quarta-feira, 20 de abril de 2011

 

Texto criado para o blogue do ALA que entretanto se finou (o blogue, não o senhor graças a deus)

Sábado, 4 de Setembro de 2010

As piscinas com pé do ALA
 
Quando leio sublinho. Há uns dias, na praia, uma menina à minha frente lia. Dizia o texto em surdina enquanto o percorria com os dedos, como quem tacteia para reter nas mãos o que os olhos lêem. O meu palpar é a carvão. Frase que me enleie, impedindo-me de prosseguir na leitura, é feita refém. Viro o feitiço contra o feiticeiro, assim que me asseguro que já não a perco. - Um pavor de esquecer as ideias tão boas que me chegam ao entendimento. - Ainda que muitos anos decorram, folhearei o(s) livro(s) com a certeza que recupero as preciosidades aí encontradas. Assim tenho enriquecido.

Quem costumo sublinhar obstinada? António Lobo Antunes, pois. Esse homem capaz das mais definitivas frases - “Não se desce vivo de uma cruz.” - que nos soam ao mais belo poema. Haverá alguém apto a responder-lhe depois de tamanha sentença? Duvido. Nada podemos acrescentar. Já está lá tudo. Limitemo-nos a ler. Sentir. Agradecer tamanho privilégio. O António mostra como é. Nós, com sorte, conseguimos ver.

Ler os livros do ALA é como entrar no mar com a bandeira vermelha. Desconhecemos se regressamos com vida. Arriscamos, ainda assim. Ele sabe disso. Talvez por isso tenha afirmado um dia* que as narrativas que publica na Visão são como piscinas para crianças, porque não se perde o pé. É certo que não, António. Não me afogo, como no oceano revolto dos seus livros, antes chapinho qual catraia inteira. Sou tão feliz nessas suas águas paradas, contudo, tão limpas. Às vezes, tenho de deitar fora as revistas e passo horas salvando-lhe as crónicas. Estão ali à mão de reler.

Esta semana guardo mais uma: “JANJÃO” (Visão n.º 913) a qual clamo aos leitores deste blogue que se apressem a ler. Não a sublinho. Arranco-a, dobro-a em quatro e conservo-a junto ao peito. É maravilhosa. Lá me encontrei e àquele que me morreu sem que o seu corpo tenha perecido. Revisitei o perdão em cada palavra. Permaneço de joelhos no chão e com o rabo nos calcanhares mirando-vos - A si e ao seu Janjão no divã. - comovida, desde esta manhã em que vos v(l)i.

“Claro que herdei alguma coisa dele: a solidão feroz, a capacidade de ser horrivelmente desagradável com os outros, os caprichos não tão incompreensíveis quanto isso, apenas defensivos, a agressividade injusta, o receio que me toquem demasiado fundo e fique tão sem pele, tão vulnerável, tão à mercê dos outros.” (Pág.11 – Visão n.º 913)

Se soubesse quantos de nós (e somos tantos) buscamos ávidos estas crónicas, jamais ponderaria abandonar-nos. Deve-nos essa parte de si. A simplicidade. A beleza. A honestidade com que escreve. Deus, se Existe, não lhe deu este ofício à toa. Cumpra o seu dever, António. Construa-nos piscinas com pé o resto da vida.

(Obrigada.)
Andreia Azevedo Moreira.

* Café com letras, na biblioteca de Oeiras, em 29 de Outubro de 2008.

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

 
Ontem fui ao lançamento de SÔBOLOS RIOS QUE VÃO.

Eis que me debato com a folha de papel. Não em branco. Antes garatujada de tópicos para vos contar o máximo do que retive ontem pelas 19h da tarde. Sei que quem não pôde comparecer gostaria de ter estado presente. Espero trazer-vos um pouco do que lá se viveu.

“Sôbolos rios que vão.”

Vai doer-me este livro. Vivi de perto a agonia, fez um ano há pouco. (Ontem ainda.) Tenho-o aqui ao lado enquanto vos escrevo, certa que quando o abrir me quedarei refém. Adiante.

O Museu da Água, local escolhido para o evento, quero crer não inocentemente, dada a alusão ao elemento de que o título se compõe, é um espaço de particular beleza, ideal para acolher o lançamento destas palavras do António. Encontrava-se repleto das gentes que o estudam, o admiram e lêem. Também dos seus pares. Tenho ido espreitá-lo em diversas ocasiões e é sempre comovedor o silêncio que se instala quando entra numa sala que o espera. É um momento solene. O respeito que sentimos pelo gigante da escrita a mandar-nos calar, que não tarda o escutaremos.

“Não sei se me ouvem. Falo baixo.” – A frase tão dele, que já conheço de cor e que a cada vez proferida me enternece. Não me canso deste homem. Estava conversador. Uma delícia. Contou-nos mais de si e dos seus.

Do tio Elói (Escreve-se assim? Terei ouvido correctamente?), filho de uma senhora importante de Pombal, a quem ele e os irmãos chamavam avó Bi. (Era Bi? Ou Pi? Não sei.) Mulher de porte imponente, chapeuzinho com véu e diabética, o que ainda garoto se lhe afigurou como nobre característica. Que maravilha este pedaço da sua história. Este não ter pudor em contar-nos das dietas desta avó, análogas às dos padres, que se coibiam de comer, mas não de ir com as mãos pelos calções dos meninos acima. Avó Bi (Pi?) que se alegrava pela deferência com que o merceeiro a tratava enquanto lhe acrescentava dígitos à conta. Disse que se sentia assim com a apresentação do Professor José Gil. Como se “por ser para ele” lhe tivessem dado mais do que merece. Justíssimas palavras, sabemo-lo. Destaco-a igualmente. O tempo certo para dizer o principal, com palavras ao alcance de todos. Nada de linguagens herméticas. Menos é irrefutavelmente mais.

Continuámos a ouvi-lo enquanto se nos entregava.

Aos oito anos já escrevia. Nessa tenra idade interrogava-se sobre si, a sua vida, o sentido de tudo. É-nos, de facto, caro, encontrar um sentido. Que admiração nutro por ele, se tão cedo na existência sabia, com as entranhas, aquilo para que havia nascido. O quanto se aprende a ouvi-lo. Ele que escreve porque quer ser capaz de dizer “o que se perdeu”. Como aquela aurora da praia das maçãs que deixou escapar, sem conseguir captar no papel. A imensa distância entre a emoção e o que fica nos manuscritos e que só o trabalho reduz. Tudo palavras dele. Poder-vos-ia falar dos outros exemplos, como as suspensões triplas de Paganini, todavia, de todos esses, a tal aurora da praia das maçãs foi a que mais me tocou e levou a entender o que me (nos) queria dizer. Revisitou o tema da obra e das personagens que sobrevivem ao autor.

Deteve-se, como sempre, nas citações, nas referências aos autores que lhe são mais queridos. “Hoje estou cheio de citações”, gracejou.

Hoje António? São parte do seu encanto as frases desses nomes que nos habituamos a ouvir-lhe. Sim, embirro com citações. Já se sabe como são os humanos. Facciosos. A uns nada perdoamos. A outros… Nele estimo essas constantes alusões. Fala em Horácio e aponto. “A ler.” Menciona Dickens e acrescento à lista “A ler.”. Tchekhov? Em atraso. Ler. Diz que deixamos de gostar de Rilke quando crescemos e interrogo-me: Terei permanecido criança meu Deus? E a falta de tempo que o angustia por não saber quantos mais livros negociará com a morte, a mim apavora, porque tenho certo que não terei tempo para apanhar tudo quanto me falta aprender. Ao ouvi-lo disponho de selecção daquilo que não posso ignorar.

Perto do fim a mensagem condoída. Em Portugal a cultura ainda se encontra imersa em intolerável indiferença. É essa que define a importância de um país e ele, embora orgulhoso em ser Português, revolta-se com tamanho marasmo. Não se releva a cultura. Promove-se o mediatismo em detrimento do talento, do trabalho. O superficial supera a densidade. A perspectiva de um qualquer jovem autor, de qualidade, editar um primeiro livro é, praticamente, nula. Assim anda a literatura. Editam-se demasiados livros, sem tempo para respirarem. Muitos desprovidos de fôlego, duram menos do que uma estação. Não é isso um bom livro. Um bom livro não se pode ler num dia. (Palavras dele, isto tudo. Com ele aprendo a roubar o que me pode servir a escrita.) Um bom livro é parecido connosco e apodera-se de nós, como nos apoderamos dele. Com um bom livro conversamos, num diálogo ininterrupto, que começa depois de o acabarmos e ler de peito aberto é a única maneira de o fazer.

Não houve lugar a autógrafos. Anda cansado. O próximo livro tem-lhe colocado grandes desafios. Doze horas diárias de trabalho em volta de uma menina de cinco anos que fala por três vozes. Não se tratou de lamento. Não lhe podemos adivinhar o esforço quando o lermos. Se tal acontecesse significaria que havia falhado. (Impossível, claro está.) Para autógrafos teremos o El Corte Inglês e a FNAC do Chiado, em breve. Talvez dê lá um salto. Não por causa do autógrafo que é provável que não lho venha a pedir, antes para o ouvir outra vez.

Agradeceu à editora, Maria da Piedade, tomar tão bem conta dele. Ao Professor, a apresentação. Aos restantes a presença.

Quanto a mim temo este romance. V(L)erei Senhor Azevedo, muitas vezes, nas suas páginas. Desconheço para quando a coragem para falar com ele.

"Como se houvesse morte e não há."

Partilhei convosco o que apreendi, na esperança de vos fazer sentir que afinal puderam comparecer. Perdoem se a minha percepção adulterou a realidade.

Um abraço.


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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

 

Vai de maneiras que me chegou à mão (esquerda) e fiz-lhe um "prafrente"

(forward em estrangeiro)

Carta de um(a) leitor(a) anónimo(a) ao António:

Querido António,

Há uns dias fui ver o filme do Desassossego do João Botelho, baseado no livro com o mesmo nome, do heterónimo pessoano Bernardo Soares. Antes de qualquer interpretação do que visionei, sobreveio a angústia que fui alimentando à medida que a película se desenrolava defronte.

De que serve a Fernando Pessoa o reconhecimento actual do seu génio?

Eis a pergunta que ainda me martela no pensamento. Que (lhe) importa que o admirem, se, à data, a existência tamanho padecimento? No seu tempo, poucos o reconheciam deveras. Aprendi-o numa aula de Primavera dedicada à Literatura. Atormentava-o a negligência a que se encontrava votado e simultaneamente, assegurar que o trabalho que lhe constituíra toda a vida permanecesse. Não sentia que a posteridade estivesse garantida e queria-a. Merecia-a. Morreu sem o constatar. Perdoe o exemplo que, bem sei, o aborrece. Era o que tinha à mão para principiar esta missiva.

Criticamos amiúde que os talentosos não sejam reconhecidos quando ainda respiram. Abominamos que sejam tecidas homenagens e atribuídos prémios a título póstumo e o António tão estimado obstinando-se com um porvir onde não morará, a não ser nos livros que escreveu?

Atesto-o do que li na entrevista que concedeu à Ana Soromenho e ao José Mário Silva (Revista Única - #1981, Pág. 43-50); do que diz esta semana na Visão (#920, Pág. 16 e 17), na sua “Conversa em família”; e de quando o ouço atentamente em cada vez que consigo ir espreitá-lo em carne e osso. Compreendo a preocupação. É justíssimo que a Obra permaneça indelével. A sua feita nossa “casa de palavras”, qual legado para a Humanidade. Não duvido que assim será. Tem noção que já se inscreveu na eternidade, - Está melhor que Pessoa, já viu? – apesar de os exemplos dos “esquecidos” serem inúmeros. O lugar na história da Literatura ninguém lho tira. Falemos, então, do presente.

Hoje é lido. Aclamado. Actualmente ainda lhe bate um coração no peito, que pode pulsar célere de desmedida alegria ou abrandar de tristeza. Hoje o pensamento ainda se lhe situa no crânio, permitindo-lhe a ternura e tem o privilégio de se sentir realizado com o que é. Sabe melhor do que eu (Já viveu (n)um limite.) que só possuímos a fracção de tempo a que chamamos “agora”. Portanto discordo de si quando diz “esta segunda morte, a daquilo que dedicaram a vida, é bem mais horrível que a primeira.” Quem de entre todas as pessoas que AGORA o podem ler estará cá nesse dia tão remoto? Ninguém. Onde andará a sua alma para se escurecer com essa hipotética morte da criação? Não sabemos o que há para lá deste corpo que nos acolhe o espírito. Somos, igualmente, incapazes de assegurar por quanto tempo existirá este planeta, ao ritmo a que o destruímos. Sendo assim, António, creio que só podemos falar, com propriedade, do “já”.

Neste segundo em que lhe escrevo asseguro-lhe o que está ao meu alcance, enquanto elementar criatura:

Ainda conheço mal os cantos à sua (nossa) “casa de palavras”. Chegou-me às mãos, como todos os momentos inolvidáveis, por um acaso. Uma oportunidade concedida e que repetirei, voluntariamente, desse dia até ao meu fim. Às vozes pressentidas aprendo a conhecê-las e fá-las-ei minhas, conforme é um seu desejo que acato como se meu. Tenho certo que serei feliz em qualquer assoalhada que erija. Sou uma partícula de pó nesse universo incomensurável de pessoas que o apreciam, o estudam e lhe devotam a atenção que é sua por direito. Rogo-lhe que não se apoquente com o que ninguém contemporâneo viverá para assistir. (Quase ingratidão fazê-lo.)

Cito Marguerite Duras:

(Eu que até embirro com isso de as pessoas se validarem citando terceiros, como se o que dizemos nunca possua a robustez bastante para que nos ouçam. É necessário citar outrem, de preferência um morto ilustre...)

Era preciso prevenir as pessoas destas coisas. Ensinar-lhes que a imortalidade é mortal, que ela pode morrer, que já aconteceu, que ainda acontece. Que não se anuncia enquanto tal, nunca, que é a duplicidade absoluta. Que não existe no pormenor, mas apenas no princípio. Que certas pessoas podem dela transportar a presença na condição de ignorarem que o fazem. (…) Que é enquanto ela se vive que a vida é imortal, enquanto está em vida.(O Amante – Pág.89)

HOJE os seus livros são imortais. Para si, para mim, para os académicos, para os críticos, até para os que nunca o leram. Imperecíveis.

O futuro não é seu António.
Não é nosso.

O “Amanhã” não existe.

Um forte abraço de um(a) seu(sua) leitor(a).

PUBLICAÇÃO ORIGINAL AQUI.

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sábado, 4 de setembro de 2010

 
Vocês já me vão conhecendo. Sabem que sublinho os (meus) livros. Pois no “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar” umas das muitas frases que se me entranhou dizia:

“(…) tudo o que vive oculto e se manifesta sem ruído me intriga.” (Pág.269)

Curiosamente não a sublinhei. Coloquei um asterisco perto e na página da esquerda, em branco, resolvi-me, como se pudesse decidir o que já era:

Viverei oculta e manifestar-me-ei sem ruído.

(Eis o modo de ser em que me sinto melhor.)

Não espero, por conseguinte, que dêem por mim. Calcularão o assombro que senti, regressada de férias, ao receber um e-mail do José Alexandre Ramos dizendo que me lera no Geração-C e que vinha desafiar-me a integrar a equipa do blogue dedicado ao António Lobo Antunes (ALA) e à divulgação da sua vida literária.

Se me acagacei? Pois claro. Pu-lo imediatamente a par do atraso que tinha, face aos restantes elementos, no que toca ao conhecimento da sua obra. (E não só.) Reafirmei, contudo, a minha sentida paixão e que a vontade de saber mais é, de facto, imensa.

(Levou-me para perto deles, apesar da ignorância.)

(Sou leitora, não sou? Chega-lhes.)

Fiquei feliz. Vocês sabem lá como isto me trouxe alento, num momento em que temo que a vida se me altere para sempre e me esqueça de quem tenho sido, eis o sinal que precisava para saber que as coisas andarão sempre pelos caminhos que quiser trilhar.

(Apesar do que T. virá fazer em mim e que ainda desconheço.)

(Aguardo-o serena, todavia, num misto de felicidade extrema e receio.)

Com estes sopros da vida reforço a crença que persistirei, pois, em ser o que sempre fui:

'Escreleitora'

(Ai meninos que palavra horrível, bem sei. Perdoem.)

E que só não faço/atinjo o que não quero. Dependerá, sempre, da minha VONTADE.

(E se eu a tenho aos molhinhos.)

Agradeço ao José e aos restantes elementos terem-me acolhido AQUI. Darei o meu contributo o melhor que posso e sei. Farei por não os deixar mal, nesse espaço que vêm alimentando com tanto empenho.

Os companheiros de blogue:

António Bettencourt
António Carlos Coelho
Bruno Carriço
Ismahêlson Luiz Andrade

José Alexandre Ramos
José Roldão
Maria Celeste Pereira

Paula Dias
Sofia Cunha
Teresa Brandão

Obrigada a todos.

Quanto a vocês? Visitem-nos!

Aquele abraço.

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quarta-feira, 21 de julho de 2010

 

Ah e tal tinhas de levar a tua paixão pelo Sô ALA p'ra GERAÇÃO-C e quê.

PUBLICAÇÃO DAQUI...

Proponho-vos um desafio: ler António Lobo Antunes (1942). Não se riam. É caso sério. Desistem assim sem uma tentativa, pelo menos? Vão estranhar se nunca o leram, é certo. Estou segura, porém, que uma vez enredados jamais o quererão abandonar. É um dos geniais autores portugueses cuja obra completa tenho, a par de outros tantos, a aspiração de conhecer inteiramente. Se tiverem em conta que uma existência não chegará para ler tudo quanto almejamos, conceberão quão grande é a atenção que lhe pretendo devotar durante esta vida (de livros).

Chegassem estas linhas aos seus olhos e discordaria de cada uma. Divino, remoto, do fundo dos seus olhos azuis implacáveis, condenando-me o atrevimento. Tenho sorte. Não o ofenderei, decerto, com a percepção que guardo desta sua Obra (Edição em 2009). Quanto a vocês, já que aqui estão, percam mais uns minutos comigo e depois apressem-se a lê-lo se vos consegui cativar.

Que somos senão abismos? Derrocadas pessoais. Desmoronamentos às prestações. Frustrações e perdas. Uns mais afortunados que outros, ainda assim, que é a vida se não o caminho que trilhamos inexoravelmente para a morte, quais condenados? “Que negrume…”, dirão. Não é optimismo o que encontrarão na narrativa que proponho. Tentava tão só preparar-vos. É possível tanta desgraça numa só família (de origens Ribatejanas)? Neste livro é. E, apesar de toda a dor e de toda a miséria humana retratadas, há beleza imensa a perpassá-lo. Como se fora possível sentirmo-nos bem - Em êxtase, até. - mergulhados numa tristeza profunda, definhando.

Ler este autor é como nadar contra a corrente. Esbracejamos, ofegamos, perdemos o pé. De que nos serve defrontarmos o mar? (A sua desmesurada força.) Na iminência do afogamento, há que permitir que as ondas nos devolvam à costa. É então, quando nos deixamos guiar, flutuando nas palavras deste Mestre da escrita, que nos salvamos e simultaneamente nos perdemos. Já o li sem nomes para as vozes que habitavam o romance. Tarefa hercúlea manter-me à tona. Admito. Neste, porém, (re)conhecerão as personagens, sentir-lhes-ão o pulso, alcançarão porque acabaram, ou imaginarão como hão-de recomeçar.

Ana, João, Francisco, Beatriz, Rita, Mercília, Pai, Mãe (Maria José Marques)…

Cancro, toxicodependência, desamor, prostituição juvenil, sida, subserviência, escolha, desistência, mágoa, loucura, ausência, violência, desgosto, abusos, traição, medo, abandono, ingratidão, confissões, lamento(s)…

…«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»…
…«(…) vai morrer às seis horas»…

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

195 BPM – Enlevo total. A adquirir e reler. Sugerir a leitura.

NOTA: Não quero deixar de referir que, apesar de tudo quanto o livro encerra e que venero, abomino as alusões às lides tauromáquicas. Mas isso são já outras convicções que me habitam e que nada têm que ver com literatura.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

 
O ALA escreveu-me um poema. Poderá não estar ciente disso, todavia garanto: escreveu-mo. Encontrei-o no entremeio do que vocês chamam livro e eu chamo poema (ainda) maior.

(Ó ALA não me processe por isto pá que sou pobre em ouro e isto foi culpa sua, por escrever a falar-me tanto...)

E vai de maneiras que se chama assim o poema que ALA escreveu para mim:

Despeitada por o mundo continuar sem ela

And it goes like this:

Escutava os passos do meu pai na sala de jantar a detestá-lo por me desarrumar o passado.

- E se não fui eu?
Nunca vi uma pessoa a ocupar tão pouco espaço como ele nessa tarde

(quase tudo se passa em silêncio na vida, mesmo os gritos)

- Não lhe notas uma diferença nos olhos?

o cancro que afirmava não ter
- Não estou doente
que até ao último dia afirmou não ter num terror que dava impressão,
numa certeza que dobrava a impressão
- Estou melhor

máscaras que se tornam pele

um soslaio inesperado, você até ao último dia a procurar entender
- Porque me olhou assim?

ponha a carta no correio mesmo sem nome nem endereço,
há milagres, pessoas que voltam depois de amanhã,
para a semana, um dia e resta a esperança que ajuda
e uma vozinha no interior de nós a cantar

compro um buraco longe onde não saibam quem sou
e meto-me lá dentro até ao fim dos meus dias
a iluminar o escuro com a raiva dos olhos

- Amanhã é tão longe

(Houve Natais antigamente)

- Para que prestas tu?

gosto e não gosto de si
(como se põe isto por escrito?)

(não imaginava que houvesse tanto sofrimento no êxtase, que estar no céu fosse um incómodo assim)

as metades de um brinquedo quebrado
que por mais que insista não se juntam nunca

falecemos com a morte dos outros

o abandono de certas coisas aflige-me

passarei de criança a decrépito sem ter crescido nunca

todos gritamos em vão dado que ninguém acode

não esmoreças, não divagues, não tentes escapar com artifícios vulgares

só é aleijado quem quer

de quem herdei este desacerto com o mundo

que vidas as pessoas têm meu Deus, o que os sorrisos escondem

há ocasiões em que a gente, pensando-se felizes, se distrai de nós mesmos

há alturas em que uma pessoa se acha esquisita sem dar por isso
ou então sente um incómodo sem importância nem lágrimas
embora não distante delas

nasci esquisita desculpa

Trechos retirados de: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar." o qual recomendo vivamente. A pessoa começa a ler, sente a cadência das ondas (que é como quem diz das palavras) e já não consegue sair sem se afogar. É uma morte doce como quem nasce de novo.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

 

Eu sei...

Que o Lobo Antunes isto e aquilo.

Que o Lobo Antunes arranjou meia dúzia de frases belíssimas que repete exaustivamente. (E de cada vez que o faz eu gosto.)

Que o Lobo Antunes recorre em demasia às citações. (Ou pelo menos assim se me afigura.)

Que o Lobo Antunes se acha o maior e depois diz que não, que está só a começar. Que nada sabe da escrita.

...isso tudo.
Sei destes (aos olhos dos outros) defeitos e apesar dos apesares adoro-o arrebatadamente.

Adoro o António Lobo Antunes. (Estou a gritar-vos isto. Vocês não vêem mas creiam que estou.) E só não digo que o amo porque para isso teria de saber mais da pessoa. Não se ama assim alguém por dá cá aquela palha. (Qual palha perguntam vocês. E eu respondo: Eu cá não sei, que não fui eu que inventei e não sou culta para saber quem de direito, ou se é um dito popular anónimo).

O raio do homem encanta-me pá. Ele entra na sala e enche-se-me o peito.
Ó António filho não sei se já chegaste ao coração da vida, ou ao coração dentro do coração, mas ao coração da Deia sim. És lindo. (E quando digo "lindo" não me refiro ao físico, embora tenhas aí um quêzito agradável, mas sim ao personagem que criaste para nós.) Fazes-me rir e sabes que eu gosto disso num homem. Num escritor então. Ui.

(Depois te porei a par do que penso deste "Que cavalos são estes que fazem sombra no mar?" Mas António, avanço já que começa mal, se mete corridas de touros e quê.)

E perguntam vocês: E livros deia? Isso é tudo muito bonito mas que livros leste dele?

E eu que nada vos escondo vos digo, sem qualquer pudor, que só li o "Ontem não te vi em Babilónia" e tenho ali na estante o supra-supracitado e o "Os Cus de Judas." E ainda não os li apenas porque este meu adorado tem mau feitio e ainda ando a digerir o primeiro do parágrafo presente. Ok?

Vá então.

Post scriptum

a) Ah é verdade. Obrigada pela frase do Einstein: "Deves fazer as coisas o mais simplesmente possível, mas não mais simplesmente que isso." Grande frase. Gosto.

b) Não me venhas com resmunguices que nada sei sobre ti para te admirar, e que o que te interessa é que eu leia os livros e as palavras e o silêncio no entremeio dessas, que ainda há bocadinho te ouvi dizer que admiras o Tony Carreira sem nunca lhe ter ouvido uma canção. (Já te li um livro.)

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

 

Acerca do "ressabiamento"

Claro que eu gostava de afirmar à boca cheia, plena de orgulho por conseguir ser assim, que sou imune ao "ressabiamento". Obviamente gostaria de me ver limpa de semelhante sentimento, infame, quando penso nele a frio. Mas a quente, a quente, tenho dois "ressabiamentos" que volta e meia me revolvem as entranhas e me possuem, fazendo de mim alguém irascível. (Talvez estejam neste momento a pensar não ser possível estar a falar de mim. A "boazinha vermelha" - epíteto carinhosamente atribuído pelo Guinho que me comparava ao Capuchinho vermelho, mas em versão otario/subserviente.)

Um deles é viver a fazer de engenheira florestal, não o sendo verdadeiramente. Não o sentindo como sendo algo que é meu, que me constitui, que me satisfaz ou preenche.

O outro é este:

Nota: Com "O outro" quero dizer o não entender as pessoas que me digam "Não tens legitimidade para existir dessa maneira". Não tenho porquê? Pergunto. Há espaço para muitos grãos de areia nesta terra. Digo eu.

Uma (a minha) perspectiva sobre o ALA:

O ALA é aquele avô ranzinza a quem perdôo tudo o que diz. Não por ser demasiado permissiva (ou mesmo submissa diante do génio) mas porque se assim não fosse, não seria o “meu avô” ALA. É um homem tímido (parece-me), receoso do contacto com “os outros”, facto que disfarça com caretas e trejeitos, com tiques que se assemelham ao à vontade que se tem apenas entre amigos. Talvez a familiaridade fosse dirigida apenas ao CVM. Deu-me uma imensa vontade de rir a cara compenetrada do CVM pensando possivelmente “Só espero que isto corra bem” (pareceu-me vislumbrar algum nervosismo. É natural. O meu avô ALA não é fácil). Inúmeras vezes ao longo da noite o sobrolho soerguido que a mim gritava “Quê pá?” mas pretendia ser um “Oh claro que sim. Estou mesmo a ver/sentir tudo o que diz. Não, não estou perdido no emaranhado de palavras que lhe sai da boca”. E ao meu avô ranzinza não se pode dizer o mesmo que se diz aos restantes, a nós comuns mortais. O que é para nós, não é para ele. E um atrapalhado (Pareceu-me. Ou seria encantado?) CVM dizia “desamigos” para não proferir “inimigos”, dizia “vozes” em vez de personagens, “livro” jamais (!) romance, porque para o meu avô ALA nada pode ser o que é. É sempre tudo “OUTRA COISA”. A literatura? É “OUTRA COISA”. Não isto que andamos a ler. Os lixos que hoje se publicam. Aspirantes a “escritores” (Que jamais o serão: “uma coisa é escrever livros outra coisa, lá está, é ser escritor.) enviam-lhe os seus manuscritos (doce ingenuidade de que já fui também acometida) na esperança de uma mão amiga. Mas ele desdenha. São na maioria muito maus. “Uma merda”. Oh avô não fale assim das pessoas que lhes fere os sentimentos. Pensa ele, que todas essas pessoas querem apenas ser FAMOSAS. Pensa ele que poucos nasceram com essa premência, com essa maneira de SER. Apenas dois, máximo três no nosso país se podem dizer escritores. Apenas dois, máximo três pertencem a essa casta superior. Avô: a literatura, essa “outra coisa” de que tanto falas, não estou certa de saber o que é. Não te levo a mal que ostensivamente mo mostres, me dês conta de forma quase cruel da minha ignorância. Não te levo a mal porque vá-se lá saber porquê adoro essa tua maneira de ser. Fazes-me rir no meio de toda essa sobranceria que não posso garantir seres tu mesmo, ou uma máscara que colocas para os “outros” que te deixam desconfortável. O meu avô ALA é tudo menos linear. Não fossem as crónicas da Visão, que anseio todas as semanas ler e às quais ele chama com algum desprezo “piscinas para crianças” (por terem sempre pé) e talvez eu tivesse de admitir que ler ALA (nota: só li o “Ontem não te vi em Babilónia”) não é para mim. Sou uma pessoa simples que talvez nunca alcance as tuas “vozes” avô. Uma senhora ontem teve coragem para dizer por outras palavras que não percebera patavina dos teus livros. Perguntou-te o que dirias tu a um leitor “hipotético” que se munira de lápis e bloco de notas ao mesmo tempo que lia um teu livro para poder “perseguir” as vozes (leia-se personagens) e perceber para onde iam, de onde vinham, como reapareciam no labirinto (leia-se livro, jamais romance). Olhaste para ela incrédulo. “Labirinto? É tudo tão óbvio, tão claro, se se deixarem guiar pelos sentidos, o livro fala-vos, explica-vos tudo.” Oh avô lamento, sempre pensei ser uma pessoa intuitiva, que lia com o coração e afinal não sou, porque ao ler-te baralhei-me e fiquei assim até hoje. Gostava muito de te saber ler. Encantas-me quando num minuto dizes que te “estás nas tintas” para os leitores e no seguinte dizes coisas como “entrar no coração do coração”, “escrever sentimentos/emoções, estar no meio das vidas, ser as pessoas” ao invés de debitar simplesmente histórias. Esse binómio arrogância/sensibilidade...Essa tua peculiar maneira de ser no fundo (simplesmente) humano como nós, “os outros”. Acho-te piada que vives sem as coisas que para os outros são essenciais: cartão MB, telemóvel, computador. Para ti supérfluas. Sei bem porquê, precisas só do papel em branco, da caneta (bico grosso?) e do teu pensamento com vida própria. Só isso te basta. És uma pessoa encantadora nesse teu modo rude de ser. Só mais uma coisa, lembras-te avô da história que ontem contaste? De como te sentiste afrontado quando ao entrar maltrapilho num stand e enquanto olhavas para um Volvo Coupe que te encantou (a ti que nem ligas a carros) o vendedor te ter dito (ao cometer o erro crasso de não te reconhecer): “Isto não é para si”. Lembras-te que o compraste porque ele te disse que não podias? O mesmo se passa com a escrita. Ainda que me digas, de forma devastadora, olhando-me nos olhos com o teu azul profundo que “ela” jamais será para mim eu digo-te avô que É. E sim, será. Enquanto houver em mim um coração a pulsar, não desistirei de escrever.Um grande beijinho avô.

Andreia Azevedo Moreira.
30 de Outubro de 2008 (de manhã no comboio)

P.S. Isto a propósito da conversa com o António Lobo Antunes no "CAFÉ COM LETRAS" ontem na Biblioteca de Oeiras. Entrevista com Carlos Vaz Marques.

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