Aterrorizam-me os camaleões das emoções. Os que mimetizam os outros, consoante os ambientes, ou as conveniências, sem sentir deveras o que clamam sentir. Apavoram-me os que não sentem, mas simulam estar cheios dos mais nobres sentimentos e que invejam em surdina, vilmente, os que têm o que lhes falta. Atemorizam-me aqueles a quem não consigo adivinhar a natureza, porque o disfarce é já a própria pele. Sinto à distância intenções feias, mascaradas de beleza. Vivi (um)a farsa tempo demais, conheço-lhe de cor as manhas, as falsidades, as rasteiras. Virei costas às mentiras e hoje, fujo a sete pés se encontro comportamentos quejandos. Pudesse eu garantir que o meu sensor está avariado e dar-lhes-ia, aos camaleões em que vou tropeçando, oportunidade. Mas não tenho, obviamente, semelhante garantia, e estou demasiado dorida para dar "oportunidades" a quem não consigo, sequer, principiar a conhecer, porque se camufla. Cheira-me mal tudo o que não é genuíno, o que é forçado, o que não passa de uma representação (e não estando eu no teatro, assistindo a uma peça). Cheiram-me mal os discursos milimetricamente estudados, onde não há espaço para um encantador gaguejo. Repelem-me as palavras adocicadas em demasia, os gestos invariavelmente calmos, em que jamais caberá o desvario ou a falha (representaria a queda de todos os disfarces). Cheira-me mal quando adivinho que me estão a dar pela metade, o que eu dou por inteiro. Cheira-me mal se os vejo encher-se de características alheias, para colmatar um qualquer vazio da sua alma. Não julgo os camaleões, somente me afasto. Porque ando sem armadura e quando falo, sai-me da boca o que penso e se não sai, está-me nos olhos, nas rugas e na expressão estampado. Não me parece justo andar junto deles nua, a revelar-me, quando o que esses camaleões têm para me dar são cores volúveis e nunca a sua verdadeira essência.
Sou pouco, é certo. Mas pelo menos, quando me deito à noite, sei verdadeiramente quem sou.
Etiquetas: PENSAMENTOS
# Ideia partilhada por Andreia Azevedo Moreira @ 01:39
