quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Exercícios na TRAMA (03/12/2009) continuação da continuação
Constato que a cruz ao meu lado tem arestas afiadas. Rodo o corpo na cadeira e esfrego freneticamente na antiguidade, a fita-cola que me unia as mãos. O espelho à minha frente, com linhas de um mapa-mundo, em duplicado, desenhadas, devolve-me a imagem de uma expressão que desconhecia, até então, em mim. Uma mescla de determinação e audácia sem, contudo, me encontrar corada até aos ombros, como é meu apanágio, quando me enervo. Este factor joga a meu favor. Ainda que ele acorde, não dará, no imediato, pela minha euforia. Levanto-me cuidadosamente para não fazer barulho e dirijo-me à lareira onde vira, há pouco, um telefone. Verifico se tem rede. Não tem. Pois se sou a Miss Azar 2009... Toco numa jarra chinesa que cai com grande estardalhaço. O Almada acorda e eu dou-lhe com o par da primeira, em cheio, no cocuruto. Cai atordoado embora não inanimado e começa a levantar-se novamente. Precipito-me para a porta, não sem antes guardar, dentro da camisola que entalo nas calças, o que me ficou ao alcance da mão. Mais tarde espero que me sirva de prova cabal desta aventura e quem sabe, me permita incriminar o sujeito. Não tendo havido oportunidade para reflexões, o que trouxe resume-se a: uma cassete áudio Basf; uma cassete VHS e um desenho a carvão com diferentes caras, que arranquei da parede ao lado da porta da rua.
- Não tens escapatória! Mato-te se insistires na fuga. Mato-te! – Tenta dissuadir-me com palavras, já que não consegue mover-se rápido, quanto baste, para me alcançar, sem o auxílio da bengala que antes de o acordar, havia atirado para longe de si.
- Adeus! – Desafio a sua ira, com um último sorriso que manifesta mais temor do que coragem, embora esteja certa que ele não o interpretou assim.
A precipitação é tanta ao descer as escadas, que me estatelo no chão, não sem antes bater com a cabeça na cómoda da entrada, que sentira ao subir. O sangue quente rola-me cara abaixo. Não há azo a pieguices e abro a porta do prédio, espavorida. Verifico que os quatro que me abduziram não se encontram nas imediações e desato a correr, sem saber para onde. “Longe” é a palavra que me invade o espírito. Trouxeram-me para o meio de uma floresta. A noite está fria e uma neblina fantasmagórica paira junto ao solo. A corrida ajuda a manter-me quente. Ouço os meus passos ritmados a partir ramos e a chutar pedras. As árvores falam-me com as respectivas folhas agitadas, como quem me diz: Cuidado! Pela primeira vez desde que isto começou, concebo que talvez não me safe desta. A tenacidade é substituída pela desistência. Choro e as lágrimas misturam-se com o sangue. O vento seca-os, deixando-me com uma sensação desagradável, como se tivesse uma máscara de argila colada à pele endurecendo-me a expressão. Invoco a minha avó Fernanda: “Andreia, dos fracos não reza a história!” e mantenho a correria acelerada rumo ao incerto. Sei lá se não estarei a fazê-lo em círculo, no sentido da casa de onde ainda agora fugi? Ouço corujas e o restolhar constante da vegetação vindos de cima e dos lados, assustando-me com uma intensidade que é potenciada pelo pavor que sinto. Volta e meia, ramos prendem-se-me ao cabelo atrasando-me a marcha. É deplorável o meu estado. Apercebo-me, entretanto, que não são só os meus passos a rasgar a escuridão. Paro. Escuto atenta. Há alguém no meu encalço. Não consigo pensar em mais nada. São eles! São eles! Rodo sobre mim desesperada em busca de um esconderijo. É no tronco oco de um eucalipto colossal que o acho. Entro rápida e discreta na cavidade e perscruto o bosque com o ouvido atento. Quieta. Sustenho a respiração diversas vezes. Quieta! Aparecem dois dos encapuzados.
- Inês* é bom que apareças. Não dês muito trabalho a procurar-te. É pior para ti querida. – A voz medonha, não engana. É o tal, da vista peculiar.
Anjo da guarda minha companhia guarda a minha alma de noite e de dia... – Ocorre-me rezar e acorrem-me, então, em catadupa à memória, todas as orações que aprendi, na infância, com a minha avó materna: Maximina.
O pânico é tanto que me urino. Sinto o quente encharcar-me a roupa e passados poucos minutos, o frio a instalar-se, chegando-me aos ossos.
- AAAAATCHOOOO. – Agora é que me lixei...
Consigo vê-los a correr nesta direcção. Morrerei sem glória. Quando se encontram a cerca de dez metros da árvore em que me escondi, ouve-se um estrondo e um deles cai redondo no chão. Um tiro? Por segundos, foi como se o meu coração parasse de susto. O outro bandido ajoelha-se ao lado do que foi atingido, pega-lhe no pulso e afere se está vivo. Sem proferir palavra, dirige-se a passo cadenciado para cá. Outro estrondo. É ferido no ombro e corre para o meio das árvores embrenhando-se no bosque.
- Psst. – Ouço. Continuo quieta no mesmo sítio, quando uma mão estendida me aparece à altura dos olhos, convidando-me a agarrá-la e a sair. Que remédio. Agarro-a tremendo e ergo-me.
- Inês?
(Pois que ainda falta uma parte... Ainda vêm cá?)
*Ah ah ah. Mega gafe que eu tinha aqui e ninguém, nem a Stôra, deu por nada... Então eles julgam que eu sou Inês Pedrosa como poderiam chamar por Andreia? Hein? Está tudo a dormir pá? Comé?
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terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Exercícios na TRAMA (02/12/2009) continuação
Segunda Parte
- Vamos. – Diz-me o da íris sinalizada, enquanto me puxa pelo braço, bruscamente, para fora da viatura. Sei ser esse, porque a sua voz na ocasião em que me agarrou se me tornou inesquecível. Uma voz cavernosa e penetrante. Retira-me a mordaça.
- Onde? Posso saber? – Armando-me em esperta com o intuito de disfarçar o nervosismo em crescendo.
- Calada. À minha frente. – O seu bafo quente na minha nuca provoca-me um arrepio que me percorre, desagradavelmente, as entranhas. Uma porta abriu-se antes da minha e só essa se fechou, pelo que deduzo que apenas o das órbitas azuis me acompanhará.
Começa a empurrar-me. Vou tropeçando e quase caio algumas vezes. Pela irregularidade do terreno e total ausência de ruído, interrompida de quando em vez com o cantar dos grilos, calculo estar longe da cidade.
Estacamos subitamente. Ouço sete pancadas secas numa porta que adivinho ser de madeira. Abre-se vagarosamente à minha frente. Range.
- Entra.
- Sozinha? Quem me espera ali? Onde me deixam?
- Cala-te. Entra.
- Não vejo. Tire-me a venda por favor. – Enfim submissa.
- Entra, já disse!
Palpo a parede à minha direita. O raptor ordenou-me que uma vez no interior, seguisse sempre encostada a essa. Ouço um mecanismo que ora avança ora se detém. Nesses hiatos, um apito sonoro. Três toques e prossegue. Avanço pelo corredor cautelosamente. Tropeço num degrau e logo depois esbarro numa qualquer peça de mobiliário.
- Continua. – Ouço, agora, uma voz diferente.
Estar cega, sem o ser deveras, é aterrador. Prossigo e detecto degraus. São demasiadamente curtos, pelo que opto por subir de dois em dois. Estão revestidos por um tipo de material que abafa os passos. A pessoa que me aguarda terá, por certo, um bom ouvido, ou é demasiado impaciente, pois de cada vez que paro me incita imediata e rispidamente a continuar. Subi dois lances de escadas. Em cada um desses havia uma porta que me parecia de madeira em quadriculado à qual me agarrava procurando uma saída.
- Não é aí. Avança. – Diz-me a voz.
Eis que atinjo o topo. Pressinto alguém muito perto e ouço uma chave rodar. Cinco voltas numa pesada fechadura, manuseada com dificuldade. Um ligeiro safanão precipita-me para o interior. Sou orientada até um ponto em que uma pressão no ombro me faz sentar. O carcereiro retira-me a venda.
- Mas você é...
- Sou.
- Como? Está com cem anos ou mais?
- Quem faz as perguntas sou eu. Porque é que foste comprar o livro, precisamente hoje? Porquê? – Está a falar-me tão perto que a saliva com que me salpica, ainda está quente ao atingir-me a face. Porém, a sua voz não se eleva.
- Apeteceu-me. Palavra. Lembrei-me dele e fui comprá-lo. Uma coincidência dos diabos.
- Não me faças rir. Não sou para brincadeiras. Ouves? Diz-me a verdade. Exijo-to.
- É o que digo! Tive vontade. Recordei a primeira vez que este livro se me revelou e decidi adquiri-lo. Não tinha um exemplar em casa. Foi isto.
- Não acredito. Pensa bem no que fazes. Já te disseram que há uma vida em jogo?
- Que vida? O que fiz? Diga-me? Sou inocente, ouve?! Seja lá o que for de que me acusa. Tenho dito. – Recupero alguma da insolência que me caracteriza e deito-lhe a língua de fora, qual menina traquinas. Ele ensaia uma bofetada, contudo suspende o gesto mesmo junto à minha cara apertando-a com a mão direita, fazendo-me sentir humilhada e impotente com a fisionomia deformada entre as suas manápulas.
- Fica aí um bocadinho a pensar no que queres fazer à tua vida, que eu já venho. Fá-lo com cuidado pequena, que a minha paciência está a esgotar-se. Aguentarias a culpa?
- Sou inocente! – Grito-lhe uma vez mais.
O Senhor Almada. Quem diria? Ainda mais velho, embora semelhante ao que tinha guardado na memória: barba grisalha, bem aparada, corpo roliço, bengala na mão esquerda e aqueles dois grandes sinais escuros por baixo dos olhos. Marcas de uma pele de provecta idade. O cachecol vermelho, acessório do qual jamais se separava e que mantém, enrolado no pescoço da esquerda para a direita. Dois grandes anéis no anelar e no mindinho rematam a aparição. “Velhos hábitos morrem dificilmente.” Como se ouve nos filmes. Este senhor manteve-se fiel ao estilo que criou para si. Gosto disso. O que não aprecio é o modo como me trata. Conheci-o há uns anos, mas a relação que estabelecemos não justifica as cobranças que me faz. São descabidas. Absolutamente desconcertantes.
Consigo vê-lo daqui. Retirou-se para trás de um biombo que o oculta parcialmente. Percebo que se sentou ao que me parece ser uma secretária. Pela luz que lhe ilumina o rosto e pelo dedilhar, depreendo que se encontre ao computador. Resta-me estudar esta sumptuosa divisão. A profusão de objectos, achados arqueológicos de diferentes civilizações, mobiliário e obras de arte, que me rodeia é intimidatória. Nestas alturas amaldiçoo a ignorância com que me tenho vestido ao longo da vida. Aqui estou, decerto numa câmara de tesouros, sem a conseguir avaliar com precisão. Apenas posso intuir o seu valor. Um quadro majestoso chama-me a atenção. Ocupa metade de uma das paredes. Trata-se de uma ilustração de uma queda de água de grandes proporções, à frente da qual um homem, insignificante perante a força com que a natureza se lhe apresenta, monta um cavalo e empunha uma espécie de lança. Penso: um indígena despido, num remoto lugar do planeta. É como me sinto, qual homenzinho nu, empunhando uma azagaia quebradiça e ridícula, quando comparada à força indomável das águas numa catarata. Ao lado, uma estante que se ergue até ao tecto contém dezenas de livros, todos do mesmo tamanho, com a mesma cor e de lombada igual. Sei que devia procurar as respostas que ele me intimou a dar, mas desconheço-as e esta sala é apaixonante demais para não me dedicar a observá-la.
Três cores me invadem os sentidos: o vermelho, o azul e o verde água. Uma quarta cor neutra, consiste na luz emitida pelos candeeiros de formatos variados que se encontram dispersos pela assoalhada, alumiando, o que, sem esses, seria um local deveras obscuro. Não fosse este o meu cativeiro e considerá-la-ia encantadoramente acolhedora. Sala digna de um lar de família. Sê-lo-á por ventura. As molduras proliferam como cogumelos em todas as superfícies: em cima de arcas de madeira, nas diferentes mesas, em cómodas. Revelam ternura; momentos de partilha; conquistas. O vermelho em excesso, pelo contrário, faz-me pensar no inferno. O meu. Até os estores são rubros. Fechou-os para me impedir de ver o que há para lá das duas janelas que tenho à frente. Ao meu lado esquerdo está um santo que fica à altura da minha cabeça, e à direita uma cruz de ferro. Fé agora? Não consigo. Com a cagufa, até me esqueci das orações que tão diligentemente costumo murmurar, todas as noites, antes me deitar. Ui. Aí vem ele...
- Então? Como estamos de memória?
- Continuo sem saber o que fiz para merecer isto.
- Não te faças de vítima! Comigo, essa ladainha não pega. Diz-me o que quero ouvir, sem demora!
Exalta-se de tal maneira que se engasga e começa a tossir continuamente. Dada a velhice, senta-se num cadeirão de pele com rodinhas, que se encontra no lado oposto ao da minha localização, para recuperar o fôlego. Limpa com um lenço verde de pano, retirado do bolso, o suor que lhe invadira a fronte. Fecha os olhos combalido. Para minha surpresa a sua respiração torna-se mais pesada até se transformar num ronco. Dorme. A esperança que este acontecimento inesperado me suscita, injecta-me o ânimo que me faltava para procurar uma saída de emergência. Busco ao meu redor uma forma de me soltar.
(Ah pois é: to be continued...)
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Exercícios na TRAMA (02/12/2009)
Primeira Parte
Que há-de ser de mim depois disto? Empenho-me no optimismo, nos sorrisos, na alegria e o que é que a vida me faz? Coloca-me estes energúmenos no caminho. De que me serviram os últimos meses nas aulas de yoga, aprendendo a vibrar em frequências de energia positiva? De nada, não é? A verdade é que estou metida nesta alhada e o Universo nickles para os meus esforços de ser uma pessoa boazinha. São quatro. Três deles saíram de um carro preto muito velho para me agarrar. O quarto ficou ao volante. Foi o que vi antes de me imobilizarem as mãos com uma fita-cola parda e resistente e me vendarem. Encheram-me a boca com um lenço que me ataram à nuca e que me dificulta muitíssimo a respiração. Fizeram bem, ou já teriam ouvido um ou outro dos impropérios que tenho para lhes dizer. Que maçada! Dei um salto à livraria da rua onde moro para comprar um livro que me fora emprestado há uns anos e do qual me lembrei há bocado, tendo ficado com uma vontade inadiável de o reler. Ironia das ironias, pela conversa, percebi que me raptaram pensando que sou Inês Pedrosa. Será possível? Mas por que raio havia a autora de se dirigir a uma livraria, no Rato, às oito da noite de um dia de semana, para comprar um livro seu, saído há tanto tempo? Estes senhores têm cabeças de insecto. Ao menos que me tivessem carregado em grande estilo, quero dizer: em braços, como uma diva. Não, os fidalgos limitaram-se a empurrar-me. Brutos! Mas o que é que lhes passou pelas antenas? Tenho o cabelo e os olhos claros, é certo. Mas acabam por aí as coincidências morfológicas com Inês. Nem sequer temos a mesma idade. Tenho menos doze anos, julgo eu. Ai a minha vida. O que hei-de fazer, para os levar a entender o erro crasso que cometeram? Temo que me façam mal, uma vez desfeito o equívoco. O cheiro a bafio do automóvel, em que me fizeram entrar, é intensamente desagradável. Para uma pessoa como eu, de olfacto apurado, constitui uma autêntica tortura. Imagino que tenha estado fechado em alguma garagem ou armazém. Os assentos colam-se-me à roupa o que me enoja, embora actualmente, o asseio seja o menor dos meus problemas.
Os meus raptores falam pouco entre si. Ordens e monossílabos. É tudo. O suficiente, no entanto, para perceber que todos sem excepção têm mau hálito e que, pelo menos dois deles, fumam. A besta que conduz fá-lo a grande velocidade e nenhuma das restantes se deu ao trabalho de me pôr o cinto de segurança. Já bati três vezes com a cabeça no vidro da janela, em curvas mais apertadas. O que me vale é o mau feitio, ou estaria a chorar como um bebé desconsolado com frio. Sou mais dada às reivindicações. Por sinal, vejo-me desejosa de o fazer. À cautela, por ora, calar-me-ei. A única frase que um deles me dirigiu foi proferida em tom sarcástico e algo ameaçador: “A vida de uma certa pessoa, minha menina, está nas tuas mãos.” enquanto me arrancava rudemente o livro. Não sou capaz de os identificar, visto que todos se encontram encapuzados. Dos olhos azuis gélidos deste que me falou, lembrar-me-ei sempre. O olho direito tem uma espécie de sinal em forma de lua. Inconfundível. Uma frase martela-me no pensamento: “Mas por que é que alguém há-de querer raptar uma escritora?”
(Continua ora pois...)
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
TPC para mim e para os que, entre vocês, tiverem paciência para ler. (Agradecida)
2) Não fiquei satisfeita com isto.
- Alice, vem deitar-te. - Era a quarta vez que Frederik a chamava e o tom, outrora paciente, fora substituído por um que denotava já alguma irritação com a atitude da mulher.
Alice Farlow vomitava as entranhas. Quatro e meia da madrugada e premia, ainda, freneticamente as teclas do computador, convicta que em seguida se sentiria aliviada.
- Já vou querido. Está quase. Uma palavra mais e termino.
- Uma palavra... - bufou Frederik. Enterrou-se nos lençóis, preparando-se para dormir. Desde que a mulher engravidara pouco mais havia a fazer a seu lado, na cama, do que dormir. Cansara-se da procura frustrada. Sabia que era apenas uma fase e de momento, apesar de subtil, Alice era implacável na recusa.
Alice escrevera a palavra "Vazio" e regressara à cama como era hábito, pouco tempo antes do despertador tocar.
Frederik acusava já a respiração pesada quando ela, antes de se deitar a seu lado, o beijou ternamente colocando-se, em seguida, de barriga para cima, com as mãos sobrepostas em cima do peito.
Sentia-se inquieta afinal. Não lhe fora benigna a escrita, como esperava. Continuava como em todos os restantes momentos da sua vida: aflita.
Não admitia ser doente aos outros. - E nesse grupo "os outros", exterior e independente de si, incluía o marido. – Porém, sabia sê-lo. Contribuíra para o seu autodiagnóstico a formação em medicina, que não a deixava iludir-se. Padecia de hipergrafia. Desconhecia, no entanto, que tudo o que escrevia era desprovido de significado e que, de facto, era totalmente vão o seu esforço, pois ideia alguma era transmitida nessa catarse.
Dessa ignorância alimentava o seu desassossego, crente que o resultado seria nada menos que a frase perfeita. Aquela que, embora não sendo bela, seria, no mínimo, reveladora.
Fitava o escuro, por cima de si e à sua volta, os pensamentos sucedendo-se ininterruptamente:
É isto a vida sem palavras: Escuridão.
Amo Frederik, mas se não lho pudesse dizer... Se não lhe pudesse sussurrar "AMO-TE" enquanto lhe lambo o lóbulo da orelha antes de fodermos, seria como se não o amasse de todo. (Pobres dos mudos.) Foi para isso que deram ao Homem a capacidade de falar. Que os bichos se amem sem proferir palavra? Aceito. Mas é para mim, enquanto fêmea desta espécie, inconcebível fazê-lo.
Frederik olhar-me-ia indignado, com repulsa até, se suspeitasse que quando faço amor com ele, estou simplesmente a foder. Foder. Eis uma palavra com força. Nela se encerra toda a pujança do acto. Se disser "fazer amor" diluo por duas palavras o que, para mim, é uma só, repleta de solidez: foder. Não a considero vulgar, nem tão pouco indecorosa. Simplesmente intensa. Mas talvez Frederik não me possa entender e por isso, por ele, lhe digo, quando digo, "faz amor comigo".
Com as putas, que ele procura amiúde, e das quais julga que desconheço a existência, esperaria tudo menos um: "Faz amor comigo." Comigo só espera isso. Como é doce e ingénuo este meu homem.
Pois se somos animais - E simula escrever com o dedo esquerdo no ar "animais", fechando os olhos com força, como numa prece, para memorizar a palavra que daí a umas horas anotará onde calhar. São essas preocupações que a impedem de dormir a maior parte das noites. Palavras desgarradas que não pode, de forma alguma, esquecer ou deixar de registar, assim que lhe seja possível. Habituou-se à insónia, embora tema estar a prejudicar os seus fetos. - e apenas nos afastamos da irracionalidade porque existem as palavras e com essas criámos uma linguagem nossa. É no momento em que essa espécie de luta, corpo a corpo, se dá, que as palavras e a racionalidade são olvidadas e somos somente duas criaturas movidas pelo instinto. Nesses momentos, só há carne, sangue, violência, dor e prazer. E nisso, todos somos semelhantes. Julga-me melhor que as putas que compra, o meu bom Frederik. Julga-me impoluta e branda. E eu como ele, como elas, naquele momento, apenas um sedento animal. -Desenha "sedento" na barriga. - Sedento. Juntar sedento a animais. Acrescentar a palavra putas e a essas, ingenuidade. Será que me vou esquecer? Não me posso esquecer: animais, sedento, putas, ingenuidade, Frederik, Alice, escuridão, palavras, foder. Talvez fosse melhor levantar-me. Saio daqui sem o acordar, escrevo num instante estas preciosidades e volto. Durmo ainda algumas horas. Duas talvez. Horas. Acrescentar horas! Nada disto é importante, se numa palavra havia dito tudo. Preciso dormir.
Alice contorcia-se de ânsia, o estômago transido pela náusea que a angústia lhe agrilhoara à garganta. Levantar-se-ia mais uma vez nessa noite, com cuidado desmedido para não acordar o companheiro e escreveria, enquanto o suor da urgência pingava sobre a mesa da cozinha, as tiranas palavras.
Estando grávida de gémeos a psicose piorara assustadoramente. Já não se tratava apenas de noites em branco em frente ao computador. Escrevia em todo o lado. No pacote de açúcar, depois de o esvaziar no galão; no interior da sua bata branca de médica, totalmente escrevinhado; o papel higiénico enquanto sentada na sanita, repleto de palavras. Chegara a dar-se o caso de, não tendo quantidade de papel suficiente para escrever e se limpar, ter optado por escrever, desdenhando as consequências de semelhante opção.
Toda a sua roupa tinha bolsos e nesses havia sempre, pelo menos, duas esferográficas. Admitia a falha de tudo o resto, menos do veículo do seu génio. Inconcebível, não apontar os pensamentos brilhantes e profundíssimos que cria ter formulado, aquando da escrita dos vocábulos.
Frederik andava há anos a alertá-la que tudo o que fazia era escrever palavras incoerentes. Que nada daquilo prestava. Que era insano o seu comportamento. Fazia-o de forma quase cruel para que ela o ouvisse. Procurava poupá-la ao sofrimento de o ouvir por outrem. Alguém que não a quisesse tanto quanto ele.
- Canaliza essa energia desregrada para outros fins Alice! Procura outra ocupação que te realize e onde possas ser efectivamente boa. - Agora que ela ia ser mãe estava certo que o faria com rigor e exemplarmente. Seria uma excelente mãe, para os seus filhos, disso não lhe restavam dúvidas. Tentava então mostrar-lhe o que via com nitidez. - Porque não te dedicas ao quarto dos bebés? Ainda não te vi fazer nada em prol da sua vinda. Arranja o quarto, decora-o como quiseres. Compra roupinhas para eles. Sê como as outras mulheres Alice. Sê como as outras! Não compliques. E se quiseres, meu amor, conta-me as tuas ideias e eu escrevo por ti e para ti, aquilo que quiseste dizer todo este tempo e não foste capaz. Nunca passarás de uma escritora deploravelmente medíocre, e é para teu bem que to digo.
Alice arrogante e agressiva fazia pouco dele, nessas alturas. Em tom jocoso humilhava-o com palavras geladas dizendo-lhe que o que separava o êxito dele, da ausência do dela, era um órgão reprodutor, destinado à queda, ao fracasso.
Não tinha, efectivamente, consciência da sua inépcia para o ofício que acreditava aprimorar de cada vez que empunhava uma caneta ou digitava no computador.
Era deveras doloroso para o marido perceber que a mulher não acreditava em si, julgando-o, injustamente, despeitado.
Desesperado dissera-lhe que desse a ler os seus escritos a terceiros, para que esses, isentos, lhe repetissem o que tentava provar-lhe há anos.
- Só quando os passar a limpo. - Retorquia. - Não tenho tido tempo.
- Hipergrafia, Alice. Já o estudaste, sabes o que é. Hipergrafia. Acorda! Cura-te Lili. Por favor ouve-me.
Alice sabia o que era, porém ignorava que da doença nada se produzia a não ser a perene dor.
- Estou no limite. Ouves? No limite, porra! - Gritava-lhe quando o desânimo era superior ao amor. - Como é que pretendes criar o Eddward e o Kurt, dizes-me?
Ela parava e olhava o ventre desmesuradamente proeminente, acusando o término da gestação.
Haverá momentos só meus. Como hoje. Assim continuará a ser. Não serás tu a privar-me desses, não serão os gémeos também.
Frederik atormentava-se com o futuro que adivinhava tortuoso dada a crescente irascibilidade da mulher. Era penoso dizer-lhe que ela enquanto escritora não prestava, era como se lho dissessem acerca de si e da sua obra. Mas era preciso que se apercebesse da sua loucura e para que a vida pudesse ter um rumo autêntico. Alice era infantil a exprimir-se, dava erros ortográficos e gramaticais gravíssimos e inadmissíveis para as aspirações que alimentava. Escrevia febril e ele chorava sozinho e desconsolado o seu infortúnio. Esgotara os argumentos dissuasores.
Nessa manhã viu-a despir-se para tomar banho. Escondera-lhe os lápis de cera com que era hábito escrever nos azulejos. Esperava ouvir-lhe os gritos exasperados, as reclamações repletas de raiva, os impropérios. Nada.
Durante vinte minutos o silêncio fora ensurdecedor. Não fosse a água, continuar a cair irregularmente, interrompida pelo corpo de Alice e respectivos movimentos e Frederik julgar-se-ia só em casa.
Sentou-se sobre o tampo fechado da sanita verde, encarando o cortinado opaco com os olhos mortiços. Não ousou chamá-la, limitando-se a aguardar. Pela primeira vez tinha agido de maneira concreta para a impedir do delírio. Iniciara nesse dia a oposição derradeira. Não mais seria benevolente ou permissivo. Era porque a amava que agia assim.
Alice abre a cortina e como invariável e instintivamente o marido observa-lhe os seios antes de lhe perceber qualquer outra parte do corpo.
Horrorizado constata-a raiada de sangue. Alice havia utilizado a lâmina da gillette com que se depilava para escrever na barriga.
(HELP)
(Maybe to be continued, or maybe not.)
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