segunda-feira, 28 de março de 2011

 

Coisinhas que Deia pensou ao ler O BOM INVERNO do João Tordo:


“Quero obter a(s) resposta(s) à seguinte pergunta.”

Eis o que impele a personagem principal deste romance a escrever livros. Desconheceremos, ao longo de toda a narrativa, o nome do escritor. Talvez para que nos possamos sentir protagonistas desta desventura. Sentimo-nos, de facto. Deparamo-nos com um homem desistente na medida da descrença que lhe carcomeu as entranhas. Tornou-o céptico em relação a si mesmo, à literatura – Outrora toda a sua vida. – e aos outros. Uma perna magoada, aquando de uma queda numa manhã de ressaca, impõe-lhe dor atroz, embora me tenha ficado a certeza que a deficiência era prévia ao tombo e procedente da alma, ao invés do membro acidentado. “Mesmo imaginada, uma dor continua a ser uma dor.” (Pág.16)

A certa altura é-lhe dito: “A tua perna é o teu fracasso. É a prova da tua finitude.” (Pág.99)

Embora o próprio não pense na maleita dessa forma, a “verdade” que se nos revela, é que se trata de manifestação psicossomática de doença bem mais gravosa que qualquer padecimento físico: a morte da esperança. Assim adquire o anti-herói uma bengala para a sua existência coxa. O abismo aproxima-se-lhe.

Podemos ficar tentados a considerar a história um policial. Há um homicídio, suspeitos e um louco que quer justiça pelas próprias mãos. Diria que se trata de suspense poético, com balões de ar quente à mistura, qual metáfora belíssima para nós, seres humanos, cujo destino, para que fomos talhados, é “Sermos leveza ao invés de peso” e “não temermos a morte”, porque ao temê-la “não sabemos viver.” (Pág.251).

Tentei responder a algumas questões com que o livro me defrontou, à medida que avançava na trama:

“Que farias se a tua sobrevivência estivesse em jogo? Manterias o mesmo sentido de ética que cultivas no quotidiano, quando somente o banal acontece? Serias magnânima como Elsa Gorski ou vil, farejando cega o trilho da salvação? Atropelarias pares, sem remorso, se os entendesses, dadas as circunstâncias, como inimigos?”

Escrito por João Tordo (1975) com mestria num ritmo alucinante, imbuiu-me da sensação de me encontrar lutando para salvar a pele, ao mesmo tempo que me digladiava para manter são o pensamento. Também eu caíra na emboscada e vivia o pavor da perseguição de Andrés Bosco. Quis acreditar ser capaz de ser recta estivesse realmente em Sabaudia. Temo, todavia, que perante a perspectiva da tortura e consequente morte me pudesse revelar mais traiçoeira, que qualquer um dos restantes intervenientes no enredo.

Faltou falar-vos do trágico Don Metzger, do vibrante Vicenzo Gentile, da enigmática Olivia Fontana ou da doce Nina Pascal, entre muitos outros. Não tenho mais caracteres disponíveis, pelo que, se vos acicatei, vos resta uma alternativa: Leiam-no.

150 BPM – Um livro armadilhado ao qual estive presa durante 289 páginas. Viciante. Sugerir a leitura. Mais um agraciado com o Prémio Saramago a cuja obra devemos ficar atentos.


Publicação original AQUI.

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Comments:
Como sempre, muito bem escrito!
Acicataste-me, pá! :-)))

beijinhos (outro dia foi muiiito bom!)
 
OOOOOOOBRIIIIIIGAAAAAAADAAAAAAAAAA AMIGA! :) Eu empresto-to!

Tb adorei! :)

bjinhoooossss!
 
eu estou a seguir. está bem? está bem? está bem?
 
Craro! :)
 
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