digo.

Alice* arrogante e agressiva fazia pouco dele, nessas alturas. Em tom jocoso humilhava-o com palavras geladas dizendo-lhe que o que separava o êxito dele, da ausência do dela, era um órgão reprodutor, destinado à queda, ao fracasso.

Não tinha, efectivamente, consciência da sua inépcia para o ofício que acreditava aprimorar de cada vez que empunhava uma caneta ou digitava no computador.

Era deveras doloroso para o marido perceber que a mulher não acreditava em si, julgando-o, injustamente, despeitado.

Desesperado dissera-lhe que desse a ler os seus escritos a terceiros, para que esses, isentos, lhe repetissem o que tentava provar-lhe há anos.

- Só quando os passar a limpo. - Retorquia. - Não tenho tido tempo.
- Hipergrafia, Alice. Já o estudaste, sabes o que é. Hipergrafia. Acorda! Cura-te Lili. Por favor ouve-me.

Alice sabia o que era, porém ignorava que da doença nada se produzia a não ser a perene dor.

- Estou no limite. Ouves? No limite, porra! - Gritava-lhe quando o desânimo era superior ao amor. - Como é que pretendes criar o Eddward e o Kurt, dizes-me?

Ela parava e olhava o ventre desmesuradamente proeminente, acusando o término da gestação.

Haverá momentos só meus. Como hoje. Assim continuará a ser. Não serás tu a privar-me desses, não serão os gémeos também.

Frederik atormentava-se com o futuro que adivinhava tortuoso dada a crescente irascibilidade da mulher. Era penoso dizer-lhe que ela enquanto escritora não prestava, era como se lho dissessem acerca de si e da sua obra. Mas era preciso que se apercebesse da sua loucura e para que a vida pudesse ter um rumo autêntico. Alice era infantil a exprimir-se, dava erros ortográficos e gramaticais gravíssimos e inadmissíveis para as aspirações que alimentava. Escrevia febril e ele chorava sozinho e desconsolado o seu infortúnio. Esgotara os argumentos dissuasores.

Nessa manhã viu-a despir-se para tomar banho. Escondera-lhe os lápis de cera com que era hábito escrever nos azulejos. Esperava ouvir-lhe os gritos exasperados, as reclamações repletas de raiva, os impropérios. Nada.

Durante vinte minutos o silêncio fora ensurdecedor. Não fosse a água, continuar a cair irregularmente, interrompida pelo corpo de Alice e respectivos movimentos e Frederik julgar-se-ia só em casa.

Sentou-se sobre o tampo fechado da sanita verde, encarando o cortinado opaco com os olhos mortiços. Não ousou chamá-la, limitando-se a aguardar. Pela primeira vez tinha agido de maneira concreta para a impedir do delírio. Iniciara nesse dia a oposição derradeira. Não mais seria benevolente ou permissivo. Era porque a amava que agia assim.

Alice abre a cortina e como invariável e instintivamente o marido observa-lhe os seios antes de lhe perceber qualquer outra parte do corpo.

Horrorizado constata-a raiada de sangue. Alice havia utilizado a lâmina da gillette com que se depilava para escrever na barriga.

(HELP)

Não desisti. Ando a aprender a conciliar. Conciliarei assim que conseguir. No dia em que conciliar a coisa como deve ser voltarei a considerar-me uma mulher inteira capaz das melhores conciliações. De momento estou coxinha. Pois.

*Tinha aqui uma vírgula horrorosa e ninguém me previne caraças?!

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quarta-feira, 25 de maio de 2011

 

CONTINUAÇÃO - Uma pessoa (uma mulher) por um filho...

Apresentava-se ao serviço às 9h31. Havia um mundo real para dactilografar. Carecia de tempo e de espaço para a ficção. A dela. – Imaginada deveras. Mal sucedida. – A dos outros: Ah tão criativa! – Não mais do que o seu modo de lhes contar das frustrações, dos devaneios, do medo. Falava-lhes da(s) sua(s) verdade(s). Acreditassem se lhes aprouvesse. Curioso era que duvidassem do que era de facto aplaudindo-o, desconsiderando o que lhe custara as entranhas a imaginar. Relevava a injustiça, porque o resultado era sempre o desmedido alívio por suprir a urgência de que padecia. Como se o perene cansaço, por ouvir dentro das meninges imperativa voz - Qual matilha de canídeos latindo. - lhe desse trégua. Havia muito que não descansava da dita. Precisava do dinheiro: filhos para criar; necessidades elementares (Noutras latitudes superfluidades.); responsabilidades. A certeza de não poder agredir outrem com as omoplatas sem que o peito lhe escurecesse. Cria na luz para criar. Uns apreciam a treva. Ela almejava escrevê-la sem habitá-la. A angústia andava a alimentar-se-lhe da alegria de outrora. Consolava-se:

- É por agora.

- Terei tempo.

Não tinha. Nunca tinha tempo. Despachava-se tarde dos miúdos, da louça, da roupa, da vida vivida lesta. A matilha a enfurecer-se.
Enrodilhava-se na fadiga como se frio e essa cobertor. Adiava.

«Amanhã…»

E o porvir chegava a hoje e a mesma letargia a afagá-la. Tudo mais importante. Uma birra. Um colo. Gargalhadas bonitas. A louça. A roupa. Os almoços confeccionados de véspera.

«Amanhã.»

O padecimento em crescendo. «Ladram tão alto estes cães.» Ainda que fosse por aquele momento, que pensasse que haveria de ter tempo, as dúvidas:

- E se morro? Que fiz por essa que também sou, tão carente?

- Que interessas, tu? Morre descansada. Fizeste o que te competia.

- E a voz? Estes cães? (Lobos?) Feras que investem garras e presas que me laceram. Comem-me o fígado, os pulmões, o coração.

- Que voz? Que feras? Enlouqueceste de vez?

- Esta que me ensurdece. Porque não se calam os cães? Não enlouqueci. Sou sã. (Ainda.) Pergunto: Acabarei louca?

- Sim. Morrerás doente. Não há cura para o mal que te aflige.

- Há.

- Pouco importa. Olha para o relógio. Estás sem tempo.

- Tê-lo-ia não dormisse.

- Tens de descansar.

- Usasse a noite em meu proveito e talvez o silêncio. A paz. Não posso mais.

- Definharias.
- Há quem consiga. Três, quatro horas de sono. Quanto baste.
- Não sejas ridícula. Vamos, acorda. Está na hora.

Ti ri ri ri ri. Ti ri ri ri ri.

8h37. Azáfama. 9h31 e um cartão de ponto na mão. A morte às prestações registada num aparelhinho fixado à parede.
Aquilo continuou até ao intolerável. A voz: Implacável.

«Onde é que guardaste a caneta?»
«As folhas brancas onde estão?»

(Os tímpanos da alma a romper-se.)

Impunha-se-lhe cessar a representação. Uma criança de cinco anos chamar-lhe-ia “fingidona”, realizasse o tamanho da mentira que alimentava.
Principiou trémula o ofício n.º 50 de 2011. Ousou furtar-se ao costumeiro “Vimos pelo presente ofício”

«Era o dia primeiro do mês em que a decisão fora tomada. Inexorável. Havia tentado preveni-lo do que estava prestes a suceder, contudo, ele fizera-se massa indefectível para que o não enchessem de desesperança. Era irremediável a situação em que se colocara. Falhara o prazo. Falta imperdoável que se lhe colara à epiderme das mãos. Teria de devolver o indevidamente recebido. Tê-lo-ia ajudado estivesse ao seu alcance. Regras eram, todavia, torrentes contra as quais se sentia impotente para nadar, ou sequer manter o fôlego. Creia que há sempre quem se encontre a seu lado e o fim é, não raras vezes, recomeço. (Perdoe o lugar-comum.) Sem mais para lhe transmitir permita-me que o deixe a pensar onde errou, para que possa, em situação hipotética futura, errar melhor.»

Escolheu manter «Com os meus melhores cumprimentos» como se fora possível disfarçar o desvario.

Chamaram-na ao oitavo andar. Ergueram a folha ao nível do seu nariz. Vociferaram. Devolveram a missiva.

Limpou a ira alheia do sobrolho e regressou ao 7.º. Ordenaram-lhe que reescrevesse o documento. Fê-lo com gana que desconhecia encerrar. Impregnou-o de melodia, desproveu-o da(s) banalidade(s). Remeteu-o à revelia da entidade superior. Chegara a casa, nessa tarde, por demais leve. Chegou a considerar-se capaz de correr, tal era a alegria. (O peso que a gravidez lhe acrescentara refreou-lhe o impulso.) Correspondeu ao que esperavam de si, em casa, com ânimo reforçado e os seus notaram que o seu sorriso reverberava. Não lho disseram. Não era hábito partilharem o que se passava dentro de cada um.

Persistiu por tempo indeterminado na desobediência. Durante algum tempo o seu Curriculum vitae permaneceu incólume. Despedimento nenhum. Trabalhadora exemplar. A escrita cresceu-lhe. O trabalho diário permitia-lhe evoluir. A voz tornara-se meiga. (Um cachorro amoroso.) Afagava-lhe a consciência. Ela cumpria-se dia-a-dia. Pensava: «Morrerei pacificada.» Queria acreditar estar mais próxima de escrever Literatura. Não seria lida pelas massas, mas isso não a moía. Tinha um leitor de cada vez que redigia uma participação transformada, com enlevo, em arte. Andava feliz como aquele que tem sede e se depara com o que beber.

Era o dia primeiro em que a decisão fora tomada.

Tinham começado a chegar, em catadupa, as respostas ao empreendimento daquela funcionária pública. Não se tratava de cartas de reclamação, antes palavras de incredulidade e reconhecimento.

Se por um lado se encontravam devastados pela culpa que lhes fora imputada e que, claramente, os prejudicava. Por outro, a forma como lhes havia sido comunicado desprovia a(s) respectiva(s) sentença(s) de crueldade. Revelavam-se ineptos para contestar o que era, no mínimo, estranho. Vinham, por conseguinte, felicitar os serviços pela façanha e solicitar que, em situações de incumprimentos futuros, fossem notificados por aquela mulher que se recusava a ser tratada por qualquer título.

De nada lhe serviram os louvores. Tão pouco o facto de ter já inúmeros leitores entusiásticos. Foi despedida.

Precisava de dinheiro. Filhos para alimentar; necessidades primárias – Noutras latitudes: luxos). Comprometimento(s).

A crise instalara-se no País - Era o que afirmavam os meios de comunicação. - uns anos antes daquele em que redigira o ofício cinquenta. Foi parar à rua. Estendia suplicante a mão, todos os dias úteis das 9h31 às 17h32. (Jamais ficara a dever horas à casa.)

A sua mendicidade soava a poesia.

Andreia Azevedo Moreira
(14/05/2011 pelas 23 e qualquer coisa a 15/05/2011 às 01h16)

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

 

Eis a última lição que te deu:

"Não procures o(s) atalho(s), nem (me) peças direcções."

"Convém, até, que te percas."

E tu tudo bem que não tens pressa de chegar a casa da avozinha e há flores muito e muito lindas, pelo caminho, para admirar.

Grata por me abrir os olhos.

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

 

Carapaqueclé filho foi às 22h05 com uma caneta do Amazónia na mão.

Aí vai alho.

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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

 

Exercícios na TRAMA (15/12/2009)


MOTE: Temos um quadro à nossa frente. Nesse, um homem vestido com um traje típico olha para trás encarando-nos. Está a olhar porque o chamámos. Encetar um diálogo com essa figura.

Aí vai/foi alho:

- Hey. Não vás! Pelo menos não já. Tenho perguntas, ainda.

Carapaqueclé estaca e vira-se, de expressão benévola no rosto, embora sem denotar qualquer intenção de me dizer mais do que já disse. Fica parado, simplesmente, com aquele olhar doce só dele, a boca uma meia-lua optimista, as feições belíssimas, denotando elevação, dignidade. Retira o chapéu sagrado da cabeça e segurando-o com as duas mãos olha para o chão como quem me autoriza a prosseguir. Assim o faço.

- Não vi tudo. Sabes? Mostraste-me a paisagem, é certo. O horizonte longínquo, da roupa que me servirá. Deste-me uma ideia. Aceito-a. Mas não vislumbro a estrada. A vegetação é tão cerrada. Achas que consigo?

Continua sem proferir palavra. O seu olhar diz-me o que preciso, mas os meus ouvidos clamam, narcisistas, um qualquer som que os conforte.

Encontramo-nos numa densa floresta. É escura, embora não assustadora. Digamos que é de tal maneira densa que dará trabalho sair desta.

Carapaqueclé ensinou-me o essencial e nada mais.

Ele acredita que cada um tem de sair daqui pelos seus próprios meios. Sei que é sábio, este meu amigo. Fui seu discípulo atento e sorvi avidamente o que me quis transmitir.

Porém, por vezes, a preguiça, um bicho que aqui na selva gostamos de apelidar “vagarinho” encarna em mim, cruzo os braços e sento-me prostrado e mandrião.

Carapaqueclé não tolera esse tipo de comportamento. Por isso, olha-me apenas e nada diz.

Está à espera que a birra me passe, e que me faça finalmente ao caminho.

Andreia Azevedo Moreira
21h e qualquer coisa.

Se me dão licença, vou fazer-me ao caminho, que já se faz tarde. Obrigada, Carapaqueclé.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

 

Exercícios na TRAMA (23/11/2009)

Ora cá estamos perante outro exercício de um tipo já aqui falado onde se recorre a um livro da estante (desta feita, novamente da livraria) para pescar palavras que ajudem à progressão da história e ao enriquecimento do vocabulário utilizado no texto.

Condicionante: Iniciar o texto com "Lisboa, 23 de Novembro de 1950".

Tempo: 20 minutos

Palavras: as que estão salientes no texto.

Livro: Vidas Violentas - Pier Paolo Pasolini

Diz que o objectivo dos 3 textos (Lisboa, 17 de Novembro de 2009 - dia seguinte ao da aula; 17/11/2050 e Lisboa, 23 de Novembro de 1959) era também o de nos fazer viajar no tempo. Óbvio que, penso que (Ó Luís Franco Bastos dá aqui uma perninha e faz a voz do Cristiano se fazes o favor...) falhei esse objectivo.

Aí vai (foi) alho:

Lisboa, 23 de Novembro de 1950

Querida mãe, não me levarás a peito se te disser que preferia ter nascido homem. É violenta a vida para todos, isso é certo. Para uma mulher, porém, na sociedade deste ano em que te escrevo – O da tua morte. – mais do que simples agressão, é devastadoramente opressora. O meu ânimo não se compadece dessas regras que inventaram para nós. Não me sinto a mulherzinha que pretendem que seja.

Repara como a raiva se anda a alimentar do meu peito. No outro dia a torneira gotejava. Comecei por ignorar. Mas eis que aquele contínuo pingar, aquele murmúrio repetitivo me fez pensar no que os outros esperam de mim:

- Comporta-te. – Dizia-me a água.
- És uma senhora. – Sussurrava o ruído.

Lembrei-me de ti quando me dizias com os olhos:

- Que desilusão minha filha. Para onde te foi a doçura?

Foi demais. Dei cinco murros na parede e um pontapé na torneira. Calou-se, sabes? Pumba. Bastou querer. Que culpa tenho se o pensamento que me habita não se adequa ao presente? Antes a morte por me alistar num exército. A guerra com os combates, o sangue as mutilações. Que é isto que me fazem à alma senão uma amputação? Sei que sofrias. Vi lágrimas que derramaste por eu ser diferente. Às que não observei pude prová-las no sal que te temperava a face quando te beijava. Perdoa-me se me não posso desculpar pela minha natureza. Toda a vida me apressei subindo as escadas que me elevariam ao teu coração. Constantemente a perder o fôlego, porque quanto mais corria menos te alcançava. E no fundo sempre soube que, mesmo que lá chegasse um dia, não teria o que te oferecer, a não ser este imenso amor que sempre nutri por ti e tu sem o aceitar.

Anna Maria


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

 

Exercícios na TRAMA (16/11/2009)

Aquela mulher andava obcecada por aquele homem específico. Conhecera-o numa festa e tudo o que haviam dito se resumira a um “Prazer.” Desinteressado da parte dele; e um “Tem lume?” esperançoso, dir-se-ia quase gemido, por ela. Nada a podia ter induzido em erro e no entanto, meses depois, quando se encontraram na rua, o coração acusou o desconcerto que ele lhe provocava. Ele tão pouco recordava o seu nome. Percebera-o pela hesitação em apresentá-la ao amigo que o acompanhava. Ainda assim mentia-se, alimentando o desnorte que aquele sujeito lhe induzia. Tinha-o esquecido durante os meses em que não o vira. Este reencontro, porém, viera inundá-la com todos os sentimentos e dúvidas que haviam despontado “aquando da primeira troca de olhares”. (Que é como quem diz “quando ela o viu”. Ele, como sabemos, ignorara-a.) Era torrencial a sua loucura. Fantasiava-lhe os dias; um quotidiano comum. Penava pela separação que o destino impiedoso lhes teria imposto.

- Não me procura por medo. – Dizia para si, consolando-se. - Pois se também eu temo a devastação que uma paixão assim causará...

Encetou minucioso estudo da vida daquela pessoa que lhe tomara conta dos dias.

Descobriu onde trabalhava, indo espreitá-lo diariamente. Apreendeu-lhe os gostos, os hábitos, mesmo as manias.

Conheceu todos os seus amigos; as antigas namoradas; os seus pais; até a filha.

Vivia o mais que podia a vida dele, cautelosamente, no entanto, para que não se amedrontasse com a sua presença, de efeito, no mínimo, arrebatador.

Far-lhe-ia chegar os mais subtis sinais para que soubesse que seria seguro avançar. Poderiam, enfim, consumar aquele desvairado sentimento.

Notem, ele sequer lhe sorrira. No primeiro encontro acendera-lhe o cigarro sem a encarar e continuara na ombreira daquela porta, com o cotovelo apoiado acima da cabeça, sussurrando a uma outra qualquer.

Perdoara-lhe a indelicadeza.

- Já nesse dia tinha medo. – Insistia infantil. E persistiu muitos anos no delírio, até ao dia em que, coincidentemente, os mesmos amigos os haveriam de juntar.

Quando o viu sentado no sofá as pernas acusaram o pavor do confronto, então inadiável.

Dirigiu-se na sua direcção, trémula, embora determinada.

Antes que o alcançasse, Marília, uma amizade comum pega-lhe no braço e precipita-a para junto dele, que a encara com os seus olhos de um azul indescritível.

- Joana, lembras-te da Rita?

Andreia Azevedo Moreira a 16/11/2009 pelas 21h e qualquer coisa em 10/15 minutos.

E a este exercício se chama “TIRAR O TAPETE”. ‘Comé? Tirei?

(Adenda: pareceu-me bem
esta música como banda sonora do devaneio da moça coitadinha.)

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

 

Outro TPC (já depois de corrigido pela stôra)

Enunciado: Começar um texto com 17 de Novembro de 2050. Socorram-se de um livro da vossa estante para, mais uma vez encontrarem palavras que não só vos enriqueçam o texto, como vos ajudem a progredir na história.

17/11/2050

Hoje é o dia em que eles se comprometeram voltar. Sei porque mo gravaram a canivete no fuste. Lembro-me como se tivesse acontecido na hora que precedeu esta, porém, cinquenta anos decorreram desde o 17/11/2000, em que os quatro, à data com quinze anos, fizeram o pacto das suas vidas, tendo por única testemunha esta secular árvore que sou. Que importa que vos diga se sou um carvalho negral, ou uma azinheira? O que é efectivamente relevante é que hoje com sessenta e cinco anos, virão diante de mim reiterar o compromisso. Tenho visto tanto nesta vida que estou crente que não aparecerá vivalma, devem ter-se amedrontado. Ainda assim, encontro-me impaciente.

A manhã erguera-se soalheira e adivinhava-se quente, apesar do Outono rigoroso que se vivia nesse ano. A brisa matutina agitava-me as folhas e esse restolhar familiar embalava-me os pensamentos de árvore. A seiva corria-me, então, plena de fulgor. Calculo que teria cerca de sessenta anos. Presentemente a memória já me falha de vez em quando, porém, este dia jamais olvidarei. Um imbróglio é o que vos digo. Bingley, Darcy, Georgiana e Elisabeth vinham a correr, descontraídos. Pregavam partidas uns aos outros, em que ora caía Bingley, ora tombava Darcy, ora se precipitavam todos, rebolando numa amálgama de alegres corpos juvenis, pela vegetação humedecida do orvalho. Soltavam sonoras gargalhadas. Eis que Elisabeth se levanta repentinamente, muito grave. Ajeita a saia, sacudindo-lhe as folhas secas, fecha um botão da camisa que entretanto se desabotoara e diz peremptória: “Estamos a esquecer-nos do mais importante, com estas brincadeiras. Da razão pela qual fugimos para aqui.” Os outros, no chão, desconcertados com a mudança súbita no seu comportamento, sentaram-se fitando-a. “O que aconteceu no presbitério não pode ser apagado. Temos de fazer alguma coisa e ninguém além de nós, que o presenciámos, poderá intervir. De acordo?” As feições dos três amigos transfiguraram-se. O à vontade deu lugar à consternação. Era premente que tomassem uma atitude, mas sentiam-se esmagados pela própria insignificância. Como é que quatro miúdos conseguiriam defrontar o poder instituído na vila?

O terror invadira-os. As consequências de qualquer resolução seriam devastadoras. Fosse possível, prefeririam esquecer o remorso, nada fazer e prosseguir com as suas vidas de crianças. Sentimentos não são, no entanto, transacções pecuniárias e por isso em certos casos, como este, não era negociável o que havia a fazer. Decidiram, à minha frente, realizar o pacto, e haveriam de gravar em mim, de forma indelével, a data em que se reuniriam para celebrar o valente acto.

Caso não aparecessem, no dia estipulado, significaria o fracasso dos seus intentos. Teriam sido cobardes e como tal, por vergonha, não voltariam a ver-se. Seria o preço a pagar pela desonra. Uma decisão dolorosa para todos, mas especialmente pungente para dois deles. Apesar da tenra idade Darcy e Georgiana já se amavam com a urgência dos adultos e mortificava-os conceberem a separação. Mais um motivo, talvez o mais importante para aqueles dois, para se vestirem de perseverança e enfrentarem o perigo.

Elisabeth, dotada de uma imensa eloquência, principiou o acto solene. - Antes, pedira o canivete a Bingley, sempre munido deste. Gostava de apanhar fruta das árvores com as quais se cruzava. Era assim que comia as maçãs e os figos: “ainda imaculados”, como dizia poeticamente, embora no tom jocoso que o caracterizava, enquanto fazia pirraça aos amigos pelo deleite com que os ingeria. - “Vamos denunciar à polícia, aquele do qual nunca repetiremos o nome, de tão infame. Iremos testemunhar o que vimos, exigir que nos ouçam e que se faça justiça. Prometemos aqui, uns aos outros, que no caso de sermos ignorados, tomaremos a razão a pulso e engendraremos um plano para castigar esse vil homem. Que a cicatriz que agora inscrevemos nas palmas das nossas mãos esquerdas, as do lado do coração, jamais nos deixem esquecer a missão da qual fomos incumbidos, pelo Destino, no momento em que testemunhámos o crime perverso.

Abriu fundos lenhos em cada um dos três companheiros e de seguida fê-lo, com uma frieza notável, em si própria. Uniram os quatro golpes, sucessivamente, misturando o sangue entre todos e dirigiram-se-me para completar o processo.

Nunca mais os vi. Desde então, nada de tão insólito se repetiu. Apenas o banal, os enamorados que me gravam corações com nomes dentro e fazem juras, enquanto se amam à minha sombra.

Tinha esperança que hoje, aqueles quatro viessem e me provassem que existe uma grandeza invencível no coração das crianças e que essas podem ter voz, mesmo neste mundo feito de arbitrariedades. Anoitece já. Temo que não cumpram o firmado com sangue. Entristeço-me...

- Hey Elisabeth. Espera um pouco por favor. Estamos velhos. Que fazes a correr dessa maneira? O Bingley já tropeçou e perdeu o aparelho do ouvido. Espera! Ainda faltam horas para o fim do dia e as árvores não saem do sítio, sabes?

Andreia Moreira
21/11/2009

LIVRO ESCOLHIDO: “Orgulho e preconceito.” De Jane Austin. Apesar de não o ter lido, sei que se passa num meio rural, o que me levou a escolhê-lo na prateleira já que tinha como ideia de partida a de uma data gravada num tronco de uma árvore.

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

 

TPC para mim e para os que, entre vocês, tiverem paciência para ler. (Agradecida)

DECLARAÇÕES:

1) Fiz batota. Demorei muito mais do que 25 minutos. E revi. Apaguei. Corrigi. And so on.

2) Não fiquei satisfeita com isto.

- Alice, vem deitar-te. - Era a quarta vez que Frederik a chamava e o tom, outrora paciente, fora substituído por um que denotava já alguma irritação com a atitude da mulher.

Alice Farlow vomitava as entranhas. Quatro e meia da madrugada e premia, ainda, freneticamente as teclas do computador, convicta que em seguida se sentiria aliviada.

- Já vou querido. Está quase. Uma palavra mais e termino.
- Uma palavra... - bufou Frederik. Enterrou-se nos lençóis, preparando-se para dormir. Desde que a mulher engravidara pouco mais havia a fazer a seu lado, na cama, do que dormir. Cansara-se da procura frustrada. Sabia que era apenas uma fase e de momento, apesar de subtil, Alice era implacável na recusa.
Alice escrevera a palavra "Vazio" e regressara à cama como era hábito, pouco tempo antes do despertador tocar.

Frederik acusava já a respiração pesada quando ela, antes de se deitar a seu lado, o beijou ternamente colocando-se, em seguida, de barriga para cima, com as mãos sobrepostas em cima do peito.

Sentia-se inquieta afinal. Não lhe fora benigna a escrita, como esperava. Continuava como em todos os restantes momentos da sua vida: aflita.

Não admitia ser doente aos outros. - E nesse grupo "os outros", exterior e independente de si, incluía o marido. – Porém, sabia sê-lo. Contribuíra para o seu autodiagnóstico a formação em medicina, que não a deixava iludir-se. Padecia de hipergrafia. Desconhecia, no entanto, que tudo o que escrevia era desprovido de significado e que, de facto, era totalmente vão o seu esforço, pois ideia alguma era transmitida nessa catarse.

Dessa ignorância alimentava o seu desassossego, crente que o resultado seria nada menos que a frase perfeita. Aquela que, embora não sendo bela, seria, no mínimo, reveladora.

Fitava o escuro, por cima de si e à sua volta, os pensamentos sucedendo-se ininterruptamente:

É isto a vida sem palavras: Escuridão.

Amo Frederik, mas se não lho pudesse dizer... Se não lhe pudesse sussurrar "AMO-TE" enquanto lhe lambo o lóbulo da orelha antes de fodermos, seria como se não o amasse de todo. (Pobres dos mudos.) Foi para isso que deram ao Homem a capacidade de falar. Que os bichos se amem sem proferir palavra? Aceito. Mas é para mim, enquanto fêmea desta espécie, inconcebível fazê-lo.

Frederik olhar-me-ia indignado, com repulsa até, se suspeitasse que quando faço amor com ele, estou simplesmente a foder. Foder. Eis uma palavra com força. Nela se encerra toda a pujança do acto. Se disser "fazer amor" diluo por duas palavras o que, para mim, é uma só, repleta de solidez: foder. Não a considero vulgar, nem tão pouco indecorosa. Simplesmente intensa. Mas talvez Frederik não me possa entender e por isso, por ele, lhe digo, quando digo, "faz amor comigo".

Com as putas, que ele procura amiúde, e das quais julga que desconheço a existência, esperaria tudo menos um: "Faz amor comigo." Comigo só espera isso. Como é doce e ingénuo este meu homem.

Pois se somos animais - E simula escrever com o dedo esquerdo no ar "animais", fechando os olhos com força, como numa prece, para memorizar a palavra que daí a umas horas anotará onde calhar. São essas preocupações que a impedem de dormir a maior parte das noites. Palavras desgarradas que não pode, de forma alguma, esquecer ou deixar de registar, assim que lhe seja possível. Habituou-se à insónia, embora tema estar a prejudicar os seus fetos. - e apenas nos afastamos da irracionalidade porque existem as palavras e com essas criámos uma linguagem nossa. É no momento em que essa espécie de luta, corpo a corpo, se dá, que as palavras e a racionalidade são olvidadas e somos somente duas criaturas movidas pelo instinto. Nesses momentos, só há carne, sangue, violência, dor e prazer. E nisso, todos somos semelhantes. Julga-me melhor que as putas que compra, o meu bom Frederik. Julga-me impoluta e branda. E eu como ele, como elas, naquele momento, apenas um sedento animal. -Desenha "sedento" na barriga. - Sedento. Juntar sedento a animais. Acrescentar a palavra putas e a essas, ingenuidade. Será que me vou esquecer? Não me posso esquecer: animais, sedento, putas, ingenuidade, Frederik, Alice, escuridão, palavras, foder. Talvez fosse melhor levantar-me. Saio daqui sem o acordar, escrevo num instante estas preciosidades e volto. Durmo ainda algumas horas. Duas talvez. Horas. Acrescentar horas! Nada disto é importante, se numa palavra havia dito tudo. Preciso dormir.

Alice contorcia-se de ânsia, o estômago transido pela náusea que a angústia lhe agrilhoara à garganta. Levantar-se-ia mais uma vez nessa noite, com cuidado desmedido para não acordar o companheiro e escreveria, enquanto o suor da urgência pingava sobre a mesa da cozinha, as tiranas palavras.

Estando grávida de gémeos a psicose piorara assustadoramente. Já não se tratava apenas de noites em branco em frente ao computador. Escrevia em todo o lado. No pacote de açúcar, depois de o esvaziar no galão; no interior da sua bata branca de médica, totalmente escrevinhado; o papel higiénico enquanto sentada na sanita, repleto de palavras. Chegara a dar-se o caso de, não tendo quantidade de papel suficiente para escrever e se limpar, ter optado por escrever, desdenhando as consequências de semelhante opção.

Toda a sua roupa tinha bolsos e nesses havia sempre, pelo menos, duas esferográficas. Admitia a falha de tudo o resto, menos do veículo do seu génio. Inconcebível, não apontar os pensamentos brilhantes e profundíssimos que cria ter formulado, aquando da escrita dos vocábulos.

Frederik andava há anos a alertá-la que tudo o que fazia era escrever palavras incoerentes. Que nada daquilo prestava. Que era insano o seu comportamento. Fazia-o de forma quase cruel para que ela o ouvisse. Procurava poupá-la ao sofrimento de o ouvir por outrem. Alguém que não a quisesse tanto quanto ele.

- Canaliza essa energia desregrada para outros fins Alice! Procura outra ocupação que te realize e onde possas ser efectivamente boa. - Agora que ela ia ser mãe estava certo que o faria com rigor e exemplarmente. Seria uma excelente mãe, para os seus filhos, disso não lhe restavam dúvidas. Tentava então mostrar-lhe o que via com nitidez. - Porque não te dedicas ao quarto dos bebés? Ainda não te vi fazer nada em prol da sua vinda. Arranja o quarto, decora-o como quiseres. Compra roupinhas para eles. Sê como as outras mulheres Alice. Sê como as outras! Não compliques. E se quiseres, meu amor, conta-me as tuas ideias e eu escrevo por ti e para ti, aquilo que quiseste dizer todo este tempo e não foste capaz. Nunca passarás de uma escritora deploravelmente medíocre, e é para teu bem que to digo.

Alice arrogante e agressiva fazia pouco dele, nessas alturas. Em tom jocoso humilhava-o com palavras geladas dizendo-lhe que o que separava o êxito dele, da ausência do dela, era um órgão reprodutor, destinado à queda, ao fracasso.

Não tinha, efectivamente, consciência da sua inépcia para o ofício que acreditava aprimorar de cada vez que empunhava uma caneta ou digitava no computador.

Era deveras doloroso para o marido perceber que a mulher não acreditava em si, julgando-o, injustamente, despeitado.

Desesperado dissera-lhe que desse a ler os seus escritos a terceiros, para que esses, isentos, lhe repetissem o que tentava provar-lhe há anos.

- Só quando os passar a limpo. - Retorquia. - Não tenho tido tempo.
- Hipergrafia, Alice. Já o estudaste, sabes o que é. Hipergrafia. Acorda! Cura-te Lili. Por favor ouve-me.

Alice sabia o que era, porém ignorava que da doença nada se produzia a não ser a perene dor.

- Estou no limite. Ouves? No limite, porra! - Gritava-lhe quando o desânimo era superior ao amor. - Como é que pretendes criar o Eddward e o Kurt, dizes-me?

Ela parava e olhava o ventre desmesuradamente proeminente, acusando o término da gestação.

Haverá momentos só meus. Como hoje. Assim continuará a ser. Não serás tu a privar-me desses, não serão os gémeos também.

Frederik atormentava-se com o futuro que adivinhava tortuoso dada a crescente irascibilidade da mulher. Era penoso dizer-lhe que ela enquanto escritora não prestava, era como se lho dissessem acerca de si e da sua obra. Mas era preciso que se apercebesse da sua loucura e para que a vida pudesse ter um rumo autêntico. Alice era infantil a exprimir-se, dava erros ortográficos e gramaticais gravíssimos e inadmissíveis para as aspirações que alimentava. Escrevia febril e ele chorava sozinho e desconsolado o seu infortúnio. Esgotara os argumentos dissuasores.

Nessa manhã viu-a despir-se para tomar banho. Escondera-lhe os lápis de cera com que era hábito escrever nos azulejos. Esperava ouvir-lhe os gritos exasperados, as reclamações repletas de raiva, os impropérios. Nada.

Durante vinte minutos o silêncio fora ensurdecedor. Não fosse a água, continuar a cair irregularmente, interrompida pelo corpo de Alice e respectivos movimentos e Frederik julgar-se-ia só em casa.

Sentou-se sobre o tampo fechado da sanita verde, encarando o cortinado opaco com os olhos mortiços. Não ousou chamá-la, limitando-se a aguardar. Pela primeira vez tinha agido de maneira concreta para a impedir do delírio. Iniciara nesse dia a oposição derradeira. Não mais seria benevolente ou permissivo. Era porque a amava que agia assim.

Alice abre a cortina e como invariável e instintivamente o marido observa-lhe os seios antes de lhe perceber qualquer outra parte do corpo.

Horrorizado constata-a raiada de sangue. Alice havia utilizado a lâmina da gillette com que se depilava para escrever na barriga.

(HELP)

(Maybe to be continued, or maybe not.)

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

 

Ó FAXAVÔRI:

Check this & this out, please.

Muito agradecida e quê.

(Talvez não sejais jovens de Cascais. Porém se me curtirdes, fazeis o favor de me lerdes só naquela de me auxiliardes. - Prometo que não agito a latinha com moedas num ritmo enlouquecedor.)

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sábado, 17 de outubro de 2009

 

ESCRITA CRIATIVA na TRAMA

É verdade fiz mais um. Começo a ter um vislumbre do que é ser-se agarrado a qualquer coisa. Sou agarrada a isto dos workshops de escrita. Tive a primeira grande pedrada o ano passado, durou cerca de dois meses (Set.08-Nov.09) e pensei que tinha parado por ali. Falso. Quero mais. Veio o seminário de ficção com o FHF e como não há duas sem três, atirei-me a um mini (só naquela de dar um cheirinho) atelier de escrita criativa, neste espaço que eu adoro, com esta formadora com ar de menina que muito me ensinou: RAQUEL OCHOA. Um doce de pessoa e além disso uma excelente formadora. Certeira, sensível, perspicaz ou não passasse grande parte do seu tempo em viagem a v(iv)er os outros. O que é que este atelier te trouxe de novo? interrogam-se vocês por certo. A crítica objectiva de que tanto necessito. A orientação. O "isto sim", "isto nem pensar. Deixa-te disso." Os ponto fortes e sobretudo os pontos fracos. Onde preciso estar atenta. O que tenho mesmo de corrigir. Enfim um salto libertador para fora do meu mundinho, onde nem sempre me consigo abstrair do inato egocentrismo de filha única e um indício de possibilidade de evolução. Agora depende de mim, do meu esforço, da minha força de vontade, do meu nunca desistir e querer sempre aprender mais. E eu quero. Muito. E "Querer muito é poder."

Fica o TPC corrigido depois da crítica construtiva que lhe foi dirigida. Não sei se fui bem sucedida na correcção. Sei que dei o meu melhor.

Umberto Eco: “À primeira vista não passava de um ser que juntara o seu corpo humano a uma cabeça equina, com cauda de sereia e escamas de serpente.”

Exercício: O que aconteceu a este homem para se transformar nesta criatura?

VESTIR OUTRAS PELES

Aquele homem era mais do que uma simples aberração. Era o brinquedo de um deus sardónico que o conjugara assim. Corpo de homem, cabeça de cavalo, cauda de sereia, escamas de serpente, para puro entretenimento. Egoísmo de uma divindade obscura. Não se importara sequer em desprovê-lo de inteligência. O sofrimento seria menor, desse-se o caso da mente ser de peixe. (E ainda assim não podemos saber.) Não. Dera-lhe o cérebro de um mamífero inteligente: bravo porém dócil, subjugado por benigno feitio mais do que por incapacidade de se rebelar interiormente. Tinha ideias de liberdade aquele pensamento de cavalo. Recordava as vidas em que fora cavalo inteiro e corria veloz por planícies imensas. Tempo em que as quatro patas não haviam sido trocadas por uma cauda de sereia. Não assumamos que apenas a cabeça tinha a faculdade de entender o crasso erro cometido na criação.

Também o peito humano se oprimia, acusando o desacerto. Recordava amores antigos e outros nobres sentimentos da pessoa de outrora, irremediavelmente perdidos - embora recordados pela irrefreável e perene angústia - porque inadaptados à mescla que era hoje. A cauda de sereia constituía a materialização suprema da ironia divina. A cauda de um inefável ente feminino como único meio promotor de movimento ao viril, embora agrilhoado, ser masculino. Que género atribuir a tão confusa criatura? Considerando apenas a morfologia do sexo dir-se-ia feminino, pois se a sereia é tida como mulher sedutora, ainda que aberrante. Mas se a metade que define o sexo é peixe e se peixes há hermafroditas, em que ficamos? Ficamos confusos. Imagine-se o desventurado ser. Cada parte de si uma vontade e díspar das restantes. Sofrimento atroz.

Apenas as escamas cumpriam o seu papel protector do todo, e se sentiam (se é que uma escama pode sentir), de certa forma, satisfeitas com a própria existência.

A criatura não se sentia bem na sua pele, que vestira por castigo do criador e não por vocação. Pelo contrário, a epiderme cumpria solitária e impassível a função para que fora criada, sem se apiedar das outras partes que tinham de ser o que não (se) sentiam e as quais, paradoxalmente, defendia.

Andreia Azevedo Moreira
11 de Outubro de 2009.

P.S. Atentem na nova etiqueta: FORMADORES ESPECTACULARES. Tem efeitos retroactivos portanto o meu grande bem haja para cada um (modo aleatório): Raquel Ochoa, Luís Filipe Borges, Filipe Homem Fonseca, Susana Romana e Nuno Costa Santos. (Diz que gostei de todos os que conheci até aqui. Cada um especial à sua maneira e cada um, o respectivo contributo para que eu seja melhor.)

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

 

OLHA OUTRO TEXTO!

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

 

Combaterei a minha ignorância até ao último dos meus dias. PAM. (Ou pan? Caraças?)

Este fim de semana afastei-me mais um pouco da ignorância. Sim, ela ainda anda aqui às cavalitas a pesar-me, mas consegui que soltasse pelo menos uma garra das minhas costas. Onde é que eu fui? Sim? Onde é que andaste Deia? Calma, calma, não se exaltem, já sabem que, invariavelmente, me chibo (Pá chibo é com "ch"? Chiça...) toda.

Fui aqui! (Sim com ponto de exclamação, faces coradas, sorriso incontido e quê. Com tudo o que uma pessoa histérica tem direito!)

Não ia com expectativas elevadas, ia mais numa "Aprende-se sempre qualquer coisa..." e eis que levo uma ensaboadela do caraças que me deixou aqui toda lavadinha e fresca, cheia de ideiazinhas e quê para aplicar à minha paixão. Foi mesmo muito bom.

Ele não gosta que se fale em conteúdo, mas que se lixe, aquilo em termos de conteúdos foi BRUTAL! Mal respirava eu. Acreditem.

O que é que eu destaco neste formador (Filipe Homem Fonseca)?

(Atenção que vêm aí postas de pescada à la Deia. É a minha percepção. E a percepção é como as vaginas quem quer dá-las, dá-las. Não é Dra. Rute Remédios? Eu acho que era assim. Agora se não era é fazer o favor de efectuar uma errata.)

1) Destaco o entusiasmo em transmitir o conhecimento.
2) E a generosidade com que o transmitiu. Ele ensinou-nos o que sabe, o que pratica, aquilo em que acredita. Não omitiu. Tentou ao máximo passar informação. E a gente ali pá, a sorver aquilo pá, a aproveitar cada segundo, de cada minuto de cada uma das dez horas que valeram bem os 150 euritos empregues. Já não digo que foi caro, embora o tivesse sido pá! Fosgasse! Que até tenho um princípio de paragem cardíaca a a querer dar-se.

Nota: 19,5. Só naquela de ser parva e não dar o 20 ah e tal porque eu cá não dou 20. eh eh eh.

Na inscrição pediam-nos para descrever em 3 linhas uma personagem. Saiu-me esta a quem um dia destes darei vida. Olaré se não darei.

1) É uma sem-abrigo/Travesti/Ateia/Adepta do Belenenses/Sonho:mudar de sexo
2) Magra/ Boa: mamas e rabo impossíveis de disfarçar
3) Demasiado bonita e feminina para algum dia parecer um homem

E depois pedem-me para descrever uma situação de perigo ou embaraço para essa personagem em três linhas também. E vou eu e só faço isso em duas, porque não deu para mais:

1) Os companheiros de rua insistem em chamar-lhe "Ó BOA!"
2) Apesar dela dizer a todos que é o Magalhães. Alfredo Magalhães.

E vocês agora convençam-se de uma vez por todas que me falta um ou outro.

E julgam que parei por aqui com isto de tentar que a ignorância me "deslargue"?

Nem pensem. Já me inscrevi noutro. Lá para Outubro. Depois conto claro está.

Entretanto, ideiazinhas parvas que se me assomam ao espírito nestas coisas:

"A vida é, não raras vezes, uma granda filha da plot."

P.S. Conheci a Conceição que é coreógrafa e resolveu deixar respirar a escrita. Conheci o Marco que é actor e anda fascinado com o humor. Os outros não conheci porque não houve tempo para aproximações. Desejo a todos que encontrem aquilo que não procuram (regra geral, é mais interessante e apaixonante que o que se procura.)

E no fundo é isto.
O que é que nada tem a ver mas não podia deixar de referir? Vou buscar o BACKSPACER não tarda nada ali à FNAC do Cascaishopping e volto depressinha porque às 23h na Antena 3 eles vão estar em directo. Ai que nervos!

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domingo, 20 de setembro de 2009

 

Quentchi e frio ou a saudadji gostóooooooosa

Fosgasse já faz um ano. Foi MUUUUITOOO bom.


http://www.youtube.com/watch?v=aaao6z4FN5s

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sábado, 27 de dezembro de 2008

 

"Ver" os outros

Em muitas das minhas manhãs rumo à prisão (perdão, rumo ao trabalho. Sim, felizmente que o tenho blá blá blá blá. Que Deus não me castigue pelo sacrilégio blá blá blá blá. Sim reconheço que não fotossintetizo e como tal necessito de um trabalho como as pessoas, blá blá blá blá) olho para os outros que me acompanham nos transportes públicos e tento imaginar-lhes as vidas.

Nota: os transportes públicos são fonte inesgotável de inspiração.

Há um senhor que me fascina. Desde a primeira vez que o vi que me prendeu o olhar nele, com o seu estranho modo de ser e sempre que o vejo ponho-me a magicar. Cheguei a escrever na agenda ao pormenor o seu aspecto para um dia poder "usá-lo" nas minhas histórias. Esse dia chegou numa aula do curso de escrita criativa que frequentei entre Setembro e Novembro (Aquela paixão de curso pá). Tínhamos de construir o perfil de uma personagem (físico, social e psicológico).

Saiu-me o que se segue.

(Ainda não desisti dele. Vou melhorá-lo, completá-lo, construir-lhe as companhias e o senhor do autocarro passará a ter existência paralela.)

“Storyline”: Caberá uma vida inteira em duas pesadas sacolas? Pode o peso de uma existência ser suportado diariamente? Afonso acha que sim. Afonso sabe que tem de ser assim. Quando a catástrofe que pressente (paranoicamente), há anos, acontecer, irrefutável, quer ter tudo aquilo de que necessita consigo, para poder começar de novo onde quer que seja. Todos os dias para si são importantes porque encerram uma busca da qual só desistirá se morto. A busca pela Inês que conheceu e perdeu antes que pudesse, quem sabe, arrepender-se. Apenas o prenúncio do amor. Não o amor em si, mas já o suficiente para que viva uma vida inteira em função dele. É pena que nas sacolas não caibam o seu amigo João Faz e a sua Tia Gertrudes. Não pode sequer imaginar o terror que sentirá, aquando da catástrofe, por não saber deles.

Nome: Afonso Trindade de Noronha
Filho de: Augusto Albergaria de Noronha e Maria Ana Trindade de Noronha 62 anos de idade

Características físicas:
Homem de estatura baixa (1,65m); muito magro; cabelo grisalho forte; ri-se sempre de boca fechada (uma meia-lua apenas) mas tem os dentes impecavelmente brancos e direitos; olhos quase negros; óculos demasiado grandes para a sua face, feitos de massa; barba sempre impecavelmente feita; nariz batatudo; tem um sinal por baixo do olho direito; moreno (mesmo no Inverno a pele tem um tom bonito, ligeiramente bronzeado); as orelhas são muito grandes mas não se vêem porque estão sempre tapadas pelo farto cabelo; mãos delicadas com os dedos muito longos, tem nas mãos regularmente eczema. Tenta minorar a possibilidade de infecção usando nos períodos em que o eczema ataca com mais força umas luvas sem dedos; os pés são enormes (calça 45); no braço esquerdo tem uma tatuagem com o par yin-yang; como come uma cabeça de alho todas as semanas, exala muitas vezes esse cheiro; não tem outro cheiro nos dias restantes; nunca teve uma doença grave (é 100% saudável) raramente se constipa (por causa do alho?); a sua voz é grave e muito bonita (poucas vezes fala); é muito discreto e quando se cruza pelas pessoas baixa o olhar fitando o chão, raramente as encara. Roupa que enverga é muito velha mas impecavelmente cuidada. Não se vê um buraco ou um remendo, contudo o seu ar é de pessoa sem recursos que vive no limiar da pobreza. Sapatos pretos velhos mas sem buracos; calças de fazenda que parecem dos anos 60; pullover, camisa e um blazer com reforço nos cotovelos, usa sempre uma boina preta. Ao ombro um saco muito pesado (o que é indicado pela curvatura do seu corpo enquanto anda) e na mão contrária a esse ombro, outro saco igualmente pesado que contrabalança a outra carga. São sacos grandes de pano muito resistente. Porte digno e aprumado apesar da antiguidade de tudo o que o compõe.

Socialmente: Nasceu em Lisboa, do cruzamento de duas árvores genealógicas de origens abastadas, teve infância muito feliz resultado do amor genuíno que unia os pais. Não fora um casamento combinado como usual à época e sim um encontro de duas almas. A partir do dia em que se viram pela primeira vez, jamais se voltaram a separar, mantendo no entanto a sua individualidade enquanto pessoas. Eram um casal saudável e feliz. Afonso cresceu sem preocupações. Quando a guerra nas antigas colónias portuguesas se tornou um destino traçado, fugiu. Desapareceu a todos (embora mantivesse sempre o contacto clandestino com a sua mãe) e esteve em Londres muitos anos, dos quais tem muitas histórias para contar. Nessa altura perdeu de vista uma mulher por quem se apaixonou perdidamente e de quem nunca mais soube o que quer que fosse. Anda desde 1975, altura em que regressou a Portugal à sua procura, seguindo-lhe o rasto em arquivos de jornais e organismos públicos que possuam dados sobre os cidadãos. Nunca exerceu uma profissão. A sua conta bancária permitiu-lhe sempre viver com o que pensa ser suficiente para que se viva “bem”. É um homem de poucos caprichos. Todos os meses retira até à quantia que julga ser razoável para um dia-a-dia remediado e reserva sempre uma parte para ir ajudando outras pessoas que veja em real precariedade. Vive num quarto em casa de uma tia idosa, na Avenida de Roma que o deixa servir-se das partes comuns da casa como se fosse seu filho. Limpa o quarto duas vezes por mês. Tem no quarto uma gaiola com dois canários que passa a vida aberta porque lhe faz muita confusão a privação de liberdade. Eles nunca fugiram. Na sua mesa-de-cabeceira a fotografia a sépia da mulher que o apaixona há uma vida. Inês Alexandre Belo. Todos os dias deixa o seu quarto em casa da tia e parte na sua busca por Inês. Todos os dias, apanha pontualmente o mesmo autocarro, deixando que toda a gente lhe passe à frente e sendo sempre o último a entrar. Às vezes corre para o apanhar. Às 9h05 todos os dias. Nunca votou. Nunca se interessou por política mas esteve sempre a par de tudo o que ia acontecendo até ao presente. Era forte a convicção que a guerra não era para si. É do Sporting. O pai sempre o levou aos jogos em pequeno, enquanto a mãe ficava em casa da Tia Gertrudes (com quem vive actualmente) a conversar e a tricotar camisolas que levavam depois a instituições de crianças carenciadas. Gosta de música clássica, principalmente em piano que também sabe tocar de forma exímia embora só o faça muito esporadicamente quando a tia sai. Todos os anos vai à ópera, uma única vez, no São Carlos, ocasião para a qual dispõe de um fato novo muito bonito que, todos os anos, se revela adequado. É esse o seu único luxo. O seu prato favorito é caldeirada de peixe. Não entra num restaurante desde que era muito novo e ia com os seus pais mas lembra-se bem do quanto gostava desse prato. A tia não o sabe fazer e ele também não cozinha. Faz o essencial para não morrer à fome. Come demasiadas vezes bolos e folhados e apesar disso uma saúde de ferro e uns dentes invejáveis. Tem um único amigo, João Faz, a quem confia a sua vida e com quem se encontra num dos bancos do Jardim da Estrela. Ele tem Alzheimer e já pouco fala mas ainda o reconhece. Ficam muitas vezes apenas sentados, lado a lado, num silêncio cúmplice. Acredita em Deus mas não na igreja, rezando todas as noites uma oração inventada por si. Solteiro. Nunca casou. Nunca se envolveu com ninguém à excepção das prostitutas a quem paga volta e meia para ter sexo e conversar sobre as mulheres. A Inês nunca chegou a ser sua. Já se masturbou a pensar nela. (Será que isto devia ir para o psicológico - pensar? Ou para o físico? – mãozinha) Estudou até à altura de ir para a faculdade mas nunca ingressou numa. Não lhe interessava. Não precisava também. É uma pessoa interessada que lê muito e senhor de uma vasta cultura a diferentes níveis. Algumas fontes: rádio que transporta num dos sacos que carrega, bibliotecas onde passa várias horas do seu dia devorando os livros que lhe despertam a curiosidade e os arquivos onde enceta a sua busca por Inês e onde aproveita para conhecer outros factos, tanto do passado, como do presente. Não gosta de ver televisão. Não bebe café. Não fuma. Nunca lhe negaram entrada onde quer que fosse, apesar do seu ar.

PSICOLOGICAMENTE:
Afonso é um homem paranóico. Convenceu-se que um dia uma catástrofe o há-de tentar apanhar desprevenido e privá-lo do que considera essencial para viver bem. Resolveu esse medo irracional, transportando todos os dias dois grandes sacos de pano que encerram tudo o que considera vital para começar de novo em qualquer lugar. Nunca a tia o conseguiu dissuadir de semelhante delírio. Nunca ninguém o conseguiu persuadir acerca do que quer que fosse que não estivesse disposto a aceitar. Obstinado fez sempre aquilo que o seu interior lhe ditou. Jamais permitiu interferências exteriores a si no que toca a decidir o seu rumo. Vive todos os dias com a sombra da catástrofe sobre a sua cabeça. Não sabe o que vai ser, mas acredita piamente estar completamente preparado. A única lacuna no seu plano (im)perfeito é não poder transportar consigo nas sacolas as duas pessoas que lhe são mais queridas, o João Faz e a tia Gertrudes. Quanto aos canários não se preocupa. Como lhes deixa a gaiola aberta e a janela com a abertura suficiente para que passem, se assim o desejarem, sabe que irão ter consigo no fatídico dia, ou pelo menos sabe que têm essa possibilidade de o fazer e por isso, por eles, não se atormenta. Gosta muito de ler, aliás é nesses momentos que se sente preenchido, nesses e nos momentos em que procura a Inês. É um saudosista, vive a vida alimentando-se de recordações, algumas das quais mais fruto da sua imaginação romântica do que fruto de uma experiência vivida. De temperamento calmo, nunca discutiu com quem quer que fosse e não suporta quando as vozes se elevam, nem a intolerância das outras pessoas por isso isola-se muito. Não se lembra da última gargalhada. Não se lembra da última vez que chorou com desespero. Tem vivido assim com uma meia-lua no rosto (um estado intermédio e morno) que o demonstra benigno aos outros, aos que conseguem dar por ele. A sua cor favorita é o laranja porque lhe lembra as flores (gereberas) que ofereceu a Inês a última vez que a viu. É um homem de fé. Para ele nunca é tarde. Tem no saco um bloco onde escreve intermináveis listas de tudo o que ainda lhe falta fazer. Não passa por um sem-abrigo ou por uma pessoa que pressinta em dificuldade sem se lhe dirigir. Nesses momentos fala com a sua voz quente e reconforta as pessoas. É também incapaz de virar costas a um animal em sofrimento (um pássaro caído do ninho, um cão ferido, um gato com fome) auxilia-os na medida das suas possibilidades. É uma pessoa afável e carinhosa mas poucas são as pessoas que o conseguem testemunhar dada a sua pacatez. É um homem de uma inteligência intuitiva, não daquelas inteligências de raciocínio rápido em cálculo e em lógica, é antes uma inteligência para as pessoas e para aquilo que lhes faz mais falta (emocionalmente falando). Desprovido de ganância não dá muito valor ao dinheiro que se encontra na sua conta recheada no banco. Acredita ser possível ser-se feliz só com a contemplação da beleza das coisas que são naturais, como um pôr-do-sol, o mar revolto em dias cinzentos, uma planície completamente seca e árida no Verão, as cores de um pássaro desconhecido ou o pêlo macio de um gato. Acredita que verá novamente Inês. Acredita que o seu amigo se curará um dia da doença funesta. Acredita que ainda tem muito tempo para fazer muita coisa. Sente um terror real quando pensa na “catástrofe” e nessas alturas verifica de forma doentia os conteúdos dos sacos. É metódico, rigoroso e honesto. Nunca enganou quem quer que fosse. Tem medo de trovoadas porque acha que são os anúncios da dita catástrofe. Sente inveja dos que amam. Sente ciúme pela vida que a Inês provavelmente terá. Sente mágoa pelo exílio. Apesar de toda a vida ter vivido errante e sem grandes companhias nunca se sentiu só.

Este exercício foi, para mim, um dos mais importantes. Um dos que mais me ensinou. É preciso criar as personagens para lhes escrevermos a história. É o cimento da construção que pretendemos erigir. Sem essas a história é vã.

Outro ensinamento precioso: "Não te contentes com a primeira versão (calona!)."

Quem dera ter um clone que pudesse enviar lá para o outro sítio onde ganho o dinheirinho para eu (a verdadeira) poder ser EU (a verdadeira).

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