terça-feira, 7 de agosto de 2012

 

INSTANTÂNEOS XVIII

Abandonou-lhe os heterónimos que ficcionara, dedicando-se inteiramente ao ortónimo. Quando percebeu que o havia inventado também, matou-se. Pediu uma bica, despejou-lhe um pacote de açúcar, todavia, o acre persistia. Era a língua que lamentava ver-se enrolada, asfixiante, impedida do beijo que outrem não lhe prometera.

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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

 

INSTANTÂNEOS XVII

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

 

INSTANTÂNEOS XV

- Por aqui?
- Pois. Moro por estas bandas há 20 anos. E tu?
- Há nove. A Helena?
- Está bem. Obrigado. E a Olímpia?
- Também.
- Estás com bom aspecto! – Voz tremente.
- Obrigado. Tu também. – Olhos a fugir-lhe para o rio.
- Adeus então. Gostei de te ver!
- Adeus. – Calou a saudade e o espanto. O frio que o trepou de repente. Como? O impermeável fechado.

Prosseguiram, lado a lado, com sorrisos bonitos, que desenhavam vazios do passado comum. Pareceu-me vê-los de mão dada, quando eram já 132 os metros que os apartavam.

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terça-feira, 21 de junho de 2011

 

INSTANTÂNEOS XI

Ia mais do que uma vez por dia à caixa do correio na expectativa de receber a sms que ele não enviara, porque apenas se permitia escrever e-mails. (Disso ela não sabia.) Entristecia-se amiúde por não saber ler. Fechava a porta da rua atrás de si, subia até ao apartamento e chorava lágrimas de ignorância, enquanto ele premia botões que não lhe estavam destinados.

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sábado, 5 de março de 2011

 

INSTANTÂNEOS VII

Agora que sabia coisas dele perdera o interesse.
Não se abismava ante a personagem. Era apenas mais um homem entre tantos outros. Esquecia-se amiúde de o visitar e quando o fazia o tédio assomava-se-lhe aos pulmões e ela corria para a janela abrir a boca e as narinas para que o ar entrasse convenientemente.
Agora que sabia coisas dele, já não o desejava tanto. Não o desejava de todo. E se o desejara quando ele era um estranho. Tinha tido, por diversas vezes, a sensação de estar a enlouquecer de tanto querê-lo. O tempo passara e ele era, afinal, tão só um homem, o que não era o bastante para que se sentisse intrigada. Impelida para ele. O facto de ter aprendido mais sobre o homem não ajudou. Fê-la esfriar e realizar que também ela não passava de uma mulher. Uma mulherzinha muito exigente com os outros e pouco consigo. Não gostava da realidade. Gostava menos ainda das coisas apreendidas sobre ele que lhe lembravam as dela. Para quê saber da humanidade? Ná. Aquilo parava por ali.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

 

INSTANTÂNEOS VI

Sabia definir o momento em que se apaixonara por ele. Era uma tarde de Verão e tinham sido recrutados, pela grande amiga comum, para tomarem um café, enquanto ela matava saudades de ambos. Depois de o deixar em casa, ainda mal o conhecia, ele ficara de porta entreaberta aguardando a sua inversão de marcha e a passagem defronte. Sorriu-lhe. Ela acenou-lhe e soube que era ele. Assim, sem mais.

És tu.

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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

 

INSTANTÂNEOS V


Naquele momento encarava-o graças à miopia e ao astigmatismo.

Não era com coragem que lhe sustentava o avassalador olhar.

Antes com dioptrias e alguma irresponsabilidade.

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terça-feira, 27 de julho de 2010

 

INSTANTÂNEOS IV

Sentia saudade imensa de quando ouvia a música que aquela pessoa escolhia. Não para si, é certo. Seleccionava-a, todavia, e isso era quanto bastava. (Era tudo.)

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sexta-feira, 23 de julho de 2010

 

INSTANTÂNEOS - III

Viu-o.

Atravessou-se-lhe numa passadeira.

(Ignorando-a atropelada no interior da viatura tão perto imobilizada.)

Era ele e não era.

(Despido do seu desleixo habitual.)

Também ela era e não era.

(Já muito distante do que um dia fora nele. Demasiado cheia de impossibilidades.)

(Ele também. Mas isso ela não sabia.)

A obsessão, contudo, ainda a assolava, qual doença insidiosa.

Alimentava-se-lhe das entranhas.

Como um cancro.

Maligno?

Benigno?

(Pouco importa. Cancro: Agente de destruição lenta e silenciosa. Diz o dicionário que não consultou.)

Ia bonito ele.

Ao almoço, empurrou a angústia da garganta deglutindo o seu prato predilecto: caldeirada de peixe.

(Ia tão bonito.)

(Ele.)

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terça-feira, 13 de julho de 2010

 

INSTANTÂNEOS - II

Dirigia-se à bomba de sempre, por ser perto e pela comodidade de colocarem o combustível por si. Ele alegrava-se quando a avistava e corria para poder atendê-la antes de qualquer colega. Apesar da aliança no seu dedo - O anelar ocupado era dele. - e disto não acontecer tantas vezes quanto desejaria. Ela não dava pelo olhar terno e esperançoso; ou pela invariável carícia ao polegar, enquanto se demorava a tirar-lhe a chave da mão; tão-pouco notava o que lhe diziam os olhos dele, enquanto aguardava ouvir o que já sabia de cor: São 35€ de gasolina sem chumbo. E mais tarde um: "Obrigada." seguido de um tímido sorriso.

Eis as únicas palavras que lhe ouvia que, todavia, soavam como a mais doce declaração de amor.

Poder-se-ia saber em que pensava a miúda, invariavelmente, habitassem estes dois uma tira de BD:

"É que é mesmo, mesmo parecido com o Simão Sabrosa caraças."

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terça-feira, 29 de junho de 2010

 

INSTANTÂNEOS - I

Até ao último fôlego reservou os primeiros momentos do acordar do dia, quieta, perscrutando a penumbra do quarto e envolvida num calor que não vinha dos cobertores, àquele que acontecera não lhe ter acontecido.

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