quarta-feira, 21 de março de 2012
DIA MUNDIAL DA POESIA
"EISIO":
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se e
David Mourão Ferreira
(Se alguém nos quiser elucidar sobre o que queria dizer DMF com "envolam" ficaríamos eternamente agradecidas. Sabe-se lá se não ofereceríamos uma recompensa à boa alma.)
* Obrigada Ana!
(Nota mental: Tens de te dedicar mais à poesia. Como é possível que não conhecesses estas sublimes palavras?)
Etiquetas: (DES)ALENTO, Amizade, Casa Verdes Anos, Curso de Teatro, Poesia
sábado, 22 de outubro de 2011
Leituras porvir
by: William Butler Yeats (1865-1939)
While I wrought out these fitful Danaan rhymes,
My heart would brim with dreams about the times
When we bent down above the fading coals
And talked of the dark folk who live in souls
Of passionate men, like bats in the dead trees;
And of the wayward twilight companies
Who sigh with mingled sorrow and content,
Because their blossoming dreams have never bent
Under the fruit of evil and of good:
And of the embattled flaming multitude
Who rise, wing above wing, flame above flame,
And, like a storm, cry the Ineffable Name,
And with the clashing of their sword-blades make
A rapturous music, till the morning break
And the white hush end all but the loud beat
Of their long wings, the flash of their white feet.
"To Some I Have Talked With by the Fire" is reprinted from The Rose. W.B. Yeats. 1893.
Etiquetas: Poesia, Recordar-te-ei até ao meu último dia, VIDA
quarta-feira, 22 de junho de 2011
TEMPO
sobre a sua cicatriz.
Como um perfume,
como o toque subtil de dois dedos enxangues.
Ao voltar à direita,
a caminho do guindaste,
sabia que o esperava uma barca sem remos,
e mais para cima havia um alpendre, com
trepadeiras que subiam.
Era isto o que o tempo fazia:
recomeçar, eternamente, um trabalho de oficinas
lentas.
Enredar no peito roseiras queimadas pela
estação das trevas.
E assim ia,
deambulando pelos campos,
com um archote inútil, que o vento apagava.
José Agostinho Baptista (1948) Filho Pródigo
NOTA: Encontrado no poemário Assírio & Alvim 2011.
Etiquetas: Poesia, Recordar-te-ei até ao meu último dia
segunda-feira, 7 de março de 2011
DIVULGAÇÃO:
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
LIVROS, POESIA, GAJOS QUE FAZEM O QUE GOSTAM etc. e tal
2) Ontem também o regresso da poesia em Vinyl. O que é que se me oferece dizer-vos? Que foi uma noite por demais agradável. Discordo totalmente do senhor que queria ouvir mais poesia "ah e tal tanta conversa é entediante."
Ó Zé não te apoquentes, havia quem quisesse ouvir sobre ti e a tua vida simples, feita de família e livros.
Vibrei ao saber que abandonaste biologia e te seguiste. Ouviste a voz dentro e mandaste o resto às urtigas. A segurança. O contrato. As (in)certezas que os outros tanto prezam. Admiro-te por isso. É isso mesmo. 12h num escritório, qual autómato? Não. Vai de dizer-lhes que contigo não, que há vida lá fora, coisas urgentes a cumprir. E eu doente por não ter tamanha força. Por não conseguir fazê-lo, persistindo no erro. Aprendi muito como não podia deixar de ser, ouvindo alguém que lê tanto. Apontei as dicas (preciosas) para o meu percurso de autodidacta* e achei piada porque a tua filha se chama Alice e um dos primeiros ameaços de escrita que tive, há largos anos, metiam uma protagonista com o mesmo nome. Alegrei-me com a generosa dádiva que fizeste no Miradouro Monte Agudo e foi dos tais que passou para a lista dos "passeios a dar" em dias soalheiros.
Ouvi-te dizer: "É preciso tomar partido." e respondi-te: Pois é.
De todos os poemas, o que mais me tocou foi o inédito, o tal, editado numa revista cujo lançamento ocorreu em simultâneo à nossa conversa, na Ler Devagar. Não ouvi o nome. (Que pena...) É muito bonito.
Ó Zé, era Deus (ou um anjo) perto dos teus livros? Todo branquinho... Parecia(-me). Viste-o?
E depois veio o piano, tocado pelo Manuel Matos. Um miúdo tímido, quase pedindo desculpa por estar ali, que me deu conta do coração mal começou a tocar. Para mim que nada percebo de técnica, mas entendo de amor e empenho a algo, foi sublime. Era um miúdo e um piano antes de se sentar e depois era já entidade divina, emitindo em frequência certeira ao que tenho mais recôndito. Obrigada Manuel pelas sensações.
Obrigada Raquel e Luís pela persistência.
Obrigada José Mário Silva por (te) partilhares. Foi muito bom.
Só mais uma coisinha ó Zé: a fotografia que mandaste para a LER não lembra a ninguém. Está muito distante do encanto de pessoa que ontem "conheci". É de propósito para as pessoas não saberem que és tão interessante, ou ser conde drácula da pensilvânia que gosta de envergar gola alta era requisito para colaborares na publicação?
Ora dirigindo-me de novo aos meus queridinhos leitores continuo sem perceber o que é que vos tem impedido de ir até lá. É que vale a pena caraças.
*Vocês desculpem mas ainda não sei se sigo, ou não, o acordo.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
PROGRAMA DAS FESTAS - POESIA EM VINYL
Os nossos magníficos anfitriões: Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão.
Uma belíssima poeta (Ouvi dizer. Nunca li.): Catarina Nunes de Almeida.
A querida* Margarida Cardeal de voz suave, todavia, penetrante.
Os fantásticos Dead Combo.
O apoio da RADAR.
Um ambiente bem acolhedor.
Boa comida e bom vinho.
Tenho muita, muita pena, mas pela primeira vez desde que tudo isto começou não irei estar.
Ide. Ide e depois contai-me por obséquio.
*Brinquei com ela quando era pequenita. Os nossos pais eram amigos. Guardo boas recordações do tal Bairro Augusto de Castro aka Av. Assis Chateaubriand...
Etiquetas: ALENTO, Escritores, Exemplos inspiradores, Música, Poesia
quinta-feira, 20 de maio de 2010
É HOJE:
Cliquem na imagem para saber onde a encontrei.POESIA EM VINYL com (aaaaaaaaaaaaa as vozes celestiais do costume) JOSÉ LUÍS PEIXOTO.
Será espicaçado a dizer-nos mais, por Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão. Maria João Luís recitará a sua poesia (a dele) e no fim levamos com a música de Filipe Melo e o seu trio de Jazz (que até andamos de lado.)
(Quem é que já tem mesinha reservada há um mês? Quem é? Quem é? Ah pois.)
Etiquetas: ALENTO, Escritores, Exemplos inspiradores, Música, No fundo sou uma histérica..., Poesia
quarta-feira, 5 de maio de 2010
E porque diz que fica bem citar Adília Lopes encontrei este que me falou muito:
bichos queridíssimos
palavras feias porquê?
tanta estupidez
Adília Lopes
(Terra-a-terra como eu gosto. Desconcertante e despretenciosa. PAM. Venham mais chicks destas, mas é, para enfiarem meias nas bocas dos mete-nojo.)
Etiquetas: Ah pois é, PAM, pensamentos de terceiros que me abrem os olhinhos de dentro, Poesia
quinta-feira, 15 de abril de 2010
(FILIPA LEAL + André Gago + THE SOAKED LAMB)*LFC/RM=
quarta-feira, 31 de março de 2010
Ouvido no workshop
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser
que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Alexandre O'Neill (1924-1986)
Ó Alexandre entendo tão, mas tão bem o que dizias. (A Francesca também sabia disto que pode acontecer e eu também já o senti. Confirmei-o com ela (já por duas vezes que aquilo está sempre a repetir) e tropeço nisto, de novo, agora - Desculpa o atraso. - contigo.) É do caraças, dilacerante ou que é, conceber-se um acontecimento assim. Aceitá-lo é ainda pior, porque dificílimo descer da garganta. Em todo o caso, antes vivê-lo, a não experimentar, jamais, semelhante desespero.
Etiquetas: ALENTO, Escritores, LEITURAS, Poesia, Workshops frequentados
quinta-feira, 11 de março de 2010
HOJE ISTO:
21h30 - Vinyl - Restaurante da Orquestra Metropolitana de Lisboa (Junto da antiga FIL)Menu:
Poesia acompanhada de conversa braseada e música au vin quelque chose.
Etiquetas: ALENTO, LEITURAS, Poesia, Sugestões, VIDA
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Twitter deia's list: DEIA CURTE A CULTURA
QUINTA-FEIRA: O que é que precisam mais para atentarem nessa portentosa iniciativa que é o Poesia em Vinyl hein? Não contem comigo para vir aqui constantemente contar-vos coisinhas giras pá, porque não sei se sabem, mas ouvir/ler não é o mesmo que viver e eu nem sempre poderei ir, derivado a outras cenas da minha vida privada, que fiquei a saber pelo Mexia não é o mesmo que a minha vida íntima. O que por sinal é uma chatice porque descubro agora que tenho de fazer uma pausa de instrospecção para perceber o que é que me é íntimo, e o que é que me é privado discernindo, espero, o que de ora em diante vos posso contar. Na volta já meti água e sabem mais de mim do que seria desejável. O que é que perderam ó meus 'grandas' teimosos? Desperdiçaram mais um belo serão de conversa descontraída sobre poesia e o poeta que a escreve. Neste caso o Mexia. Perderam ainda as leituras escorreitas e cativantes do Carlos Vaz Marques (aquela voz nossa conhecida do Pessoal e Transmissível, do Governo Sombra, etc. e tal) e a performance bem humorada do artista Samuel Úria - Samuel queridinho: caracol, pauzinhos ao sol ou lá o que era? Menos, Samuel. Menos... De resto tudo Ok. - mais a sua bela voz. Não relembraram a Rosa com o seu 'Chamar a música' também pelo Samuel. Falharam a oportunidade de fazer perguntas aos presentes (Deixem lá que eu também. O dia em que serei capaz de elevar a voz perante uma plateia, para dizer o que quer que seja, será talvez somente aquele em que me vendo aflita diga em bom tom: ACUDAM! ou assim. De resto não estou a ver. Fico com as perguntas para mim é o que é.) E, mais uma vez, não jantaram com amigos num restaurante que prima pela qualidade (Sim Bzuu os senhores estavam desorientados. Mas era muita gente e nós desculpamos pois é?), não beberam um bom vinho, não riram, não estiveram presentes e fizeram falta pá. É isto.
SEXTA-FEIRA: BLACKBIRD no TDMII (acaba amanhã, se ainda vos for possível não percam.)
Xiiii. Não sei o que dizer, como o fazer, ou por onde começar. Tenho, ainda, uma bola de futebol no estômago. Disseram-lhes que o seu amor era doentio. Falaram-lhes em aberração e eles acreditaram. Leram livros que confirmassem o mal. Documentaram-se, encheram-se de dúvidas, revoltaram-se, perderam. Essencialmente perderam. (Tantos anos.) E eu não sei dizer porque foram apartados aqueles dois. Se por estrangulamento da sociedade que não admite as excepções, se porque havia, de facto, algo de errado com ele(s). Até que ponto a verdade corresponde às imagens que os olhos nos devolvem e a mente processa? A náusea apoderou-se de mim. Não soube que partido tomar. Ignorei que opinião formular (e se eu sei ser irritantemente sentenciosa). A dúvida instalou-se (Recordo outra peça com esse nome "Dúvida". Magnífica. No MM com Diogo Infante e Eunice Muñoz entre outros. Outra abordagem ao mesmo tema.). Não sei. Simplesmente: Não sei. O meu lado perverso e condenador a digladiar-se com o meu lado devoto ao Amor. "Esse" para quem não há obstáculos, espartilhos, regras. Apenas um "respirar", um "existir" inexplicavelmente ainda que terceiros ordenem (um)A explicação para o ocorrido. Não sei se eles foram doentes, se tão só se amaram e em redor ninguém soube entender. Eles tão pouco. Também eles quiseram crer que não passara de um episódio funesto. E, no entanto, sem se esquecerem. Uma vida inteira (quinze anos dá uma vida, adolescente, é certo, ainda assim, uma vida) sem que a moléstia se curasse. Por conseguinte: o (inevitável) confronto. O embate melhor que o silêncio. Os pontapés, os gritos, as agressões, mais suportáveis que a(s) dúvida(s), as omissões. Quinze anos volvidos ainda o desejo, porém, o medo. No fim o Amor? Ou a dúvida indelével? Uma bola de futebol no estômago é o que vos digo. Ainda a tenho aqui a agoniar-me. Nem sempre o que parece é, ou o que é (a)parece.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
POESIA EM VINYL
Ai que foi tão lindo por deus!valter hugo mãe (man! És um curtido man! O que me ri contigo man!)
(oube lá, a tua boz fez-me lembrar a do Anthony. Dos Anthony and the Johnsons. Que é que pensas disto?)
(Valter queres saber uma gira? Já passei férias numa casa de pescadores em Caxinas. Lembras-te mana? Era aquela que em vez de sanita tinha dois sítios para os pés e um buraco ao meio. Cool...)
Raquel Marinho e Luís Filipe Cristóvão sois grandes por terdes semelhante trabalho, apenas porque sim. Porque é bom e quê. Parabéns!
Ó Sô Fernando Alves que belíssima voz com que deus o presenteou hein?
JP Simões filho, não me impressionaste por aí além, com a atitudezeca "I don't give a shit. I'm above all of this." Tens uma bela voz, é um facto, mas o charme de rapaz de intervenção, rebelde, ou lá o que era, que ao início ainda apresentavas, rapidamente deu lugar ao desinteresse. Perdoa se estou a ser injusta. Foi o que de ti chegou até mim. Mais oportunidades teremos de nos entendermos...
Quem é que está lá batidinha p'ro mês que vem perguntam vocês seus grandes cuscos?!
- EUZINHA. Pois.
Vejam que enlevo:
Poeta: Pedro Mexia
Declamador: RAP (aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Eu não sou histérica! aaaaaaaaaaa)
Músico: Samuel Úria.
Jantar: Sugiro o menu de degustação. Também tem "hambergas" e tapas e tostas e sopinha.
E ainda... Um grupinho todo catita que se me dão licença já apelidei de "grupinho todo catita que vai ouvir poesia, não sem antes provar o menu maravilhoso de degustação que os senhores têm lá para a gente, no vinyl."
O que é o Vinyl?
É o restaurante da Orquestra Metropolitana de Lisboa.
18 de Fevereiro de 2010 lá estaremos. PAM.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Gostei de a ouvir Marinho. (Já os linquei.)
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sábado, 21 de março de 2009
O homem do acordeão (no semáforo)
O homem do acordeão (no semáforo) toca resignado. Olha os que por ele passam com o ar de quem já nada espera do que lhe coube em sorte. Este homem não pede, não se finge disforme. Não pretende piedade. Dá aos outros, os dos automóveis confortáveis, o que sabe fazer, esperando que alguém o entenda. Alguém que sinta empatia e lhe ouça a melodia pungente. Não pede. Dá. Trabalho como qualquer outro. Presta um serviço: o de musicar a vida dos que vegetam no trânsito, repetitivo quotidiano. Não estende a mão, não se finge incapaz, antes solta a sua melodia e aguarda resignado que alguém perceba a situação que ali se apresenta. Sei fazer isto. Aqui está. Decidam. Poucos o entendem. Vejo-o daqui (do autocarro). Trancam-se portas, sobem-se vidros, viram-se caras receosas. Ignora-se. Aqui, distante, vejo-o bem e angustio-me. A distância, não raras vezes, a revelar-me tudo mais nítido (apesar da miopia). Do autocarro posso afirmar convicta que o entendo e que o ouço. Se lá em baixo, tê-lo-ia visto? Tê-lo-ia ouvido? Ou um pensamento: lá vem mais um, enervado e intolerante. Uma janela que subi, a cara que virei, a porta que tranquei. Não sei. Eis que uma mulher o vê. Abre a janela, conversa com ele, esgaravata o cinzeiro em busca do que lhe possa dar. Sorri-lhe. Não é que ele se alegre ou se mostre efusivo, a resignação não deixa espaço para manifestações desse calibre. Alegro-me eu porque ela o viu. Sorrio também, daqui distante. Porque aquela porta não se trancou, a janela não subiu, a cara permaneceu direita a encará-lo, a vê-lo. Aquele coração que não se fechou. Outro dia, fotografias de rafeiros de Lisboa, penduradas numa parede. Alguém vira estes rafeiros, achou-os dignos de nota. Alguém os viu, não virou a cara. Alguém os imortalizou para que outros os vejam, para que outros saibam que eles andam por aí, olhar meigo. Não pedem esses cães. Não se fingem disformes ou incapazes. Dão o que têm para dar, se os deixarem. Olhar resignado com o que lhes cabe em sorte. Hoje é o dia em que me alegro, porque há pessoas que (ainda) vêem. Ainda bem.
“HAPPY GO LUCKY” o filme de ontem. Um alerta subtil. A mensagem disfarçada de muito riso. Não se enganem, um filme alerta. Filme bofetada. Espero que andem por aí muitas “Poppy”. Coração e mente abertos. Alegria de viver. Acreditar que é possível fazer pelo menos uma pessoa feliz. Coração que vê e ouve. Todo o filme me falou (me gritou), a cena porém que mais me tocou é aquela em que ela segue o lamento de uma voz. Um sítio escuro, assustador e ainda assim atender ao queixume, mais importante que o medo. Encontra um homem, aparentemente louco. Discurso desconexo. E mantém-se ao lado dele a ouvi-lo. Simplesmente ouvi-lo. Era tudo o que ele precisava. Que alguém o ouvisse. Que filme. Não percam. (Monumental).
Um lema que me falou a adoptar para a vida: “Não te fiques.” O dia-a-dia uma luta contra a banalidade e por vezes, na tentativa de realizar conquistas que são meramente pessoais, esqueço-me que não me devo ficar também noutros aspectos. Não me quero ficar nas injustiças. Não me quero ficar quando posso lutar. Não me quero ficar se puder fazer alguma coisa nem que seja, apenas, pela tal "uma pessoa". Não me fico. Por mim. Pelos que me rodeiam. O meu ridículo papel melhor que nada. Sacudo a inércia a partir de hoje. Não tenho plano. Acredito que se me irá revelando, desde que não vista o coração de egoísmo. Basta que ouça, que veja e queira estar atenta.
E hoje, depois de alguns dias em que a vida se me afigurou sem sentido (são dias em que me dá a travadinha), todos estes acontecimentos, aparentemente díspares, a encaixar-se e de novo o fôlego para não perder de vista o que (me) é realmente importante.
A propósito de hoje ser dia Mundial da Poesia:
DESPERTAR
É um pássaro, é uma rosa,
EUGÉNIO DE ANDRADE
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terça-feira, 30 de outubro de 2007
Hora
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Etiquetas: Poesia
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