A vida é fingimento. «O chão dos pardais» - Dulce
Maria Cardoso (1964), Edições Asa, 2009 - acorda-nos para a terrível
constatação. Não saberemos como fugir-lhe.
Alice finge que é criança habitando castelo de
sonho, em conto de príncipe e princesa com o marido Afonso. Este recusa a
velhice e simula juventude. Patrocina pesadelos disfarçados de histórias de
encantar a jovens mulheres. Sofia é uma delas e muito bela crê que os sonhos se
concretizam em hotéis de luxo, jóias caras e viagens longínquas que a levam
para lugar nenhum, que não avassaladora escuridão por demais distante do seu
genuíno amor, Júlio.
Manuel e Clara são os filhos a quem Alice já não
sabe como demonstrar o seu amor. Díspares das «crianças louras com sardas» de
outrora, imaginadas perfeitas. O primeiro perde-se nas horas em frente ao
computador nutrindo romance virtual que o redime da sentença, num caso de
negligência médica, que lhe pende sobre o futuro. Clara oculta, tanto quanto consegue,
a paixão pela empregada Elisaveta. Foragida de Viltz conheceu a fome e o frio
no corpo e finge desconhecer o «tremer bom» que a proximidade da descendente
lhe provoca.
Eugénia não existe. Nasceu num quarto dos fundos
qual sombra da luminosa Alice. Fadada para a serventia, para um não-lugar no
país das maravilhas da patroa.
Gustavo é o biógrafo contratado para elaborar a
prenda perfeita para o sexagésimo aniversário de Afonso. O grande sucesso da sua
carreira fora assegurado pela biografia não real de um coronel fictício. Quem
melhor para escrevê-lo(s)? Recordação ideal para uma festa preparada ao detalhe
pela esposa dedicada.
Júlio deitará por terra tais aspirações. Sendo o
único disposto a viver em inteireza e
uma vez ferido pela mentira, pertence àquela minoria que não teme pagar o cru e
oneroso preço da(s) sua(s) verdade(s). A festa tornar-se-á memorável, todavia,
não como premeditara a anfitriã.
Feita de pessoas como nós, em mentiras como as nossas,
a narrativa evolui tendo como pano de fundo a morte da princesa Diana de Gales,
sussurro contemporâneo da infelicidade mascarada.
Todos sabemos do desacerto entre o que somos dentro
e o que fazemos fora, como o relógio do aparador na sala de Alice «que nunca
conta o mesmo tempo dos outros relógios» (pág.10) e que «O tempo trabalha a
favor das fraudes. É sempre preciso que alguém queira saber o que se passou. E
ninguém quer.» (pág.222)
A realidade é, amiúde, insuportável.
150 BPM – Um volume
imperdível de uma escritora admirável. Adquiri-lo numa pequena livraria, como a
“Pó dos Livros”,
por exemplo. Emprestá-lo uma vez lido, para que não se quede esquecido numa
estante.
PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI: http://geracao-c.com/conteudo.aspx?lang=pt&id_object=12468&name=O-chao-dos-pardais-–-Dulce-Maria-Cardoso,-por-Andreia-MoreiraEtiquetas: ESCRELER, Escritoras, GERAÇÃO-C, Literatura, Sugestões
# Ideia partilhada por Andreia Azevedo Moreira @ 18:07
