Estou pela primeira vez nestas andanças dos "blogues"... Resolvi fazer um em homenagem ao meu companheiro de 9 anos, o meu filhote, de quem tenho muitas saudades! Entretanto aproveito e vou pondo cá ideias que me passem pela cabeça! (16Set.2005)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Apesar de tudo: persistem a esperança e a expectativa.
http://www.youtube.com/watch?v=Pgum6OT_VH8
Todos os dias os espero no topo do parque. Tenho 47 anos. Estou velha. Não é por fora que estou velha. É por dentro. Velha. Ainda assim os espero. E eles? Vêm. Eles vêm velhos (como eu, por dentro), velhos por fora (quase incapazes). Outros novos. Outros, quase crianças. Podiam ser meus filhos. No início arranjava-me muito bem, como se fosse ao encontro do meu amor. Hoje já não me esforço. Tenho o cabelo mal pintado de loiro. As raízes pretas indisfarçáveis. Se o deixasse recuperar a cor natural não seria branco, seria castanho muito escuro. (Eu só sou velha por dentro). Não me importo de ter o cabelo mal pintado. Não me importo simplesmente. No início sim. Arranjava-me muito. Fantasiava o grande amor da minha vida ansioso de mim, dos meus beijos, no topo do parque, para passearmos de mãos dadas, ladeira abaixo. Talvez, até, corrêssemos felizes, por essa ladeira, para em seguida subirmos pelo lado oposto do parque. Atravessávamos os arbustos simétricos, jogando um com o outro, esquivando-nos um ao outro, divertidos. Então, ele deixar-me-ia na paragem do autocarro e eu apanharia a carreira de volta a casa. Ainda cheirosa. Ainda cuidada. Ainda enlevada pelo nosso amor. Ora isto, era mesmo, mesmo no início. Talvez antes da primeira vez que entrei num carro anónimo. Antes do primeiro odor nauseabundo, do primeiro acto mecânico desprovido de emoção, muito antes da primeira violência que sofri, do primeiro acto desrespeitoso, antes de sentir o desprezo alheio e a manipulação de frustrados. Desleixei-me. Não vale a pena o fingimento. Estou no topo do parque para trabalhar. Preciso do dinheiro. Poderia arranjá-lo de outras formas? Sim. Porque estou aqui? Já não recordo. Sei que não há, afinal, tempo para namoros. Desiludi-me. Quis ser resgatada? Muitas vezes. Não aconteceu. Acredito que aconteça. Acredito ser possível mas comigo não foi assim que aconteceu. Não é assim que acontece. Apenas isso. Perdi-me. Perdi o brio. Fui outrora bonita. Fui bonita. Fui bonita. Ainda que o repita à exaustão isso quer dizer: absolutamente nada. Fui. Hoje sou feia e sou velha por dentro. Por isso não pinto como deve ser o cabelo, por isso me deixei engordar e, se me apetecer, venho de havaianas para o topo do parque. Visto-me muitas vezes (talvez todos os dias) como quem vai à praça, de aparência descuidada, num saltinho, ainda sem o banho tomado, para ganhar tempo ao dia que é sempre curto. Para eles tanto faz. Procuram-me mas a busca não é por mim (mulher, pessoa), é por um corpo apenas (um corpo qualquer) um aluguer, um serviço. Se ausente, não esperam. Descem um pouco e encontram. Mais novas, mais bonitas, de outro género. Já não lhes sinto o cheiro. Já não me repugnam os seus corpos, demasiadas vezes imundos, descuidados também eles. Já não me importo quando não tentam, sequer, principiar uma conversa. Estou aqui para trabalhar. Tenho tempo para sonhar, longe daqui. Lá onde moro. Onde nem suspeitam quem sou e o que faço. Sabem de outra que também sou eu. A que vai realmente à praça. A que cuida dos filhos sozinha. A que sobrevive a custo. Sonho que um dia alguém me há-de ver, me há-de buscar verdadeiramente e encontrar e me dirá: “Vá é tempo de deixares isto. Descansa.” Alguém que me faça acreditar que não sou apenas um serviço, um corpo, uma casca. Não sou apenas isso. Sou uma mulher. Uma boa mulher. Uma mulher corajosa. As outras mulheres, as que ganham a vida de outras formas, passam por mim e eu vejo-as. Elas fazem por não me ver. Eu disfarço o indisfarçável. Ando uns passinhos para a frente ou para trás, consoante a direcção de onde elas me aparecem, como quem espera alguém, de facto, alguém conhecido e não um cliente. Elas passam por mim. Algumas: pena. Algumas: desprezo. Algumas: fingem não saber o que eu sou e passam rente, como se eu fosse uma aragem. Como se não existisse sequer. Ignoram-me porque sabem que talvez o seu homem também me procure. (E eu mais velha, mais feia, nada para lhes dizer, mas disponível) Desprezam-me porque faço o que muitas se recusam fazer. Condenam-me porque posso vir a ser a sua própria perdição. Nem todos querem que use preservativo. E eu faço-lhes a vontade. Tenho receio, mas preciso do dinheiro e se eu recuso, eles descem e encontram outras que não se importam com a saúde ou com a vida. No fundo só existo realmente lá onde moro. Aqui, no topo do parque, não existo. Não existo para eles. Não existo para mim. Antes não existisse, para elas. Aqui no topo do parque, não passo de uma mescla confusa de expectativas ou esperanças (minhas e dos que param para me alugar).
São os preconceitos e a ideia que muitas vezes temos, de que a nossa verdade é a única verdade, que lixam o mundo. (Somos todos assim "penso eu de que...") bjitos
Andreia Azevedo Moreira (Lisboa, 1978) licenciou-se em Engenharia Florestal e não exerce. Não estudou letras mas dedica-se-lhes com paixão. Escreveu os argumentos e os guiões das curtas-metragens «Espelho meu» (2018) e «A Escritora» (2019) em parceria com Hugo Pinto, o realizador e o argumento/guião da curta-metragem «À vida» (48HFP Lisboa) realizado por André Costa. Colabora com o projecto online fotografarpalavras idealizado por Paulo Kellerman. No papel: «Os cães ladram» (Colectânea «O país invisível», C.E. Mário Cláudio, 2016); «Pode um corpo morto» (Colecção Crateras, Nova Mymosa, 2019); «Mar Fechado» (Grotta n.º4, 2019/2020); «As paredes em volta» (Colecção Crateras, Nova Mymosa, 2020); «A vinte e quatro minutos da eternidade» (Ed. Minimalista, Antologia de contos, 2020); «Abel» (Ed. Minimalista, Contos Minimalistas, 2021), Augustine e os maus sentimentos (Nova Mymosa, 2021), Depois do abismo o canto dos pássaros (Nova Mymosa, 2022), Em português escrevo com A (Edição em papel de 06-04-2023, Jornal de Leiria), Pesar o adeus (Nova Mymosa, 2024). Liberdade e gratidão são verbos. Pearl Jam, banda sonora.